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Sentimento do Mundo

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Sem perder a ternura

Fiz uma compra grande na floricultura e voltei para acertar uns detalhes. A certa altura, a funcionária com quem combinei tudo me disse: “Estive no local do evento e achei que tinha que pôr mais uns arranjos naquela parte na frente, fica mais bonito.” Antes que eu esboçasse qualquer reação, ela emendou: “Pode deixar, não vou te cobrar por isso.”

Pode até não ser nada de outro mundo, mas o fato é que aquela gentileza foi provavelmente o gesto mais delicado que me aconteceu em todo o meu dia. Aquela mulher mal me conhece: só esteve comigo duas vezes. Ainda assim, foi capaz de fazer algo por mim sem ganhar nada em troca. Sim, eu sou jornalista e recentemente abracei a vida de freelancer com seus altos e baixos, mas ela não faz a menor ideia disso. Só percebeu que eu não queria (não podia gastar muito), e foi solidária a isso.

Em algum momento entre uma das tantas coisas a resolver durante o dia, abro um e-mail de outra encomenda para a festa, e a mulher com quem troco mensagens se despede: “Aproveito para desejar que você tenha um dia incrível e que seja uma festa linda.” Ela não viu, mas me arrancou um sorriso.

Talvez eu esteja sensível demais, ou talvez seja simplesmente o fato de andar por aí distraída para as coisas mais óbvias e atenta aos detalhes que tenha me feito um pouco mais feliz no dia de hoje por ter esbarrado com pessoas gentis no meu caminho.

Isso me lembra um pensamento que volta e meia vejo pela internet: “Todo mundo que você encontra está enfrentando uma batalha da qual você não sabe nada. Seja gentil.” Bonito de dizer e postar, não tão simples de pôr em prática. Procuro ser educada com todos, mas confesso que às vezes cansam os bom-dias, boa-tarde e boa-noites sem resposta, os sorrisos recebidos com indiferença, a sensação constante, ao lidar com os outros, de que todo mundo está com a cabeça bem longe do momento presente.

De qualquer forma, quando mais tarde perguntei a uma mulher se ela estava na fila da farmácia e levei um fora como resposta, lembrei das duas pessoas gentis com quem meus caminhos tinham cruzado. Era como se eu tivesse acumulado créditos de gentileza recebida, o que fez com que aquela grosseria tenha passado quase despercebida. Quase.

Kamille Viola é jornalista e há muito tempo sonha ser também cronista. É fã de Rubem Braga, Drummond, Carlito Azevedo e Alvaro Costa e Silva, o Marechal. Escreve neste espaço às quartas-feiras. E-mail: kamilleviola@gmail.com

 

Imagem: www.thescoopdxb.com

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