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Prisma

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Parindo a paridade

Até bem pouco tempo atrás, nunca tinha visto minha história pelo prisma do feminismo ou mesmo, do feminino. Durante a maior parte da minha vida, sequer quis lembrar que fosse mulher. Repudiava a menstruação. Casar de véu e grinalda, nem pensar. Chorei durante uma madrugada inteira quando ganhei meu primeiro sutiã, não queria que os meninos vissem que eu usava o acessório que, na minha cabeça, me diferenciaria deles. Não usava vestidos nem saias quando a sexualidade começou a aflorar. Passei muito tempo me achando muito especial por não querer ter filhos. Quando passei a desejar ter filhos, queria muito que viesse um homem. “É varão!” devia ser o grito masculino vitorioso de tantas novelas, seriados, filmes, que estava entronizado no meu inconsciente. Não conseguia me identificar com o universo feminino vendido às ‘teens’ por revistas como Capricho e Querida, excetuando pelos recortes de fotos de Jon Bon Jovi. Não queria saber de usar ‘gloss’, nem dos papos sobre como agradar àquele menino que virava a sua cabeça nos recreios. Quanto mais agressiva, melhor me sentia. Os astrólogos sempre me disseram que meu mapa é muito polarizado, dominado pelo ‘logos’,  pela racionalidade, em tese, pelo masculino. Quando me apaixonei seriamente pela primeira vez, meu ‘crush’ me deu de aniversário de 12 anos o jogo de tabuleiro “Elas por Elas” cujo ‘slogan’ era “uma gincana onde menino não entra”. Fiquei com ódio e dei-lhe um chute no joelho como singelo agradecimento.

Falando em chutes, eu era goleira no colégio, amava futebol e era fanática pelo Flamengo. Um dia, no auditório da escola, eu tinha uns sete ou oito anos, um menino que era mais truculento que os outros e que eu queria muito impressionar, só porque ele tinha aquela oitava acima em truculência, fez um comentário sobre o jogo do Flamengo no dia anterior e eu percebi que meu pai havia feito o mesmo comentário e ido um pouco mais além, horas antes. Eu tinha decorado o que meu pai tinha dito, algum veredicto sobre alguma jogada, e pronto! Era o meu momento de arrancar um “oh” do garoto durão, o típico macho insensível que zomba de qualquer coisa que não cheire a tanque ou chuteira. Atirei o comentário sobre ele, com a garganta trêmula de medo que ele não aprovasse. Ele disse: “uau, a Leïlah entende”. Muitos risinhos masculinos se seguiram a essa declaração, mas eu tinha ganhado o dia.

Muitos anos depois, o músico e poeta que mais admiro, e que passou sua vida escrevendo e cantando sobre questões e sentimentos mais comumente vistos como femininos – insegurança, saudade, medo, amor altamente idealizado, fé, autoaceitação, transcendência, mistério, assimilação da diferença, reencarnação – declararia publicamente: “você é a pessoa que mais entende o que eu faço, no mundo”. Mas, no lugar de “entender”, ele usou “grok”, termo cunhado por Robert A. Heinlein no romance mais importante da literatura ‘sci-fi’, “Stranger in a Strange Land”, de 1961, que significa compreender até o ponto em que você se torna o outro ou o objeto que compreende. Fiquei em êxtase. Eu era reconhecida, enfim, como a gêmea de um homem inglês, bem-sucedido, aplaudido, considerado por muitos um gênio, uma lenda viva. Mas um dia, eu “grokaria”, que seria mais especial ser eu mesma, e não, a gêmea de ninguém, ou a sombra latina, leia-se exótica, fêmea, de poeta inglês algum e começaria a trilhar meu próprio caminho. Bonita essa conclusão pomposa, mas foi um longuíssimo e tortuoso caminho, com centenas de capítulos, pra chegar até esta (auto)afirmação do meu próprio – e singular – caminho. Afinal, foi só a partir dessa relação que eu “grokei” que tudo que a garota que não se preocupava em agradar aos garotos mais queria, era “apenas”, tornar-se “um dos caras”, ou seja, anular-se como mulher, negar o seu feminino.

