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Prisma

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Diga aí, amizade!

Experimente digitar “amizade em tempos…” no Google e veja como ele completa a frase. Não precisa, já te dou a resposta: o buscador lhe dará as opções “modernos”, “de solidão”, “velozes”, “de internet”, “de facebook”. Está montado aí o jogral da superficialidade, do vazio, da falta de amor e da intolerância. Excesso de contatos, falta de tato. E cegueira, surdez, mudez. À medida que meus projetos profissionais avançam e que implemento uma reforma monumental nos meus modos-métodos-crenças e até nos meus sentimentos, quase todos padecendo de velhice acompanhada de insustentável decadência, percebo um recuo de participação no meu dia a dia dos chamados “vínculos autênticos”. Explico: quase nunca estou com quem quero de fato estar. Estar por estar. Não deve ser à toa que a sala de visitas burguesa também recebe o nome de “sala de estar”. Apenas estar na sala, aproveitando as risadas de alguém querido, entre discos, drinks e dados. Se eu anotar o número de vezes no ano em que me permito fazer isso, verei o quanto essa experiência aparentemente banal virou uma ocasião especial na minha vida. Que soem as trombetas se eu conseguir convidar meia dúzia de pessoas para vir à minha casa jogar conversa fora, sem qualquer propósito, seja ele social, artístico ou profissional, no próximo mês. Eu me comprometo a avisar neste espaço se consegui. Duvido que eu vá.

Eu vinha amuada com esta sensação de descolamento das pessoas e me perguntando se era só comigo. Esse “descolamento” significa uma vexatória preguiça de responder àquele “como vai?” com a riqueza de detalhes que eu costumava dedicar à resposta, além de mensagens cada vez mais esparsas, uso excessivo daquele carioquíssimo “um dia, a gente combina” e daquele paulistaníssimo “tô trabalhando demais”. Quando nossas vidas inteiramente ocupadas viraram a grande desculpa para que não consigamos mais preenchê-las? Meu questionamento soa como paradoxo se você não sentir como o dominó interminável das tarefas com seu ritmo alucinante vai diminuindo a possibilidade de aproveitar o calor do afeto das boas companhias desinteressadas. Mesa cheia de peças sendo derrubadas num jogo muito eficiente e cadeiras vazias à sua volta.

Então, num mesmo dia, dei de cara com umas três reclamações sobre solidão, falta de encaixe e o tal descolamento na minha ‘timeline’. A conclusão era de que ninguém mais tem tempo pra jogar conversa fora. O sentido de utilidade, de só ter conversas que levem à conquista de algum objetivo, ainda que esse não seja próprio, já que trabalho pode pressupor a construção de algum bem comum, substituiu o prazer da convivência. Como sintetiza o professor Raymundo Lima em artigo sobre a oposição política ‘versus’ amizade, escrito em 2006, “nos dias de hoje já não importa ter amizades autênticas, mas relacionamento úteis”. Falta disponibilidade, ele afirma. Mas será só de tempo?

É verdade que o trabalho drena as energias e também é verdade que brasyleiro(a) tem que assoviar e chupar cana se quiser levar alguma féria pra casa, ainda mais em momento de crise aguda, mas eu começo a achar que desaprendemos a conversar por causa da onipresente tela. E sem conversa, não tem amizade que se estabeleça e/ou se mantenha. As interações diárias com muita gente, dispersa, em sua maioria, em rápidos comentários públicos e mensagens privadas mastigadas e protocolares sugaram talvez o pouco tempo que nos reste fora do modo trabalho. O trabalho, por sua vez, nunca esteve tão misturado às nossas vidas pessoais, principalmente quando nosso fazer remunerado é vinculado aos saberes da sociedade. Foi algo que quisemos muito, não foi? Unir o escritório às nossas casas. Viver a plena comunhão dos nossos gostos, ‘hobbies’, verdadeiros interesses e vocações com a produtividade, a máquina de gerar lucro, o emprego do nosso precioso tempo. Home office. É nítido que a existência é mais recompensadora quando ganhamos dinheiro e reconhecimento com o que gostamos e sabemos fazer, mas será que este movimento de vida mais fluida, com todos os compartimentos aparentemente abertos – até mesmo na arquitetura contemporânea, que professa a integração dos ambientes, eliminando as portas e divisões – está fazendo bem pra nossa casa 11, a casa da amizade?

