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Prisma

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Mamãe está de ressaca

Quando engravidei em 2010 — justo eu, a “diferentona” antimaternidade, que jurou durante toda a sua adolescência e mais que não se tornaria mãe, que priorizaria a carreira, a escrita, o estar no mundo para ter suas próprias experiências, desvinculada de qualquer apetrecho humano (era assim que eu entendia a coisa) que fosse custar caro e dar muito trabalho, e nunca mais a permitiria ficar sozinha —, testemunhei o ‘boom’ dos blogs maternos. Era o incrível alvorecer dos relatos acompanhados por ultras com corações circulando as imagens incompreensíveis de fetos com “glitch”. Era o incrível alvorecer de um mundo rosinha e lilás com fru-frus e relatos arrepiantes sobre partos, peitos, chupetas, com direito a tudo que as revistas não diziam. Era o incrível alvorecer de termos como “parto humanizado”, “maternagem” e “slingar”. Naquela época, eu também aprendi que a onipresente sigla misteriosa “RN” queria dizer recém-nascido, e nunca mais RN significaria apenas Rio Grande do Norte. Descoberta importantíssima também foi o “cueiro”, item-enigma da interminável lista do enxoval. Deixando as piadas de lado, naquela época, encontrei amparo na maior parte do universo blogueiro maternal, embora me assustasse com a quantidade de dedicação daquelas mulheres, não só às suas crias, mas a toda uma nova vida em função delas. Estava patente naqueles textos e imagens que as coisas nunca mais seriam as mesmas depois de um adorável RN se dependurar nos seus mamilos e braços e pernas e tudo mais.

Naquela minha vida solitária de empregada corporativa dez horas por dia, órfã de mãe desde os 21 anos, e já sem ambas as avós, além de amiga de apenas duas mulheres com filhos, toda a “partilha”, como as blogueiras se referiam ao ritual de escrever e comentar sobre as intensas experiências da maternidade, vinha da leitura daquele círculo virtual que se formava. Eu estava muito maravilhada com a possibilidade de saber sobre como cada mulher resolvia a cólica do seu bebê e muito esperançosa sobre os tempos da humanidade na internet por causa daquela aliança, que eu sentia ser tão real, com aquela comunidade. Pensava também que eu não devia ser a mais solitária de todas as mulheres, afinal, se tantas estavam sendo impelidas a documentar e expor suas angústias e conquistas relacionadas à maternidade na rede mundial de computadores. Logo, cheguei à conclusão de que elas talvez não estivessem, propriamente sozinhas, mas se sentindo sozinhas na tarefa/missão/loucura de criar um ser humano. E que talvez não se sentissem à vontade para debater sobre a tarefa/missão/loucura com outras mulheres ao vivaço, quem sabe porque a presença de outra mulher não automaticamente as confortasse, diminuindo a tensão e o tamanho dos problemas, ou, simplesmente, pelo contrário, as censurasse. Comecei a pensar em como as pessoas, inclusive, as mulheres, especialmente as mais velhas e calejadas, falavam da minha gravidez. Comentários de elevador nunca brandos, como “aproveita enquanto tá na barriga, porque depois….”. Aperta o S de subsolo, por favor, querida. Achava que nada daquilo era exatamente encorajador. O mundo real de elevadores, supermercados, pracinhas, shoppings, portarias, esse mundo real de classe média, é munido de um arsenal de respostas prontas como congelados ditos sadios que não deixam espaço para uma abordagem mais natural e orgânica da coisa. Tudo bem, estava entendido que as mulheres estavam se unindo pela internet num ‘flash mob’ de desabafo sobre a extrema dificuldade de ser mãe e buscando ajuda umas nas outras. Porque é claro que a maioria das postagens nesses blogs era sobre tentativas, frustrações, perturbações, incoerências e, principalmente, DÚVIDAS acerca da experiência mamífera humana. Era mais ou menos como um bando de machos se juntando pra destrinchar manuais de instruções de máquinas muito complexas. “Vai por aí que dá certo”, “tenta isso aqui”, “não, colocar mais disso não vai adiantar”.

