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Notas Perfumadas

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O mundo da perfumaria natural

Quando a Vertigem me convidou para falar sobre aromas e plantas, resolvi que não iria escrever sobre receitas básicas, como “lavanda serve para aquilo ou para isso”, “sálvia se usa desse jeito”, pois já existem muitos textos com esse importante conteúdo na rede. Minha ideia aqui sempre foi revelar o mundo mágico dos cheiros naturais, sejam eles das plantas, dos minerais, dos líquidos ou dos nossos próprios corpos e emoções (sim, emoções também têm cheiro!).

Perfumes naturais são muito especiais e, como costumo dizer, não são apenas cheirinhos gostosos ou diferentes, eles auxiliam a captar nossa própria essência, a fazer contato com aquilo que não conseguimos junto à visão e ao tato. É claro que saber para que serve e como usar uma lavanda é de extrema importância se você faz parte ou tem vontade de adentrar o mundo dos aromas naturais, da aromaterapia, dos perfumes ‘indie’. Porém, fazer contato com o seu objeto de estudo olfativo, senti-lo e aumentar a sua percepção sobre ele é tão importante quanto ter uma lista decorada sobre efeitos dos óleos essenciais.

O mundo da perfumaria natural é sublime, etéreo, não impactante e, muitas vezes, suas notas aromáticas não são reconhecidas por um “nariz destreinado” por anos de cheiros sintéticos. Elas chegam pedindo passagem (mesmo os mais gritantes, como um alecrim), se apresentam em nuances, e, no decorrer de um dia, algumas tonalidades podem não te agradar tanto: trazem choro ou nos deixam em ‘slow motion’. Talvez você queira falar menos e ouvir mais, e isso é o perfume natural conversando com a sua essência. Na verdade, o seu próprio perfume natural (os aromas do seu corpo — chamados de humores — mostram seu estado comportamental ou físico, mas perdemos essa capacidade de sentir os “autoaromas”).

Talvez você não saiba nada sobre aromaterapia e nem mesmo saiba o que é um óleo essencial, que já expliquei aqui, mas, se você se permitir inalar com paciência e entrega o aroma de uma simples rosa na feira, você conseguirá, poeticamente, descrever a medicina dela. Eu acredito em um “inconsciente olfativo primitivo”* passado de geração em geração, de mãe para filho, ainda no ventre,  e “gravado”, por longo tempo, em nosso DNA e sistema neural.

Trabalhar com perfumes naturais não é mera química de elementos aromáticos, e utilizá-los não é apenas borrifar-se com um cheiro. Essas artes aromáticas carregam em si rastros de histórias, memórias e emoções de quem as usa, de quem as produziu e do próprio objeto-artefato, seja um pedaço de tronco, um musgo, um óleo de rosas, um corante natural ou um cristal.

Perfume natural e personalizado é único, porque somos únicos, porque os artefatos de criação também são únicos e essa é a principal diferença entre um aroma natural e perfumes sintéticos, que são produzidos aos montes de forma idêntica. Afinal, no pensamento ocidental, a capacidade de produzir milhares de “peças” perfeitamente iguais é sinônimo de qualidade. No mundo dos perfumes alquímicos, orgânicos e naturais, sabe-se que tudo e todos são diferentes, e é exatamente nesse aspecto que eles exalam a sua principal especialidade: a unicidade, por mais simples que seja.

*temo cunhado por Palmira Margarida.

Palmira Margarida é historiadora e pesquisa a história dos cheiros, é a pisciana mais ariana de que se tem conhecimento. Descende de italianos e adora uma massa, mas fala sem gesticular. Ama viajar e captar os aromas das trilhas, das culturas e das ideias. Está em busca do profundo perfume do Ser. Escreve neste espaço às quintas-feiras. E-mail: margaridalquimia@gmail.com

Imagem: www.wikihow.com

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