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Prisma

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Opinião não veste uniforme

Depois de uma semana de gritaria em torno de uma opinião, a não-opinião de Glória Pires na transmissão do Oscar acabou fazendo barulho. Ironicamente, a atriz escalada para fazer comentários sobre a premiação, colocou pra fora a frase que vem atormentando muitas consciências viciadas em interação social e entupidas até o talo de informação, no Brasyl: “não sou capaz de opinar”. Da noite pro dia, um anseio do (a) brasyleiro (a) saturado (a) ganhou um lema. Desentalar é a glória! A opinião é uma espécie de traje de gala e deveria ser usada com mais critério. Impossível não escrever esta frase já pensando “ui, que elitista!”. Esse é um exemplo intruso, antes de eu adentrar o assunto, de como o escrutínio ao qual tudo que dizemos tem sido submetido leva a um insuportável estado de autocensura, como se precisássemos nos anular para encarnar o Outro. Como se tivéssemos que nos despir dos nossos repertórios pessoais e até pedir desculpas por eles porque não estamos assumindo postura x ou y. Isso vai resultar na sociedade igualitária que tantos de nós queremos? Qual igualdade estamos desejando? Uma em que as diferenças não podem existir – o que não é possível, obviamente, e só conduz ao silenciamento do mais fraco para que as palavras de ordem do mais forte prevaleçam, dando a impressão de que há igualdade – ou uma em que as diferenças são aceitas ou toleradas e usadas para que se construa um bem comum? Igualdade não é uniformização.  Igualdade é quando, apesar das diferenças, os indivíduos têm os mesmos direitos, um estado de equilíbrio jamais alcançado pela civilização e por isso mesmo, intensamente almejado por ela.

Daí, penso em uniforme, que é uma roupa de todo dia sacada do armário para vivermos no confortável anonimato, sem identidade, mas dentro de uma segura personagem sustentada por uma organização coletiva, e penso de novo no traje de gala, que é uma roupa de exceção porque o luxo é exceção, porque a ocasião, como diz o nome é “especial”, ou seja, foge à regra, à rotina. Digo que a opinião é uma espécie de traje de gala porque marca sua personalidade, o (a) diferencia, valoriza o que é único em você, destaca seus pontos fracos, às vezes, mas, acima de tudo isso, só é usada quando a ocasião pede. Essa ocasião é um “assunto sujeito à deliberação”. A opinião é um voto. E não estamos votando todo dia ou estamos? Quando tudo o que dizemos passou a virar um voto pronto para ser defendido ou atacado? Impeachment de opiniões. “Não use este traje, ele é um ultraje!” A rigor, o caráter pessoal da opinião deveria ser levado em consideração, pois todos nós viemos de contextos específicos que orientam nossas opiniões, mas não. Hoje, #somostodosportavozes. Mas quantos e quantas de nós têm autoridade para falar em nome de um grupo? Exprimir uma opinião pessoal faz com que você se torne porta-voz?

A maioria não tem exatamente uma opinião, tem uma experiência e o que faz é narrá-la. Foi o que fez a também atriz Fernanda Torres no espaço #AgoraÉQueSãoElas na Folha de S. Paulo, em 22 de fevereiro. Torres deixou isso claro quando se referiu à babá que cuidou dela na infância e aos homens que circulavam na sua casa, algumas personagens de destaque de uma era em que machismo era tratado como gaiatice. Pronto, emiti uma opinião. Que pode parecer, dita assim, com essa segurança, fruto de um longo estudo sobre a nata cultural da sociedade carioca no eldorado do Beco das Garrafas. Não, é apenas uma segura impressão. Pede-se que a leitura seja feita com bom senso, deste e de qualquer texto. Especialmente, porque, hoje, termos antes circunscritos a artigos acadêmicos ou no máximo, resenhas de livros controversos estampadas em cadernos de cultura de grandes jornais, estão na boca do povo e/ou precedidos por ‘hashtags’. E um deles é “machismo”. A democratização desses termos, para o bem e para o mal, expande e torna mais maleável as suas definições. Essa maleabilidade vem justamente da mistura das experiências dos indivíduos, com todas as suas justificáveis particularidades, com a rigidez histórica, política, socioeconômica, cultural da terminologia. Trocando em miúdos, quero dizer que o que é machismo para umas, não é machismo para outras e que o fato de haver um consenso terminológico não invalida a fala de qualquer sujeita. Além disso, o efeito colateral da maior circulação de uma ideia é uma gama maior de opiniões expressas sobre o tema. Porque quando falamos em machismo, não estamos só usando um termo “batido”, estamos fazendo circular uma série de ideias que estão debaixo de seu guarda-chuva. Estamos discutindo uma estrutura social.