Não fui parte ativa dessa confraria, preferi observar calada e não “partilhar”. Levava minha gravidez sem estardalhaço de tão oprimida que estava (e só hoje entendo isso) pelas marcas que as grandes instituições iam deixando na minha vida incerta, estranha e pueril de escritora-poeta. Eu estava casada, servindo ao Grande Capital, enquanto tentava construir uma carreira no jornalismo. Além do mais, trabalhava num regime em que sentia meu comportamento sendo vigiado 24 horas. Precisava ser discreta e não verbalizar grandes coisas. Em compensação, calórica compensação, fui comendo tudo que via pela frente e tomando toda a coca-cola disponível na face da Terra até engordar inacreditáveis 25 quilos. Naquele momento, eu era radicalmente contrária ao Facebook e não tinha nem perfil ‘fake’ na rede social, o que me distanciava ainda mais da possibilidade de trocar informações com mães novatas como eu. Mas, como audiência assídua e silenciosa de uns dez blogs, era fácil identificar duas questões naquele universo: havia uma enorme variedade de soluções para os problemas de um bebê, que dependiam da natureza destes e da tal da “composição familiar”, ou seja, não havia consenso sobre como parar uma cólica enlouquecedora, daquelas que fazem o melhor RN desde Jesus Cristo gritar por sete horas a fio, por exemplo; só havia um consenso, no entanto, que era sobre a exigência de um parto natural humanizado, através do qual e só pelo qual você seria sagrada a grande mãe perfeita e incondicional. Ops, essa era a imposição de uma senhora condição! Bem, devorei relatos sobre vaginas que se abriam, elásticas como um iogue indiano de 100 anos de prática, ao menor toque. Relatos sobre a emoção incandescente e inigualável de ter um bebê deitado imediatamente após vir ao mundo sobre o peito já disparando um saboroso colostro. Relatos sobre como, se você se esforçar, pode tirar 10 nessa prova de resistência física definida pelo amor. Ironicamente, o consenso era só sobre o que vinha antes de o bebê sair para a vida.

De qualquer forma, rapidamente, saquei que, por debaixo de toda aquela louvável preocupação com a conexão mãe e filho logo após o parto e com a própria saúde da criança, estava a velha necessidade da mulher de competir pelo “melhor corpo”.  Quando o corpo que ela havia gerado passava a ter mínima autonomia, fora de seus úteros fortes e brilhantes, já era a primazia da força do pensamento positivo e do adestramento para qualquer dilatação que fosse. Já em se tratando de parto, o lance ainda era sobre o imperativo poder do corpo feminino, sim. Se antes falavam alto o diâmetro das coxas e a rigidez dos seios, agora, a baliza para o sucesso seria a dilatação vaginal e sua capacidade de suportar a dor de parir. Faz bem lembrar que aquele era o momento de Gisele Bündchen desfilar displicente e deslizante sobre a passarela de (dar à) luz e que a moda, sim, a moda era parir à rústica, assim, meio ‘boho’. E OK, a discussão sobre o número disparatado de cesáreas no Brasyl emergia com urgência, era reconhecidamente fundamental e caso de saúde pública, mas daí a professar que qualquer uma seria capaz, só por fazer Pilates, meditar e ter o que eu chamava na época de “gestação padrão Cynthia Howlett”, não era bem a realidade. Só que eu caí nessa, ainda que de próxima ao tal padrão praieiro medito-na-areia-às-cinco-da-manhã-grávida-de-ponta-cabeça só tivesse o ‘shape’ de baleia. E sofri absurdamente com o meu “fracasso”, por ter sucumbido à cirurgia depois de dez horas em trabalho de parto (ou TP, outra sigla onipresente, como aquela RN) com total controle das minhas contrações dolorosíssimas e absoluta serenidade, feita a famigerada episiotomia (corte do períneo para a passagem do bebê), e tentado retirar minha filha à base de fórceps.

Meu parto ganhou contornos dramáticos, especialmente depois que Lydia conseguiu chegar ao mundo, exausta, roxa e sem dar um único pio, deixando o centro cirúrgico em tenebroso suspense. Tenho pouca resistência à anestesia e comecei a sentir claramente que estava sendo costurada quando estavam fechando o corte. Depois de doses cavalares de morfina, consegui voltar à vida, ou quase. Minha vida estava, enfim, apenas seguindo seu fluxo normal, isto é, sendo bizarra, quando cheguei ao meu quarto e não havia bebê ao meu lado, mas sim ‘Tempos Modernos’, com Chaplin, passando na televisão, filme a que assisti sob as tais doses cavalares de morfina, uma experiência certamente inesquecível, até que a bezerrinha chegasse sã e salva aos meus braços rotos.