Talvez não. Uma roda de políticos me vem à cabeça. As redes sociais, que são também, ferramentas de ‘business networking’, somadas a este estilo pervasivo de trabalho, podem ter nos transformado em políticos. “A política não só separa amigos de inimigos, separa também amigos de amigos e, pior, tende a juntar inimigos conforme interesses do momento”, escreveu Raymundo Lima. Ui. A política que instrumentaliza as relações, já que sempre há um terceiro elemento condicionando essas relações, seja ele uma causa comunitária ou um interesse particular, opõe-se à amizade onde querer estar com o outro basta. Querer estar e querer bem como imperativos. Se alguém some do nada da sua vida, sem dar uma satisfação, ou com afirmações muito quantitativas acerca de retribuições que não são afetivas, mas de favores, a possibilidade de nunca ter existido este desinteressado “querer bem” é bem grande. Cícero dizia que a amizade verdadeira não fica, severa, a controlar se está dando mais do que recebeu, mas parece que o “cálculo sobre a relação” é um hábito inescapável em tempos de “planilhar” tudo que fazemos, gastamos e desejamos. Na Bolsa de Valores das amizades, tem sempre uma ‘commodity’ que cai e outra que sobe, e os mais atentos vão até dar um ‘hide’ naquela que está valendo pouco.

Uma das reclamações que pintaram na minha ‘timeline’ naquele dia foi de uma amiga que desabafou sobre sentir falta de os amigos perguntarem como ela está e de amigos “que se eu chamar pra conversar, eu possa falar de qualquer coisa”. Doeu no peito ler isso. Ela concluiu ser “culpa da modernidade” e que o melhor talvez fosse mudar-se da cidade em que as presenças são cada vez mais raras, “porque amigos pela internet eu vou continuar tendo, sempre”. Mas, talvez, o problema seja justamente esse, a internet que está em todo lugar e que dá a impressão de que temos uma porção de amigos. O simpático e talentoso jovem artista dos Países Baixos, Yuko Yuko, aliás, acaba de lançar seu álbum-cassete “More than a Facebook friend”. É a internet a ‘superstar’ do que minha amiga chamou de “modernidade”.

Quando dei de cara com a pungente reivindicação por atenção de minha amiga, me dei conta de que todos e todas estamos sentindo que não estamos nos comunicando direito. O discurso do ressentimento está na ponta da língua, porém, poucos deixam que isso escorra para o mundo espetacular das redes sociais. Ainda é preciso esconder como o binômio essencial sucesso-fracasso está pautando nossas vidas e mais ainda, nossos vínculos afetivos. E é claro que esse binômio tem se tornado tão central também porque vivemos em torno dos nossos perfis. Essa má comunicação da qual tanto falamos tem a ver com EXCESSO DE INTERAÇÃO INTERESSADA, algo que foi facilitado pelas redes sociais. Se falta desinteresse para que você pare de buscar mais alguma coisa pra saber apenas uma linha a respeito, em vez de ir ler as dezenas de ‘saved links’ que já acumulou, falta, também, desinteresse pelo que o outro pode render a você. Estamos interessados demais e interessantes de menos. Desinteresse-se por algo ou por alguém, agora. Desinteresse-se por aquele projeto, aquele ‘networking’ esperto, aquela oportunidade imperdível e dê afeto. Falta rede na varanda com uma longa prosa mineira acerca do nada e sobra rede social gerando antisociabilidade.