E é aí que o ativismo entra em ação para exercer seu papel. Seu papel é de transformar a realidade em vez de especular sobre ela, portanto, é da sua esfera de ação meter a mão na cumbuca das opiniões que sejam de relevância midiática, equivalendo relevância a capacidade de alcance, e não, necessariamente, a conhecimento de causa, com trocadilho. E o ativismo vai meter a mão na cumbuca partindo de suas crenças e vai endereçar questões percebidas nessas opiniões de acordo com elas. Mas, antes de falar sobre isso, abro parênteses invisíveis para observar como se caiu de pau em duas atrizes no raio de uma semana, numa por ter uma opinião e em outra por não ter uma opinião, sendo que nos dois espaços que ocuparam, ambas foram convocadas a dar suas visões pessoais. Isso deixa mais estimulante o convite que faço para que pensemos sobre os papéis que não escapamos de interpretar na sociedade. Atrizes vivem disso, interpretar papéis que invariavelmente não têm a ver com elas. Uma atriz pode não ser uma boa comentarista de filmes, ainda que trabalhe nesse métier. Uma atriz pode falar de questões contemporâneas sem ser uma ativista social ou mesmo, conhecedora de causa. O problema é quando o ativismo diz que ela não pode. É uma posição autoritária que soa como revanchismo, o que chega a ser compreensível, mas que não deve ser aplaudido.

Mas, quanto a nós que pensamos sobre tudo isso diante da arena ideológica e das meras opiniões atiradas sem muito cuidado, quais papéis que estamos interpretando quando nos posicionamos no debate? Cínicos, céticos, ingênuos, contemporizadores, catalisadores de mudanças, patrulheiros, juízes, advogados, machistas, feministas? É importante saber qual papel você quer pra si e qual pode interpretar melhor, mas não ignorar que, no ‘background’, qual seja o seu papel, sempre estará atuando o seu repertório pessoal. Devemos calar esse repertório em nome do papel de atores sociais em determinados debates? Em alguns casos, talvez esse seja um experimento bem interessante e mobilizador. Exatamente porque pode nos arrancar da ditadura da experiência (“Walter Benjamin afirma que a experiência forma-se quando o sujeito é capaz de atribuir significado a um determinado acontecimento; tal significado depende de um conjunto socialmente construído de valores e ideias”, Emmanuel Santiago) e deste vício brasyleiro de pensar “concordo” ou “discordo” porque “sou isso ‘mermo’ e aí?”, seja o “isso ‘mermo'” uma sonhadora ou um cínico. A questão é que a “estética do choque” importada da arte moderna parece ter tomado conta do circuitão de opiniões midiático e das redes sociais. A gente desconhece “recolhimento contemplativo”, não tem profundidade de análise, apenas reage aos estímulos e numa cadeia de reatividade sem fim, guiada pela raiva da diferença na maioria das vezes, acaba por emburrecer. Parece que todo mundo lê para alimentar suas visões de mundo, nunca para expandi-las ou contrapô-las com outras realidades vide os mecanismos facebookeanos de ‘block’ e ‘hide’. Buracos conceituais e incoerências são engolidas se a contundência dos argumentos dá vazão a essa raiva. E o resultado é um impasse intelectual brutal que pode ser sintetizado no bordão-alívio “não sou capaz de opinar”.

O que surpreendeu alguns e algumas jornalistas na última semana é que alguém como Fernanda Torres, uma celebridade, uma figura bem nascida e com respaldo cultural, não possa mais ter o privilégio de escrever algo sem ser contestada. Se tudo o que ela disse no texto “Mulher” (péssima escolha de título, na minha opinião, uma vez que seu texto era apenas mais uma opinião sobre a mulher, e que joga mais lenha na fogueira da premissa dos movimentos sociais de que a classe média branca ainda toma sua opinião como verdade totalizante) é fruto, como ela mesma radiografou em seu ‘mea culpa’, da condição de “mulher branca de classe média”, sua opinião é passível de ser confrontada, sim, pela ativista negra Stephanie Ribeiro. No entanto, tampouco é vetada a contestação à contestação que a ativista negra apresenta a Fernanda Torres. O palanque livre da internet minou as pretensas unanimidades das bancas de jornais e entronizou a iconoclastia. Os dois lados têm direito de falar e a culpa de um ‘mea culpa’ talvez não seja da pressão exercida pelo ativismo. Talvez trate-se apenas de uma tomada de responsabilidade da própria atriz, que pode ter se sentido des-sintonizada de um movimento pelo qual tem interesse em participar, já que algumas coisas que ela havia dito antes não sinalizavam conhecimento do movimento feminista nem da diversidade de realidades e discursos que nos fazem ser “Mulher”, hoje.

