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Engole o Choro

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O desafio da maternidade feliz

Se você pensar bem, é até autoexplicativa essa “brincadeira” a que as mães resolveram aderir no Facebook esta semana. Eu DESAFIO você a encontrar e postar TRÊS fotos que mostrem como você é feliz por ser mãe. Vamos combinar uma coisa, antes de tudo: três é uma quantidade ínfima (duvido que você, mãe como eu, não tenha tirado mais de 15 milhões de fotos do seu filho desde o dia em que ele nasceu). Mas é isso: você vai lá e escolhe três fotos que mostrem a plenitude da sua maternidade, o quanto seus filhos enchem sua vida de significado e amor, o quanto você é feliz por ser mãe. E, se você tá nesse bonde da maternidade maravilha, não deveria ser difícil a ponto de ser um desafio, concorda? Eu, hein!

Eu, que não escapei nem daquele absurdo que foi a corrente anti­aborto mostrando fotos da gente grávida (não, eu não aderi, e jamais o faria), não escapei de novo. Nem sei quantas pessoas me marcaram nisso. Em uma delas, eu até comentei “ai, vou deixar de preguiça e fazer”, mas a verdade é que eu não tenho a menor intenção de fazer alguma coisa desse tipo. Como bem disse uma amiga minha: não tenho saco nenhum pra provar pro mundo o quanto sou feliz e boa mãe.

Isso foi a primeira coisa que essa corrente me fez pensar: por que as pessoas querem sempre provas de que a gente tá feliz sendo mãe? Mais que isso, por que a gente se sente tão tentada a fazer isso? Eu mesma publico mil fotos dos meus filhos todos os dias, embora ache que, bem ou mal, eu consiga balancear um pouco o lance da felicidade acima de tudo. Em minha defesa: nunca usei as hashtags da magia maternal… Hahahahahahahahahahaha.

Bom, e aí me veio a segunda coisa: a menina que foi bloqueada no Facebook porque resolveu aceitar esse desafio, mas mandou a real, mostrando que a coisa não é exatamente só boa. MAMEUDEUSDOCÉU!!!! Como que pode alguém ter a indecência de denunciar um perfil porque a menina disse que ser mãe é difícil? Sério, Brasil, você não está preparado pra essa verdade? E então vi que os médicos formados pelo Google diagnosticaram a garota com depressão pós-­parto. Porque é óbvio que, se ela não quer que o mundo ache que a vida dela com o filho é apenas maravilhosa e nada mais que isso, só pode ser porque está deprimida. Mano, REALLY?

Eu tive depressão pós-­parto. Duas vezes. Eu vivi um inferno por conta disso. Mas você acha que algum dos meus contatos do Facebook ficou sabendo disso? Claro que não! Porque, mesmo estando na mais absoluta merda, eu nunca deixei de mostrar uma foto fofinha dos meus bebês. Então essa moça vem e dá uma mãozinha pra quem tá lá se sentindo a pior pessoa por não estar nem um pouco a fim de publicar três fotos que mostrem o quanto você é feliz por ser mãe e o que vocês fazem com ela é dizer que ela tá doente? Acordem!

Eu sei que existem pessoas pra quem essa maternidade feliz é a real. Eu conheço algumas. Gente que não se incomoda de acordar cinco, seis vezes numa noite, gente que aceita que é isso mesmo, que até tomar um litro de vômito na roupa é algo que deixa saudade. Bom, eu não sou assim, e muita gente não é. E sabe o que não ajuda? Cobrar que a gente seja. Então, pelo bem de todos, vamos parar com essa mania de desafiar as pessoas a fazer coisas que você considera elogiosas (amiga, te marquei porque acho você uma suuuuper mãe), mas que podem não ser (amiga, estou morrendo sem dormir, sem comer, sem poder nem chorar, então pega esse seu desafio e vai dar uma volta)? Mas acima de tudo, gente, vamos parar com essas correntes TODAS? Grata.

Leticia Lamas é jornalista e mãe de dois. Escreve neste espaço às sextas-feiras. E-mail: lamasleticia@gmail.com

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