Penso que um efeito colateral disso tudo é esta vontade crescente de dar uma guinada para a vivência em tribo. Essa coisa de voltar-se para comunidades alternativas, ecovila, permacultura, construção de novas cidades. Como seríamos num lugar/sistema em que dependêssemos, muito visivelmente, uns dos outros? Teríamos disponibilidade de alma para nos relacionar e trançar nossas trajetórias pessoais? Para escutar e ceder? Como seriam as decisões tomadas por uma comunidade menor? Ao mesmo tempo, penso se essa não é uma idealização assaz romântica e que nas tribos de outrora, vários sujeitos eram simplesmente impossibilitados de viver sua individualidade por radical necessidade de sobrevivência e que os laços, nestas circunstâncias, portanto, eram tão somente forçados. Assim como os de hoje, nos tempos em que nem toda a tecnologia ‘wireless’ do mundo disfarça esta “fiarada” emocional que nos enrola em interações vazias-úteis.

Nós nos acostumamos às distâncias falsamente eliminadas pelos agentes computadorizados do maravilhoso novo mundo global e estamos com ressaca de “conhecer” tanta gente e ao mesmo tempo, sedentos por contato humano. A exposição a opiniões contrárias e outros mundos dos quais não fazemos parte, pela internet, poderia levar a um encantamento pela diferença, e à absorção de novos códigos que expandissem a nossa experiência de realidade, mas parece que vem apenas fortalecendo o oposto: a intolerância. A falta de amizade no coração é proporcional à falta de tolerância. Estava pensando sobre a possível ligação do declínio da amizade desinteressada com a ascensão da intolerância quando caí no texto de J. Douglas Alves na Obvious Mag, em que ele manda a seguinte letra: “As guerras, as injustiças que ocorrem no mundo, são consequência do não-cultivo da amizade entre os seres humanos. Onde não se educa para a amizade, floresce o egoísmo, o isolamento. A amizade ainda é o antídoto para anular o preconceito, o racismo, a indiferença, a prepotência (…)”. O autor acredita, como Eduardo Galeano, que a “solidariedade é o eixo das relações humanas”. Portanto, aquele desfazer do compromisso de uma amizade porque está pesando muito a relação, porque haverá a tão temida responsabilidade pelo bem estar do outro, está diretamente ligado, sim, a muitas das mazelas que estamos experimentando num escopo maior.

Então, quer um conselho, amigo ou amiga? Deixe um ‘post-it’ lembrando você de mandar uma mensagem para aquela pessoa que não lhe dará nada além de afeto e sentido de pertencimento ou uma conversa agradável. Talvez, até uma conversa desagradável e não é legal que você fuja dela porque o desagradável também faz parte da vida e das interações humanas. E depois, deixe mais um ‘post-it’ para lembrar de continuar essa conversa, que só deve acabar quando o prazer ou a importância da troca naturalmente se esgotarem. Observando que o “nada além” aí em cima é força de expressão. Provavelmente, isso é tudo que você realmente levará desta passagem aqui na Terra. Ou que, pelo menos, a tornará mais interessante. Como cantaram os Beatles, “I get by with a little help from my friends”, mas só vale se essa ajuda for a presença, e não, um presente que re-presente um ganho palpável, deixando claro que não é problema receber ajudas palpáveis de amigos, mas que basear suas trocas afetivas nisso, é.

“Mother my friends are no longer my friends
And the games we once played have no meaning
I’ve gone serious and shy and they can’t figure why
So they’ve left me to my own daydreaming.”
– Suzanne Vega

L.A. é um caleidoscópio: escritora, poeta, jornalista, agitadora cultural, curadora, DJ, artista visual, decoradora, ocultista, mãe, geminiana e o que mais não couber em duas linhas. Escreve neste espaço às terças-feiras. E-mail:leilah.accioly@gmail.com

Imagem: Spice Girls, que cantaram tanto sobre a amizade.

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