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Engole o Choro

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O que você faz?

Esta semana, eu recebi uma pessoa em casa e, pra ficar por conta dela, cancelei todas as coisas que precisava fazer naquele dia (é, não trabalhar fora tem dessas facilidades). E aí que a primeira coisa que essa pessoa falou pra mim quando chegou na minha casa foi: “Mas e aí, o que você faz? Nada?” Antes que eu começasse todo um discurso sobre o quanto o dia de uma mãe pode ser ocupado, ri amarelo e respondi: “É, nada. Eu agora sou só mãe e dona de casa, você sabe.”

Desde que eu decidi parar de trabalhar, essa é a pergunta que todo mundo me faz o tempo inteiro. Em alguns, eu percebo uma certa preocupação; em outros, só curiosidade. Mas é claro que a maioria absoluta quer saber como é que eu consigo dormir à noite sem estar produzindo, sem estar ganhando meu próprio dinheiro, sem estar vivendo oito horas por dia tentando agradar pessoas que não fazem nada pra me agradar. Lembro que, pouco tempo depois de tomar a minha decisão, publiquei no Facebook uma tirinha que dizia: “A volta às aulas me leva às lágrimas… de alegria”.

Piadas de mãe, essas coisas. Uma semana depois, uma amiga muito próxima veio falar comigo num tom um pouco acima, dizendo que eu não podia falar uma coisa dessas, já que eu não fazia nada. Isso sem contar as inúmeras vezes em que tive que responder quando é que eu pretendo voltar a trabalhar. Pois é.

Uma grande amiga, no meu último dia de trabalho, me disse pra ter cuidado pra não me anular. Essa frase ecoa na minha cabeça quase todos os dias e tenho tentado de fato não me anular, até porque acho que isso não faria de mim uma mãe melhor, que era o que eu buscava naquele momento. Hoje, acho que estou no caminho. É claro que não é simples e é uma coisa que busco o tempo todo. Não só não me anular, porque existem muitos jeitos de ser presente. Mas, mais que isso, o meu objetivo é ser uma pessoa interessante, mesmo sem esse fator que parece ser tão essencial a todo mundo, que é o “sair de casa pra ir trabalhar”.

O que acho triste nisso tudo não é só o fato de que “oi, meta­-se com a sua vida”. É que ninguém seja capaz de ver que, hoje, sou uma pessoa inegavelmente mais feliz do que eu era há um ano. E que, hoje, meus filhos são crianças mais felizes, com uma mãe que de fato os conhece melhor, percebe sinais que antes passavam sem serem notados e participa da vida deles. Pois é, eu não faço nada.

Nada que faça diferença pra você (não que antes fizesse, vamos combinar, mas pelo menos prestava conta, né…). Mas esse nada me ocupa muito, você nem imagina, e tem deixado meus dias muito melhores. Desculpa, mundo, mas estou achando isso o máximo, sim.

Leticia Lamas é jornalista e mãe de dois. Escreve neste espaço às sextas-feiras. E-mail: lamasleticia@gmail.com

Imagem: ‘The Siesta’

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