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Notas Perfumadas

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Síndrome do Pânico é papo reto

O coração acelera, a respiração aperta, os músculos se contraem, uma vontade de sair correndo, não se sabe do que ou de quem. Será de mim mesmo? A sensação de desmaio, dor, sufocamento e loucura aumenta até alcançar um ápice. A certeza da morte, de que vai enlouquecer, perder o controle ou se jogar de algum lugar. Após a loucura, a angustiante sensação de cansaço e de vazio. Talvez eu esteja ficando maluco? Talvez eu não dê conta de estar aqui, nesta selva de pedra, ou eu não seja tão bom quanto essas pessoas que parecem “estar normais”. Será que todo mundo “lá fora” está adaptado e só eu que não? Será que eles sabem que eu sinto medo, que “tenho sido ridículo, absurdo”? Será que “só eu que levo porrada e meus amigos são campeões em tudo”? ‘Poema em Linha Reta’ me faz pensar que, talvez, Fernando Pessoa tenha chegado muito próximo de captar o que é o estado de pânico: um chamado interno “papo reto”. Pânico, para mim, é uma busca por respostas internas, é um desesperado querer descobrir-se, uma vontade inconsciente de enfrentar dores escondidas dentro das gavetas empoeiradas, uma busca por plenitude e comunhão com o próprio Ser. É a não possibilidade de estar dentro “das caixinhas”, normatizado e vivendo em um sistema ‘panóptico’, como descreveu Foucault. Falando assim, parece bonito, né? Mas não é, não!

Síndrome do Pânico é escolher crescer pela dor. Conjugo o verbo escolher muito à vontade, pois tenho Pânico (hoje, controlado) e me permito falar sobre isso, aceitando que foi uma escolha por resolver assuntos antigos e inacabados que se amalgamaram a uma vontade incontrolável por autodescoberta. Hoje, quando fecho os olhos e lembro do início da síndrome, em 2011, vejo-me como aquela personagem do filme ‘Monstros S.A.’, a garotinha Boo. No início, ela morria de medo dos monstros, depois tornou-se a melhor amiga deles.

A Síndrome do Pânico já afeta quase 5% da população mundial (milhões de pessoas) e a OMS (Organização Mundial de Saúde) já a considera uma das grandes doenças do século XXI. Se nossos antepassados fugiam para climas amenos e de predadores terríveis, hoje, já não sabemos de imediato do que fugimos. Os predadores ganharam outros nomes, e nossa concepção sobre medo também mudou. Este texto não será técnico, mas de alguém que desenvolveu Síndrome do Pânico e aprendeu, com o passar dos anos, a controlar-se. Não cabe aqui dizer por que desenvolvi a síndrome, foram muitas questões, desde perdas até dores físicas e emocionais que resolveram, um dia, vir à tona da forma mais assustadora possível. Se você está lendo este texto e já teve o seu primeiro ataque de pânico, sabe do que estou falando.

Talvez você tenha ido para o hospital com a certeza que estava infartando ou talvez acredite que, se um surto desses acontecer de novo, você irá enlouquecer ou perder o controle. Basicamente, o que ocorre fisiologicamente em uma crise de pânico é uma reação chamada “luta ou fuga”. Tudo começa quando as enzimas adrenalina e noradrenalina são liberadas pelas glândulas suprarrenais. Essas enzimas funcionam como mensageiras para o sistema nervoso simpático, que é o responsável por colocar nosso organismo em total ação quando nos sentimos ameaçados ou em perigo. Quando se está em perigo, frente à iminente mordida de um leão ou na beira de um abismo, por exemplo, é preciso correr, fugir ou lutar. Ou seja, nosso corpo, em questão de minutos, ganha preparo físico para sobreviver a um ataque ou condição de morte. Como não estamos em uma selva, não entendemos por que apresentamos em um dia comum no trabalho ou em casa algumas sensações físicas, como aumento do batimento cardíaco, aumento da frequência respiratória e dormência, entre tantos outros. Sem saber o que há com o nosso organismo, sem entender que tudo isso é para correr ou bater e como ser racional que somos, entramos em pânico.

Um ataque de pânico é uma reação de “luta ou fuga” que foi acionada sem ser preciso, pois não há nenhum motivo iminente de perigo. Será? Afinal, se não há nenhum tigre a menos de dois metros de distância, do que estamos fugindo ou de que perigo temos medo? Aí está a questão! Temos medo e sentimos o cheiro do perigo em padrões que nos acompanham, às vezes, desde a infância. Que perigo é esse que não vemos? Do que você tem medo? De início, o pânico pode parecer medo de morrer, pois as sensações físicas levam a crer que a pessoa está em situação de morte iminente. Mas não é isso, o pânico se instala por algo muito profundo e interno. As causas são infinitas, cabe a cada um descobrir-se e analisar quais são os leões e desertos que trazem essa sensação de perigo e despertam no organismo físico a reação “luta ou fuga”.