Gostaria que ainda ardesse em mim a utopia que professa que somos todos iguais. Acho que eu já acreditei nisso um dia. Quando me lembro da minha versão adolescente, ingênua, estridente e ‘pós-punk’, penso com grande dose de carinho que eu simplesmente não enxergava as diferenças entre homens e mulheres, mas que já subentendia que se eu não desaparecesse com o meu feminino, não seria levada a sério como só os caras eram. Não acho que aquele comportamento tivesse a ver com algo tão pesado como anulação, algo que fui aprendendo na prática, já uma jovem adulta, ao tentar me fazer respeitar como crítica de rock, ‘métier’ altamente masculino, por exemplo. Faria parte daquela utopia explicar que o conflito que experimentei quase toda a minha vida, entre a heroína romântica encarnada, envolvida com os altos ideais supostamente reservados aos homens, capaz de opinar sobre os temas importantes, mas prisioneira do reconhecimento como gêmea de um grande artista, e a mulher agressiva, cartesiana, calculista, que nunca perdeu as rédeas de sua vida para qualquer possibilidade de viver uma narrativa em que não fosse protagonista ou que só se baseasse no tal do amor romântico, é resultado de um paradoxo insolúvel e maior que qualquer uma de nós: homens e mulheres são diferentes mas são iguais.

Hoje, com um tanto mais de quilometragem no “mundo dos homens”, depois de ter passado pela bombástica experiência de ter uma filha enquanto atuava no mundo corporativo e de estar, neste momento, buscando o que a maioria das mulheres urbanas, especialmente as que também são mães, estamos buscando, o saudável equilíbrio entre os papéis que desempenhamos, e no meu caso, assim como no de tantas outras, por meio do empreendedorismo criativo, um bicho ainda bem misterioso num mundo justamente em transição daquele “mundo dos homens” para “mundo de todos nós”, vejo que, talvez, a coisa esteja mais para “somos diferentes, mas exigimos que tenhamos as mesmas oportunidades”. Oportunidades de quê? De se expressar, de construir, de criar, sejam filhos, sejam empresas, sejam textos ou obras de arte, de estudar, de optar pelo modo de vida a ou b, de formar família ou não, de ganhar dinheiro. Digo mais, somos diferentes, mas essas diferenças não nos colocam abaixo dos homens. O que temos é o que eu chamo de diferenças equiparadas e o mundo precisa reconhecer isso. Aceitar que somos igualmente importantes, com a maneira que cada um e cada uma têm de contribuir para o mundo. O que precisamos, nesta nova era, é nos autorizarmos a ser diferentes dos homens, sim, e a trilhar nosso caminho de acordo com essas diferenças, sem que estas impliquem desmerecimento, anulação, subordinação, silenciamento, frustração, salários mais baixos, falta de tempo para cuidar dos nossos filhos e sobrecarga em todos os níveis. Nenhuma garota deveria mais precisar agir como “um dos caras” para poder fazer coisas que os caras fazem, em 2016. Em resumo, estou falando de liberdade.

Hoje, eu também sei bem que essa liberdade vem em maior ou menor quantidade a depender da posição social, da classe, da raça, do credo, da nacionalidade, do projeto familiar em que a mulher foi inserida. Ninguém é mais escravo das suas contingências de vida que uma mulher. Se um homem precisa lutar pelo seu lugar ao sol num sistema regido por números, uma mulher, para falar na linguagem numérica tão bem entendida por nós desde pequenos e pequenas, precisa lutar o quíntuplo, pelo menos. Por isso, não tomo minha vida, farta em peculiaridades, muitas vindas de muito antes de eu nascer, como princípio norteador das minhas ideias sobre o feminino e o feminismo. Sei que para além de mim, o buraco é muito mas muito mais embaixo. Sei que, diferente de mim, que nunca tomei porrada de homem, há muitas às quais não resta escolha sobre a integridade de seu próprio corpo. Sei que se eu pude fazer duas grandes viagens internacionais, sozinha, com o fito de me por à prova e descobrir o que era a realidade para além de um sonho de adolescência, bancadas pelo dinheiro que ganhei com meu trabalho (corporativo), ou que se em tantos outros momentos, rompi barreiras menos palpáveis mas igualmente importantes do ponto de vista de formação da minha psique, foi porque eu tive a permissão de homens, sim, e do “mundo dos homens” no qual me impus tantas vezes como “um dos caras”. Também contei com sorte de viajante, sorte que as mochileiras argentinas e tantas outras não tiveram. Foda saber que homens têm ingerência sobre seu destino de uma forma que a imensa maioria das mulheres não tem. Foda saber que uma mulher nunca conquista nada por si só, apenas, mas porque houve uma cadeia de circunstâncias favoráveis vindo antes de seu desejo de realização e capacidade de realizar esse desejo. Foda saber que é preciso romper, às vezes, as próprias entranhas pra poder “dar certo” num mundo que não foi feito para a igualdade dos sexos. E qualquer mulher que já tenha feito um aborto saberá exatamente do que estou falando quando me refiro a “romper as próprias entranhas” porque, não, neste caso, não se trata meramente de uma imagem poética forte.

