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Engole o Choro

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Menos. Pelamordedeus, menos!

Acabei de chegar com meus filhos da escola e meu garoto me pediu pra ligar a TV, porque ele quer ver desenho. Atendi, porque, né? Eu não acho que a TV vai matar as crianças. Estou aqui olhando pra ele, assistindo todo compenetrado um desenho qualquer e pensando em como as coisas se repetem mesmo… Explico: quando eu era criança, chegava da escola e ia assistir desenho na televisão. Gostava da “Turma da Pesada”, “Loucademia de Polícia”, “Caverna do Dragão”, “Thundercats”, “Pica-­Pau” e dos “Muppet Babies”. Gostava de todas as versões ‘babies’, aliás. “O Pequeno Scooby-­Doo”, “Baby Looney Tunes” etc. Enfim, que criança não gosta de desenho? Desenho é divertido, mostra um universo que não existe, você fica lá só imaginando…Coisa boa.

Mas daí que eu decidi prestar a mínima atenção nesse desenho do Mickey. E aí eu te pergunto: o que aconteceu com os desenhos? Que a oferta é maior, é fato. Ainda mais se você compara a infância de hoje com a minha em Rio Pomba, onde não pegava nem TV Cultura. Mas, MELDELS, desde quando criaram a regra que desenho tem que ser uma lição de matemática disfarçada? Deuses do Olimpo! A criança tem que conversar com o Mickey (ou a “Dora”, ou o “Blaze”, os “Bubble Guppies” etc etc etc), tem que ver onde encaixa cada figura, contar quantas peças faltam, aprender sobre trajetória, aprender inglês. E tudo isso envolto num musical infinito de gosto, no mínimo, duvidoso. Não é à toa que o menino já levantou do sofá umas 20 vezes…

E como uma coisa puxa a outra… Comecei a pensar na nossa volta pra casa nestes últimos dias, em que a rua está sempre molhada (afinal, São Paulo está numa ‘vibe’ meio Manaus estes dias, com chuva de hora marcada e tal). Eu sempre quero voltar da escola o mais rápido possível, porque já temos, obrigatoriamente, as paradas pra falar com os conhecidos na rua (eu adoro essas paradas, diga­-se. Adoro que meus filhos conheçam a vizinhança e conversem, cada um a seu modo, com as pessoas). Mas aí que a parada pra ver a poça d’água me cansa um pouco e eu tento sempre acelerar.

Afinal, estou andando tomando conta de duas crianças que honestamente estão cagando um quilo para os meus comandos. Mas enfim, eu quero que eles aprendam o caminho de casa, quero que parem e me dêem as mãos para atravessar a rua, que não corram em frente a garagens, que conversem trivialmente com os vizinhos. Pra crianças de três e um ano, convenhamos, talvez sejam comandos demais.

Então esta semana, sem que eu percebesse até hoje, eu comecei a dar uma relaxada. Soltei a menina na rua e ela veio analisando cada buraco, cada pedra, cada folha caída. E ganhei de brinde a gargalhada mais gostosa de todas quando hoje, depois de um desequilíbrio, ela caiu de bunda numa poça d’água. E o irmão riu junto e tão genuinamente, que só me restou rir também. Em outros tempos eu provavelmente iniciaria um discurso de “Viu? Por isso falo pra vocês prestarem atenzzzzzzzzzzzzzzzz”. Hoje eu só ri e fiquei feliz vendo os sorrisos deles. Sem lição, sem aprender nada.

Por que a gente precisa que as nossas crianças estejam o tempo todo aprendendo alguma coisa? Tá tão comprometido assim o futuro de quem se molha na poça ou senta no sofá só pra se entreter? Ah, não, gente… Depois ninguém entende por que razão um desenho tosco igual a essa “Peppa” faz todo o sucesso que faz. Vou arriscar um palpite: porque a Peppa não cobra nada de ninguém, não toma lição. Ela vai lá, conta a história dela, deita no chão, ri e fim. Precisa mais?

Leticia Lamas é jornalista e mãe de dois. Escreve neste espaço às sextas-feiras. E-mail: lamasleticia@gmail.com

Imagem: ABD Entertainment One UK/ Amazon.

 

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