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Notas Perfumadas

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Perfume pra macho?

Parece cômico, mas não é: jamais, na história da humanidade, um tronco de árvore disse que ele era cheiro de homem. Flor alguma jamais abriu a boca e disse que era cheiro de mulher. Cheiro de menina, cheiro de menino, perfume masculino, perfume feminino, azul para  menino,  rosa para menina. Será? Em meio à diversidade de cores e cheiros neste planeta, nós, realmente, caímos nessa balela de nos dividirmos tão simploriamente? Eu sou mulher cis e hétero e vou falar: amo um cheirão de madeira pesada misturada com orquídea, e minha cor preferida é preto.

Flor para as mulheres, madeira para os homens. Quem foi que inventou isso? Quer dizer que nosso olfato é capaz de sentir mais de um trilhão de aromas e a indústria, de uma forma geral, reduziu toda essa riqueza a “cheiro para homem” e “cheiro para mulher”? A indústria massificada corroborou para a moderna e simplória pobreza sensorial, nos roubou nossa sensibilidade, nossa capacidade de sentir o que é sublime e etéreo, nos despiu de nosso processo artístico e criativo. Porém, aqui, vou me deter no meu ramo, que é a sensibilidade olfativa, para não falar dos outros tipos de pobreza que essa massificação industrial nos submeteu. Quero deixar claro, antes de você mergulhar nos perfumes deste texto, que meu objetivo aqui não é discutir gênero, pois não tenho cabedal intelectual suficiente para opinar sobre isso! É um assunto amplo, em que as únicas certezas que tenho são que todo mundo deve ser feliz, amar quem quiser, pegar quem quiser, e que devemos parar de dividir nossos gostos sobre as riquezas no mundo, por nossas opções sexuais e de gênero. O pouco que sei é que precisamos desconstruir isso.

Tudo começou porque, outro dia, encontrei na casa de um amigo um desodorante antitranspirante Dove ‘SEM PERFUME para homens’. Alô: SEM PERFUME para homens? Essa simplória divisão no mundo da perfumaria, dos cosméticos e até dos produtos de limpeza (sim, porque já tem amaciante para roupa de homem!) tem uma de suas origens em um lugar nada especial, mas que comanda a sua, a minha vida e a de nossos filhos: a indústria e seu rastro fedorento e vergonhoso de manipulação sobre nossos gostos, vontades e comportamentos.

É muito mais lucrativo para o mercado alimentar as construções de gênero, além de outras divisões, cada vez mais pormenorizadas. Ele nos convenceu de que apenas um tipo de sabonete não serve para a família inteira. É preciso ter o sabonete especial do bebê, da mulher, do homem, o sabonete da calcinha, um especial da “fedorenta” pepeka (já falamos do cheiro de vagina aqui) e por aí vai, repetindo esse modus operandi em outros produtos dentro de nossas casas. É preciso dividir mesmo, vir escrito, em letras garrafais, ‘pra homem’, mesmo que a fuleiragem do produto não tenha perfume!

Daí resolvi perguntar para os amigos homens héteros (ou que acham que são héteros, ou que precisam provar ou lembrar a si mesmos que são) por que eles utilizam desodorante antitranspirante SEM PERFUME para homens. O que me chamou mais atenção foi constatar o que já intuía: nenhum deles disse ser por achar que os perfumes masculinos, mesmo sem cheiro, seriam “mais fortes” em sua composição química, já que homem transpiraria mais que mulher. A resposta, unânime, foi a seguinte:

— Porque sou homem, porra, num posso feder a cheiro de mulher!

— OK, mas não tem perfume! É “sem perfume”!

— Mas tem de homem, tenho que usar o de homem!

— Mas por quê, se os dois são iguais?

— Tá maluca que vou usar coisa de mulher!

— Mas e se não tivesse nada escrito em relação a ser de homem ou ser de mulher?

Eles não sabiam mais responder!

O contrário também aconteceu, porém com menos espanto. Meu gel de cabelo é masculino, porque comprei em uma promoção. A própria vendedora me alertou: “Mas é de homem!” Eu disse: “Não tem problema, só muda o cheiro, e gosto muito desse”. E, por onde passo com o meu gel de cabelo, causo polêmica! É para tanto? Não basta ter xampu para homem e mulher, tem que ter xampu pré-lavagem, xampu antirresíduos. Lamento te informar que, por muitas vezes, a única diferença entre um xampu de homem e um de mulher é o corante!

Percebem como isso é cruel com todos nós? Percebem como manipulam nossos corpos, nossa inteligência, nossa essência? Qual o problema de um homem gostar de usar cheiro de rosas? Ele é gay por causa disso? E se for? Tem algum problema também? Qual o problema de uma moça gostar de cheiro de madeira? De musgo terroso?

