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Sentimento do Mundo

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Brinquedo de menina

Quando eu era pequena, meu irmão mais velho tinha um brinquedo que eu achava o mais divertido do mundo. Era um carrinho dourado, de controle remoto, chamado Pégasus. O carro era grande, e eu ficava esperando meu irmão enjoar de brincar com ele para me emprestar um pouquinho — o que às vezes demorava tanto que eu desistia. Na época, existia uma versão prateada do carrinho e eu, que até hoje tenho predileção pelo tom de prata, secretamente me imaginava ganhando um.

Volta e meia pegava emprestados os bonecos do meu irmão (inclusive para fazer as vezes de namorados das minhas bonecas), mas aquele carrinho era especial, e o fato de que meu irmão não o emprestava com tanta frequência assim talvez o tornasse ainda mais desejado por mim. No entanto, acho que nunca cheguei a dizer aos meus pais que eu tinha tanta vontade de ter um brinquedo daqueles. Acredito que, tão nova, já sabia que certas coisas não eram para menina — embora, ao contrário de todas as meninas que eu conhecia, eu fizesse aulas de judô (cheguei a ser a única em uma competição inteira), e me sentisse diferente de todas as outras por isso.

Querer muito uma coisa e não conseguir foi algo que me aconteceu em vários outros momentos na vida, obviamente. Mas a sensação de não poder fazer ou ter algo por ser mulher começou a me incomodar mais e mais. Na adolescência, discutia com a minha mãe: por que meu irmão podia certas coisas e eu não? Cheguei a perguntar se ela era machista — e, na ausência de um bom argumento, ela respondeu com um simples “Sou machista, sim”.

Corta para 2016. Por incrível que pareça, mulheres ainda são criticadas (e xingadas, julgadas) por fazerem coisas consideradas masculinas. Se reclamamos das injustiças e violências sofridas, há um exército para nos acusar de vitimistas. Aliás, há sempre um pelotão a postos para julgar e condenar mulheres que se destacam na profissão (“deu pra alguém”, dizem), mulheres que transam, traem, choram, gritam, são frias, são nervosas, são controladoras, são relapsas… enfim, sempre condenadas em última instância pelo crime inafiançável de sermos mulheres.

A diferença é que, ao contrário da menininha que eu fui, que passava os dias desejando o carrinho em silêncio por saber que não podia querê-lo, muitas mulheres hoje sabem que podem desejar qualquer coisa. Mais que isso: que podem lutar pelo que querem. Claro, ainda existem as que repetem o velho modelo machista sem sequer se darem conta — se acham mais especiais que as outras, não percebem que estamos todas no mesmo barco. Mas boa parte de nós já descobriu que, juntas, somos muito fortes.

Aos que acham que estamos de brincadeira: seus carrinhos que nos aguardem.

Kamille Viola é jornalista e há muito tempo sonha ser também cronista. É fã de Rubem Braga, Drummond, Carlito Azevedo e Alvaro Costa e Silva, o Marechal. Escreve neste espaço às quartas-feiras. E-mail: kamilleviola@gmail.com

 

Imagem: o Pégasus (www.adaptatudo.blogspot.com.br)

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