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Prisma

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Brasyl, um conto de feudos

AVISO1: este texto contém muita mas muita ironia.
AVISO2: este texto não é sobre a tormenta política que o país atravessa.

O prédio onde eu moro, na Zona Sul do Rio de Janeiro, é um prédio dividido. De um lado, os “técnicos”, os “gestores”, preocupados com o uso de seu dinheiro no espaço comum, fiscais da ordem, agentes da Lei, que não podem deixar de observar o descumprimento das regras – contanto que estas não estejam sendo feridas pelo seu próprio grupo – e que sabem citar cada assembléia, cada decisão com precisão histórica impressionante. Certa vez, um de seus mais nobres representantes, um pequeno empresário que comanda o estabelecimento comercial de seu sogro, e faz questão de comentar sobre cada viagem internacional que fez nas reuniões de condomínio, um cidadão que ostenta em seu SUV o adesivo “é bom ser do bem” (porque deve ser mesmo tão bom ser do bem, que isso precisa ficar estampado naquilo que se usa), propôs em uma dessas reuniões: “o voto aqui neste condomínio deveria ter pesos diferentes de acordo com o tamanho das unidades, ora, se eu pago o dobro de taxa condominial porque meu apartamento é maior, meu voto tem que valer por dois”. A proposta do cidadão, que estava perdendo no pleito que o interessava diretamente – vocês devem saber que perder ou ganhar privilégios pauta propostas – nasce do fato de que ele, infelizmente, mora num prédio de configuração atípica, com três modelos de apartamento diferentes: uma unidade com cerca de 250 m2, na ala “um por andar” e duas unidades, uma com cerca de 150 m2 e outra com 100 m2 na ala “dois por andar”. No Brasyl, sabemos que 150 m2 podem representar a distância conceitual entre um cavalo e um carrapato, não sabemos? Pois bem, o cidadão em questão queria assegurar que suas ideias, crenças e valores tivessem peso correspondente ao espaço pelo qual pode pagar. Nada mais justo se a sua lógica for estritamente numérica, não é mesmo? Pagar por mais espaço o diferenciaria de quem não tem a mesma feliz condição e ele se sentiria representado de acordo com o poder econômico do qual desfruta. O valor de seu voto, ou seja, de seu juízo seria arbitrado conforme a supremacia inconteste de sua metragem quadrada. Certamente, ela haveria de atribuir a ele mais conforto que o que já atribui, naturalmente. A justiça é uma avenida larga.

Mas como eu ia dizendo, é um prédio dividido. E do outro lado, estão os humanistas, sendo a sua maioria composta pelos minifundiários do condomínio, aqueles que estão na coluna do meio, ou seja, aqueles que marcaram “zebra” no Banco Imobiliário. Esse pessoal é mais gregário, mas um tanto relapso com contas e tem ideias que soam muito “fora da casinha” para gente tão pragmática, que justifica em email por que estava zanzando pelas dependências do prédio destinadas a empregados quando, meu Deus, se deparou com uma gambiarra de energia elétrica inadmissível feita por um condômino que precisa ser duramente advertido, ainda que seja reconhecidamente um sujeito com problemas graves de dinheiro e alcoolismo. Esse pessoal também tem mais empatia e por isso, é mais brando no tocante ao cumprimento das regras, o que para seu sofrimento silencioso, não existe do outro lado. Aliás, esse pessoal cala com frequência e acaba consentindo absurdos demais. Mas um deles, certa vez, não se calou e defendeu que privilegiava sempre o diálogo na resolução de problemas antes de apelar para o regimento, por partir do pressuposto que ninguém da comunidade estaria interessado em levar vantagens ou prejudicar o vizinho. Bom senso, moderação, ponderação porque as pessoas vêm na frente dos números. “As regras existem e são importantes, mas não são Leis, nem Mandamentos Divinos, são apenas um balizamento para auxiliar nossa convivência. Dentro dessa ideia, preconizo que as regras possuam uma certa flexibilidade e tolerância, dependendo da situação”, ele escreveu. Ele também observou naquela ocasião que todos nós, sem exceção, em algum momento, infringimos uma regra, e que pra corrigir isso antes da aplicação de uma multa, por exemplo, havia a opção pela interlocução.

Mas qual foi “aquela ocasião”? Um casal estava concorrendo a uma vaga de carro dentro do prédio e não pôde ficar com ela porque tinha esquecido de pagar o condomínio quando participou do sorteio. Mas o que poderia ser interpretado como um atraso – que foi sanado pelo casal, assim que este soube do deslize da forma mais elegante possível – foi tratado como a temida e vexatória inadimplência. Em email aberto a todos os condôminos, um membro do bloco dos “gestores, expôs o casal “inadimplente” e reivindicou que a vaga fosse ocupada por um suplente. O suplente ser seu amigo e o casal, não, haveria de ser apenas um detalhe. Pois é, há essa peculiaridade de edifício antigo, também, nem todos os apartamentos têm vaga escriturada. Não preciso mencionar que a maioria dos “latifundiários” tem mais de um veículo e possui vaga coberta, precisando que seu segundo veículo concorra à vaga juntamente com as unidades que não a têm e possuem um carro apenas. Nunca fui contra que eles concorressem, apesar de me afinar com o segundo grupo, porque entenderia como uma incoerência com o que professo em relação àquela proposta de voto com peso dois. Não é porque você tem menos metragem quadrada que pode concorrer a mais vagas que os outros, como forma de compensar o privilégio do outro. Ou melhor, não é porque você tem uma vaga na escritura que não usufrui do mesmo direito de guardar o segundo carro que alguém que só tem um veículo, porque os espaços excedentes são para todos e “todos” contempla, inclusive, os que têm mais. Às vezes, os não-numéricos se esquecem que do outro lado não tem só números, também. Mas isso é uma postura muito impopular no grupo dos menos abastados, eu sei. Eu vivo na zona cinza, querendo a unificação impossível, sou uma utópica.