Passei quase que minha vida toda tendo homens como ídolos, como já ficou claro. Grandes coisas. Acredito que não seja diferente para a maioria das mulheres da minha geração e de todas as anteriores que ainda estão vivas pra contar. Não fomos acostumadas a aprender nem os nomes das mulheres que contribuíram para a história da civilização, quanto mais a entender, analisar e “grokar” a importância intrínseca de estar no mundo como mulher. O rol de ídolos machos – bloqueio furado apenas por Madonna e Clarice Lispector – começou pelo meu pai a quem queria desesperadamente imitar. Seu amor pelo rock n’ roll, pelos carros, pelo esporte, pelo aparato audiovisual, pelos UFOs, pela revista Playboy, pela Itália, pela arte. Sua picardia, sua bondade, sua língua ferina, seu talento, suas madrugadas em claro, sua generosidade, sua capacidade de dialogar de igual para igual com príncipes e floricultores, mendigos e doutores. Um homem podia ser tantas coisas! Às mulheres, o que restava? Trabalhar incansável e invisivelmente pela manutenção da ordem, da família, da casa, ainda que trabalhassem. Enquanto meu pai fazia seu show diário de malabarismo entre mil e uma funções, mamãe zelava pela nossa educação, minha e de meu irmão, com austeridade e sobriedade. E lia, lia muito. E tergiversava mais ainda. Sobre o que lia e sobre tudo. Seu papel era monolítico, monocórdio, monotemático. Criar os filhos.

Mamãe casou-se com 16 anos, teve os dois filhos aos 18 e 23. Aos 26, se tocou, morando na casa dos pais de seu marido, de que não havia grande futuro no horizonte se não se mexesse, uma vez que meu pai resistia a transformar sua arte em negócio e também não conseguia estruturar o que fazia como negócio. Fez um concurso dificílimo e passou, mas a comarca era no interior do Rio. Seriam dois anos apenas e ela poderia voltar a residir na capital. Meu pai, tão liberal e libertário no discurso, não deixou. Também não topou se mudar com ela, por ela, pelos filhos e seu futuro. Seguiu tendo salvo-conduto para ser artista na casa dos pais até morrer aos 39 e deixar uma viúva aos 34 com uma criança e uma adolescente nas costas. O futuro estaria determinado ali. Minha mãe não teve horizonte algum e seis anos depois, morreria confinada numa existência mediocrizada, vítima de uma doença que avançara implacavelmente depois da tragédia. Quando ouve minha história, a maioria bate palmas para o amor meio “Ghost” dos meus pais, que se foram ambos num dia 22 e com a mesma idade. “Que ligação!”, eles e elas exclamam, mas a realidade dessa linda história de amor simbiótico, em que um viveu grudado no outro, está longe de ser glamurosa. Eu não sou mais capaz de achar essa trajetória tão bonita assim, não depois de ter assistido à decadência física e emocional da minha mãe antes ainda dos 40 anos. Vivi o suficiente para “grokar” que meu pai recusou-se a crescer, foi autoritário, irresponsável, tirou a autonomia da minha mãe.