Nos meus atendimentos individuais para criação de perfumes personalizados, muitas mulheres, me informam, com tom de vergonha: “Eu gosto de perfume de homem.” Aí eu corrijo: não, linda, você não gosta de perfume de homem, você gosta de cheiro de madeira, de musgo, de raiz-forte, e isso não é cheiro de homem! Isso é cheiro de madeira, de musgo e de raiz mesmo, apenas, e isso diz muito sobre suas emoções e personalidade, mas nada sobre o seu gênero, gosto ou orientação sexual. Isso não te define! Já outras mulheres me dizem com veemência: “Eu odeio perfume doce e amo perfume de homem!” Isso também mostra uma construção de gênero muito triste, que parte da ideia machista de que mulheres são fracas e os aromas destinados a elas (como foi difundido pela indústria cosmética e de perfumaria) demarcam pessoas fracas e inferiores.  Nessa lógica, se uma mulher gosta de usar perfume de homem, ou ela é gay ou ela é muito forte, como um homem!

Vamos lá, em primeiro lugar ela não gosta de perfume de homem, ela gosta de cheiro de madeira. Em segundo lugar, ela não é forte como um homem, ela é forte como uma mulher! E, na verdade, o que é ser forte mesmo? E todo mundo que gosta de cheiro de madeira é tão forte assim? Venho lembrar que rosa é flor, mas tem espinhos. Então, calma aí, amigos! Na minha concepção botânica, existem infinitas maneiras de força. É como aquela história: você luta como uma menina, você cheira como menina… você é fraca! Exalar perfume de mulher é sinônimo de ser ‘mulherzinha’, fraca, menor, inferior! Não! Se você gosta de floral, isso não significa que seja fraca ou fraco; se madeira é o que te alegra, isso não significa que você é mais viril que outro. Os saberes naturais são muito amplos, ricos e profundos para serem diminuídos dessa forma dicotômica entre homem, madeira, viril, forte, corajoso versus mulher, fraca, menor, flor. Tem gente que é forte sendo flor, tem gente que é forte sendo madeira, tem gente que aprendeu a ser forte como um bambu, mas com a docilidade de um lírio. Tem gente que tem a força do autoconhecimento, como uma flor de lótus. E, de boa, essa ideia de infinitas possibilidade é linda demais! E olha que estou falando só de planta! Diversidade, eu te amo!

Se você nasceu homem e gosta de flor, isso não significa que seja gay. Se você nasceu mulher e gosta de musgo, isso não significa absolutamente nada sobre a sua sexualidade. Mas, se você for gay também, está tudo bem, certo! Parem de usar essas categorias retrógradas para nos reprimir, nos limitar e ganhar mais dinheiro com isso! Nos deixem em paz, nossas essências são inominaveis e incomensuraveis! Não venham querer fechar nossos gostos em caixinhas. Somos belos, somos a natureza. Azul e rosa são cores, não as limitem! Estamos além disso!

Não faço perfume de homem, nem de mulher, faço perfume de planta e ponto! Você não será menos homem hétero se no seu xampu não estiver escrito “para homens”, nem vai ser fraco se usar um sabonete cor de rosa com cheiro de lírio (por sinal, umas das pessoas mais sinistras que conheço ama lírio). Apenas parem! E quanto medo é esse? Isso não vem de nós, mas dos ramos industriais (dentre outras questões, como o fundamentalismo religioso que não vou adentrar aqui) que precisam, cada vez mais, destrinchar seus produtos e serviços em temas, concepções e grupos para aumentarem a lucratividade.

Aromas para homens e aromas para mulheres não existem! Isso é uma invenção industrial à qual estamos  condicionados! Muitos homens nem se dão a chance de gostar de florais, porque acham que não podem, e mulheres, quando gostam de um perfume masculino, ou têm vergonha, ou se acham superiores às mulheres que gostam de cheiro doce ou floral. Gostar de cheiro de madeira não te faz menos mulher ou mais homem. Amar cheiro de lírio não te faz mais mulher que as outras ou menos homem. O olfato está ligado ao sistema límbico, por isso, ele fala é de memórias, emoções. Cheiros desengavetam nossas histórias e não estão aí para julgar quem somos. Então, libertem-se e usem o perfume que quiserem, seus aromas preferidos exalam os aromas de suas histórias e da essência interna de cada um, e isso é lindo demais!

Palmira Margarida é historiadora e pesquisa a história dos cheiros, é a pisciana mais ariana de que se tem conhecimento. Descende de italianos e adora uma massa, mas fala sem gesticular. Ama viajar e captar os aromas das trilhas, das culturas e das ideias. Está em busca do profundo perfume do Ser. Escreve neste espaço às quintas-feiras. E-mail: margaridalquimia@gmail.com

 

Imagem: Pexels.com

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