Aliás, o slogan do #AgoraÉQueSãoElas é “um espaço para mulheres em movimento”. Para mentes apressadas, isso pode querer dizer que se trata de um espaço para o movimento feminista. Mas “em movimento” tem mais a ver com trânsito, com livre circulação, com ir como Mercúrio do Hades à Terra e aos céus. Entendo que lá há espaço para uma pluralidade de vozes e experiências, tanto que Fernanda e Stephanie já escreveram naquele mesmo espaço. Acho que lá é permitido que mulheres se revejam, se repensem, se coloquem e des-coloquem. Acho que é um espaço de elaboração de uma nova etapa do feminismo, feita em conjunto. E nisso entram também leitores e leitoras. E até ativistas. E até atrizes. Entra a tal diversidade, que é o que ativistas mais radicais ou mais apaixonadas e por isso, ingênuas, parecem não aprovar. E vale contestar esse tipo de ativismo, também, que se encarcera nas suas verdades e que não prevê que, “na visão da filosofia, a opinião é uma proposição onde não se tem a confiança total sobre a verdade do conhecimento. Noutros termos, a opinião admite a possibilidade de erro por não haver evidência plena”.

Contrário à opinião, aquele traje de gala, o ativismo veste uniforme, ainda que ativistas sejam, também, criaturas com opinião. É seu papel que o vista, mas seria muito interessante se ele pudesse desconstruir esse uniforme em tempos menos pragmáticos. O ativismo tem certezas, zela pela (sua) verdade, opõe-se ao “modo de ver pessoal” para favorecer uma crença coletiva. Se uma das certezas que regem o ativismo feminista corrente é a de que as mulheres negras são as mais oprimidas, todas as opiniões que forem contra essa certeza, ou mesmo que tentarem relativizá-la, serão duramente criticadas. É de se esperar que sejam e esse debate é absolutamente necessário para a saúde da sociedade. Mas críticas duras à opinião de alguém não têm nada a ver com “perdoar” ou deixar de perdoar, já que uma opinião expressa não é um crime, uma falta, um pecado. Essa opinião pode evidenciar deficiências de um dado tecido social e até corroborar para que as certezas do ativismo se fortaleçam ainda mais, mas ela não deve ser condenada ou calada, até porque o silêncio mascararia a estrutura que a origina e que deve ser combatida.

Em suma, criticar opiniões para combater e corroer estruturas é uma coisa. Submeter o emissário ou emissária da opinião a um exame à moda católica, do qual resulta perdão ou condenação, é outra bem diferente e denota, no mínimo, uma tendência ao sentimentalismo ou à paixão, que não vai trazer benefícios à causa alguma, muito pelo contrário. Mas eis o erro recorrente do ativismo, em qualquer época, e a nossa está cheia de idiossincrasias bem provocadoras e desafiadoras: paixão. Apaixonar-se por uma ideia é sempre bem perigoso e, invariavelmente, detona qualquer possibilidade de diálogo. Só que também é necessário lembrar que o furor católico começou com Fernanda Torres, ao assumir uma “culpa”. Ser uma mulher branca de classe média desfrutando de uma posição social confortável não pode ser visto como um erro. Ser uma mulher negra de classe média desfrutando da possibilidade de ascensão socioeconômica e cultural, mas se colocando na dureza do ativismo social, também não. Já opiniões de uma mulher branca de classe média, assim como opiniões de uma mulher negra de classe média podem simplesmente não trazer a “verdade do conhecimento” ou “evidência plena”, ainda que uma delas seja ativista social e uma delas seja atriz global. Elas podem estar simplesmente, erradas. O que me parece é que nem todas nós, mulheres, estamos preparadas para admitir que possamos estar erradas em relação ao feminismo, um pouco como Glória Pires, que mesmo numa noite em que vestir o traje de gala da opinião era a regra, foi capaz de admitir, “não sou capaz de opinar”.

L.A. é um caleidoscópio: escritora, poeta, jornalista, agitadora cultural, curadora, DJ, artista visual, decoradora, ocultista, mãe, geminiana e o que mais não couber em duas linhas. Escreve neste espaço às terças-feiras. E-mail:leilah.accioly@gmail.com

Imagem: authorizedboots.com

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