Então, algumas perguntas seriam convenientes àquela altura. Seria realmente melhor meter um instrumento de tortura medieval para puxar a cabeça da minha menina à força que cortar a barriga? Quais seriam os limites do sofrimento para mães e filhos? Seria possível, naquelas condições físicas e emocionais limítrofes, avaliar racionalmente se a equipe de médicos, que estudou por anos o que eu jamais poderia entender, ainda que lesse dia e noite sobre parto, estava “aplicando” uma cesárea corretamente ou não? A existência de uma indústria da cesárea negaria que a cesárea era a única solução para retirar de dentro de mim uma criatura que não encontrou passagem e subitamente virou de costas quando o processo estava prestes a terminar? Agora, finalmente, era a (boa) hora do incrível alvorecer da mãe Leïlah Accioly, que não poderia encontrar em nenhuma outra mulher, por mais blogueira profissional que esta fosse, as respostas sobre a sua jornada pessoal, única e intransferível com sua filha Lydia Accioly. Algumas poderiam carimbar um #fail logo no início dessa jornada, mas, um tempo depois, eu só queria saber que tinha conseguido sobreviver àquela tortura chinesa junto com minha filha.

Corta para 2016. O polêmico desafio dos cinco momentos felizes da maternidade me parece ser um sinal de ressaca da era “maternagem blogger”. Há uma saturação da exposição da vida cotidiana nas redes, com todas as suas ridículas insuficiências e constrangimentos, e o movimento offline vai ganhando força. O excesso de troca de conhecimento — e desconhecimento — sobre criar uma pessoa vai revelando efeitos colaterais nos núcleos familiares. A competição pela criação do melhor modelo de ser humano por parte de algumas estridentes blogueiras vai mostrando sua cara feia. Mas, mais que tudo isso, explode uma necessidade de ação afirmativa sobre a maternidade, voltando a lançar um olhar mais edulcorado sobre ela. Essa ressaca sinaliza, ao mesmo tempo, mal-estar sobre ter compartilhado tanto sobre a experiência mais visceralmente pessoal que existe, e nostalgia da embriaguez da maternidade sorridente anos 1950. Aquela tão século 20, sobre a qual tanto idealizamos toda vez que sacamos aquele clichê de “comercial de margarina”, mas que parece não dialogar com listas de blogs, que não quer saber se o parto foi assim ou assado, que parece guardar uma certa inocência protegida dos desafios diários de identidade tão duros para estas mães atormentadas do século 21, que, aparentemente, só querem “ser feliz e maternar tranquilamente na favela onde eu nasci e poder me orgulhar e ter a consciência de que só eu é que podia maternar”. Se ontem estávamos muito maravilhadas com a possibilidade de espiar como outras mulheres criavam seus filhos e tentar entender o que estávamos fazendo com os nossos, hoje, parecemos estar reivindicando o direito a exercer nossa maternidade em paz, longe dos holofotes, à margem de compartilhamentos e opiniões que viram, facilmente, patrulha. Eu enxergo que toda mulher tem direito a se mostrar uma mãe feliz, realizada, que se sente recompensada pela vida por estar desempenhando esse papel, assim como toda mulher tem direito a mostrar que ser mãe pode ser um tormento, de um desgaste extremo e violento, ou apenas algo bem difícil mesmo e com o que ela não se sente plenamente confortável. Aceitar a diversidade das criações dos filhos e dos partos é que parece ser o maior desafio de todos, nestes tempos em que felicidade virou ideologia e sociedade em rede virou arma ou palanque.

L.A. é um caleidoscópio: escritora, poeta, jornalista, agitadora cultural, curadora, DJ, artista visual, decoradora, ocultista, mãe, geminiana e o que mais não couber em duas linhas. Escreve neste espaço às terças-feiras. E-mail:leilah.accioly@gmail.com

Imagem: Minuto Med.

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