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Sentimento do Mundo

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Medo de trovão

Chove lá fora e lembro que, desde pequena, tenho medo de trovoadas. O que é engraçado, se pensarmos que é um medo retroativo: trovão é um “forte ruído provocado por descarga elétrica na atmosfera”. Porém, como a luz é mais veloz que o som, primeiro vemos o clarão, depois ouvimos o estrondo – o que, cá entre nós, é muito mais assustador.

A verdade é que, quando criança, um dos meus maiores medos era ser atingida por um relâmpago. Ele invadiria minha casa pela janela, estraçalhando os vidros, e me atingiria em cheio. Ou então me acertaria enquanto eu estivesse na piscina. Eu saía da água, ou de perto da janela, para que não pudesse enxergá-los. Em casa, até cobria os espelhos para evitar chamá-los, segundo dizia uma antiga superstição.

Juntavam-se a ele o medo de cair no tanque do jacaré no zoológico, o de ser sequestrada por uma nave alienígena para servir de cobaia em pesquisas científicas, o de um ventilador de teto da escola cair na minha cabeça e o de descobrir, um dia, que Deus não existia e nada fazia sentido. Na maior parte das vezes, no entanto, bastava minha mãe dizer que garantia que tudo iria ficar bem que eu esquecia meus pânicos infantis.

O tempo me faria encontrar muitos outros medos pelo caminho. Como o de não ser realmente boa em nada. De no fundo não ser uma boa pessoa. De não conseguir realizar meus sonhos. De descobrir que alguém de quem eu gosto na verdade não é nada do que eu imaginava. De não poder confiar em ninguém. De nunca mais amar outra vez. De não ter dinheiro para pagar as contas no fim do mês. De que a vida não seja muito mais que pagar contas no fim do mês.

Eu descobriria que, muitas vezes, a realidade não está tão longe assim da imaginação*. Ouvir da minha mãe que tudo vai dar certo foi deixando de ser infalível (embora ainda funcione boa parte das vezes). E o que não falta são medos nessa nossa caótica odisseia terrestre: violência, injustiça, pobreza. Não à toa um dos males do nosso tempo tem origem no medo, a síndrome do pânico.

No entanto, aprendi também que não preciso ficar paralisada por ele. Há que se seguir, apesar dele. Cobrir os espelhos, ficar longe da janela, sair da piscina podem ser boas atitudes: enfrentar o medo não significa necessariamente provocá-lo. E finalmente entendi que, quando o barulho chega, é que o pior já passou.

Kamille Viola é jornalista e há muito tempo sonha ser também cronista. É fã de Rubem Braga, Drummond, Carlito Azevedo e Alvaro Costa e Silva, o Marechal. Escreve neste espaço às quartas-feiras. E-mail: kamilleviola@gmail.com

Imagem: www.imediata.org

 

* “Pais tiram filho da boca de crocodilo”. Folha de S. Paulo, 16 de julho de 1996.

* “Ventilador de teto cai e atinge criança de 8 anos em escola do ES”. G1, 24 de fevereiro de 2015.

* “Atingido por raio, casal morre de mãos dadas na praia”. Veja, 7 de janeiro de 2013.

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