Como trabalho com sensibilidade olfativa, não poderia deixar de falar um pouco sobre os aromas no pânico. Fiz uma rápida pesquisa na rede com as palavras-chave “aromaterapia” e “síndrome do pânico” e as postagens, em grande maioria, indicam os “cheirinhos” de lavanda porque acalmam, gerânio porque faz contato com o coração e até rosa branca, que pode ser muito catártica para uma pessoa com uma síndrome dessas. É muito complicado prescrevermos alguma planta sem a análise da situação que leva ao pânico, individualmente. No meu caso, lavanda, que é a mais indicada, nunca funcionou e ainda piorava, pois minhas crises vinham, justamente, do medo de relaxar, e forçar uma medicina não é o mais aconselhável. A lavanda estaria trabalhando no sintoma (medo de relaxar), e não na causa. Após muita terapia, entendi que o meu perigo iminente era de que alguém ou alguma coisa invadisse meu corpo, minha privacidade, minhas ideias. Quando me sentia invadida, o pânico se instalava. Iniciei, então, um trabalho com as plantas capim-limão, cânfora e eucalipto, que nos auxiliam a impor limites, aprender a dizer não e a nos sentirmos livres em qualquer local. Com o tempo, fui aceitando que poderia baixar a guarda e relaxar. Há centenas de óleos essenciais que podem auxiliar na condição de pânico, não apenas no momento da crise, mas no próprio processo de autoconhecimento. Não se trata apenas de um “cheirinho”, e eu não indicaria utilizar apenas no ambiente, não. Indico mesmo é passar na pele, diluído em álcool ou em óleos, e fazer contato. A lavanda, só como exemplo, diminui as sinapses neurais que dão comando de produção para as enzimas adrenalina e cortisol.

Qualquer pessoa pode ter Síndrome do Pânico, não é frescura, não é “doença de gente rica” ou desocupada, não é fragilidade. Pelo contrário, pessoas com pânico geralmente têm perfil de autocobrança, trabalham em demasia e buscam pela perfeição. É como se elas se blindassem de alguma coisa, de algum perigo que elas não sabem o que pode ser e, um dia, na mais perfeita calma, o ataque de pânico emerge sem avisar. Digo “emerge” para demarcar que ele realmente vem de dentro. No mundo externo pode acontecer um gatilho, mas a condição de pânico vem do interior. Com o tempo, sabendo o que representa perigo para você, é possível controlar. A notícia boa que tenho é que o pânico é uma oportunidade de se rever por inteiro e fazer mudanças profundas.

Se você tem pânico, posso te afirmar que a travessia desse deserto não vai ser fácil, mas vai ser libertadora. Que você vai sofrer, mas que já sofria muito mais antes e fingia que estava tudo bem. Vou te afirmar que os monstros parecem enormes no escuro, mas, quando acendemos a nossa luz interna e o quarto fica claro de novo, você descobre que os monstros não têm controle sobre você, que nada tem, na verdade! Quando você se dominar e o deserto já for terreno conhecido, vai descobrir que amadureceu, que se tornou uma pessoa compassiva pra caramba e que não só entende a dor do outro como realmente se importa. Eu, hoje, trocaria o nome Síndrome do Pânico por Síndrome da Descoberta e entendo que ela se desenvolve para nos permitirmos ter um “ato ridículo” e deixar de querer ser o “príncipe” da caixinha. Eu fiquei “farta de me fingir ser semideus” e fui atrás de me descobrir “gente vil e errônea”. Síndrome do Pânico é um chamado sem fuga para um papo reto, é um “pedala, Robinho” bonito para você entender que, se correr o bicho pega, mas, se ficar, o bicho não te come!

*Entre aspas, citações indiretas referentes ao ‘Poema em Linha Reta’, de Fernando Pessoa.

Palmira Margarida é historiadora e pesquisa a história dos cheiros, é a pisciana mais ariana de que se tem conhecimento. Descende de italianos e adora uma massa, mas fala sem gesticular. Ama viajar e captar os aromas das trilhas, das culturas e das ideias. Está em busca do profundo perfume do Ser. Escreve neste espaço às quintas-feiras. E-mail: margaridalquimia@gmail.com

Imagem: Monstros S.A.

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