Todos os dias, eu me pergunto, enquanto me lanço, corpo inteiro, à vivência dos trâmites para a resposta que algum dia, virá: algum homem pode amar uma mulher verdadeiramente livre? Uma outra pergunta cabível é: o amor pode ser vivido em liberdade? Minha família não me deu exemplos disso. Então, me lembro da minha avó, mãe do meu pai, que ele dizia sofrer de “síndrome de Mulher-Maravilha”. Só hoje, aliás, sou capaz de entender o quão injusta era essa “brincadeira”. A Mulher-Maravilha servia dia e noite ao marido, que gritava por seu nome e batia palmas pra que ela fosse levar até remédio na sua boca no quarto de onde ele não saía, enquanto cozinhava, costurava, produzia as festas e jantares rotineiros da família, olhava os netos, administrava toda a vida financeira da casa, negociava e lidava com advogados, e ainda, traduzia para as maiores editoras do país. A tradução foi a maneira que minha avó encontrou de trabalhar sem sair de casa. A pioneira do ‘home office’ decantado em verso e prosa na aurora do século 21. Meu avô não permitia que ela saísse sozinha, quanto mais trabalhar fora, mas ela se recusava a ficar sem fazer seu próprio dinheiro. Lembro de ela ir buscar leite na vendinha da Dona Assunção às 6 da manhã, antes de meu avô acordar. Como ela dizia, “vou num pé e volto no outro”. Era sua escapadinha diária da prisão. Eu vivi isso na infância como uma anedota excêntrica. Agora, eu “groko” o que queria dizer esse esquema e como a minha “rebeldia”, antes execrada e combatida duramente pelo meu avô, e hoje, aplaudida por ele, já que eu sou a única da família que não lhe pede dinheiro, me trouxe até onde eu estou.

Neste 8 de março, as coisas estão um tanto quanto diferentes. Estamos saindo do armário e falando abertamente das nossas experiências pessoais. Este é o Dia Internacional da Mulher que ousa adotar como tema o clamor pela paridade de gênero. Porque, garotas, ouçam bem, o World Economic Forum fez um estudo e concluiu que vai demorar até 2095, quase século 22, para obtermos a paridade globalmente. Em terra brasilis, por exemplo, sabemos bem disso e precisamos falar de mais que a legalização do aborto que ainda nos é negada. Precisamos ampliar o debate público e falarmos da autorização que o “mundo dos homens” também precisa dar para que sejamos mães. Quantas mulheres abortam não porque não desejam ter filhos, mas porque as condições para que elas os tenham, simplesmente não existem? Cadê a força-tarefa de Estado, corporações e famílias, para que a mulher possa criar indivíduos? A sociedade manda que você não aborte mas lava as mãos quando seu filho nasce. A sociedade não entende que o mundo é uma construção conjunta, que é seu dever amparar e educar crianças para a vida, acha que a responsabilidade é toda sua, mas manda na sua vida, no seu ventre, porque sabe que quem pagará a conta sozinha é você. “Quem mandou fazer?” Ninguém mandou mas aconteceu e agora quem manda sou eu, e eu não vou ter este bebê. Hoje, começa discretamente o levante contra a pílula anticoncepcional, que eu nunca pude tomar por não suportar os efeitos colaterais. Nenhuma, nem as com dosagem baixíssima de hormônio. Mas quando eu dizia há uns cinco anos atrás que não tomava pílula, as mulheres mesmo ficavam escandalizadas. Como você e seu marido fazem? “Ele usa camisinha”, eu respondia. Agora, já não parece tão aceitável que você possa ter uma trombose, dentre tantos outros horrores, pra livrar o cara de usar a camisinha que ele detesta, não é?

Esse é apenas um exemplo desta virada de mentalidade que estamos testemunhando e que vai nos libertar, sim, e nos autorizar, sim, a construir novas narrativas, mais inclusivas, mais justas, mais equilibradas. Por acreditar que é falando que a gente se entende e que é falando que a sociedade vai sendo modificada, que decidi compartilhar um pedaço não tão bonito mas muito relevante da minha experiência de vida com vocês, hoje, porque esta é a experiência que me trouxe até aqui, ao enfrentamento com esta vertigem constante que é ser mulher. E hoje, Dia Internacional da Mulher com eclipse total solar em Peixes, o signo da amálgama, tenho muito orgulho de ter este espaço para dizer o que eu penso e de estar fazendo parte desta revista com tantas mulheres maravilhosas, que estão abrindo mentes, corpos e espíritos para um mundo novo em que todos poderão ser quem são, independentemente do preenchimento dos formulários.

L.A. é um caleidoscópio: escritora, poeta, jornalista, agitadora cultural, curadora, DJ, artista visual, decoradora, ocultista, mãe, geminiana e o que mais não couber em duas linhas. Escreve neste espaço às terças-feiras. E-mail:leilah.accioly@gmail.com

Imagem: “Couple IV” (1997) de Louise de Bourgeois.

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