O bloco dos razoáveis, que não conseguiu implementar coleta seletiva de lixo até hoje, gosta de se ajudar, se frequenta, se gosta, aposta em atitudes colaborativas e adoraria, por exemplo, fazer um mutirão para recuperar o terraço, único espaço comum do prédio, que poderia servir como salão de festas ou ainda, como ateliê, sala de jogos, academia de ginástica, horta coletiva. Mas o único espaço comum do prédio denota qual o consenso que resulta da divisão de ideias e conduta: abandonado, sujo, depredado. Parece confirmar até a tese-mãe de um certo país, em que, se a coisa é pública, não é de ninguém. Os “comunistas” do prédio tentaram até apelar para os sentimentos dos “gestores” ao insinuar que o espaço poderia se transformar num negócio lucrativo para o condomínio, com o seu aluguel para pessoas que estivessem precisando usá-lo por algum motivo. Foi vetado. Não interessava a nenhum dos “numéricos”, talvez porque suas finanças estivessem indo muito bem, obrigado, naquela época, e estivessem frequentando clubes, academias etc. Pra que usar aquele terraço feinho? Se eles não viam usabilidade, quem mais haveria de ver? Nem sempre essa galera dos números enxerga apenas números, sejamos justos! Até eles são capazes de acreditar que nem tudo seja lucro. Afinal, é bom ser do bem.

Acontece que de uns tempos pra cá, o terraço esquecido virou um ‘point’ cobiçado. Deve ser efeito da pindaíba generalizada, que não anda desprezando classe. Uma moça com filha pequena foi levá-la pra tomar banho de mangueira outro dia, no tal do terraço, e qual não foi sua surpresa quando um dos porteiros lhe pediu que saísse com hora marcada porque os filhos de um dos “gestores” fariam sua aula de judô no espaço. Ela já havia notado que o local estava tomado de tatames, mas não questionou. Uma das regras de ouro do condomínio – que hoje, é administrado por uma laranja dos “gestores”, o famoso recurso “síndico de fora”, o que confere um clima de minas silenciosas sob nossos pés, mas que parece ter sido a única saída viável para apaziguar os ânimos no prédio dividido – diz respeito ao uso do terraço, que só pode ser utilizado com a ciência de todos os moradores, anotação dos horários no livro e posterior recolhimento dos objetos usados nas atividades. Não foi respeitada a regra e pasmem! Por um dos “gestores”. Impossível não sacar um Trótski num momento destes: “Conceitos morais abstratos que não são baseados em evidência empírica são simples ferramentas usadas pelas instituições da classe dominante para sufocar a luta de classes. A classe dominante impõe ‘obrigações morais’ sobre a sociedade, mas que os seus próprios membros não cumprem, que servem para perpetuar o seu poder”.

Quando a moça foi indagar o “gestor” sobre o que estava rolando, ele propôs, muito consciente e engajado no bem-estar da comunidade: “Por que você não coloca sua filha pra fazer judô com meus filhos?” Esforço-me para imaginar como seria se tivesse sido o contrário, se a moça que sempre pensou no bem comum estivesse usando o terraço na moita e depois, fizesse esse irresistível convite ao caro “numérico”. Outro dia, ainda teve um episódio muito divertido. Uma outra moça, que ia lixar um móvel no espaço e também da turma dos “comunas”, foi avisada pelo porteiro que ia ter uma aula de yoga. Quando ela toda ‘zen’ veio me contar, tive que soltar uma gargalhada e disparar “nossa, você recebeu uma informação CUSTOMIZADA”. Esse pessoal está sacando bem de ‘lifestyle’. Tadinha, ela pensou que eu fosse do bonde dos tatames e ficou até a fim de fazer yoga por lá.

Depois que começamos a comentar entre nós sobre o terraço da discórdia, surgiu uma circular muito simpática no elevador. “Convido a todos os moradores a participarem de uma reunião informal no play para falarmos sobre diversos assuntos (…) Síndica”. Jogo dos sete erros. Fiquei sabendo naquele momento que agora, moro num prédio moderno, dotado de um ‘PLAYGROUND’. Grande emoção eu senti. Mal posso esperar pelos “diversos assuntos” que serão discutidos ao redor de uma acalentadora fogueira árcade. Acho que aquela sonhada reforma do terraço vai sair, finalmente! Mas, é claro que não será comandada por esses vermelhinhos do faça-você-mesmo num convescote informal de domingo, mas sim por uma empresa séria contratada para esse fim. Depois de uma “reunião informal”, sempre podem vir as formalidades e formulários que acompanham as fundamentais votações e as consequentes frutíferas licitações. Aguardemos.

Mas, ao pensar em tudo isso, tive que ir dar uma olhada nuns emails do condomínio, quando a breve administração dos “humanistas” abriu um inédito fórum para debate dentro do Gmail, datados do fatídico ano de 2013, pré-Jornadas de Junho. Uma senhora que foi síndica do prédio por muitos anos noticiava “neste portal de transparência, o furto, pela segunda vez, da revista VEJA”. Para ela, o episódio era “grave em vários aspectos, sendo o prejuízo material o menos importante”. Num raciocínio que jamais consegui acompanhar, ela disse que estava divulgando “amplamente” o ocorrido porque a chance de identificar o ou a “moleque capaz deste ato de incivilidade” era remota. O que importa é que tudo que fere um bem individual merece “ampla divulgação”, o espalhafato, o megafone, a primeira capa, mas a coisa pública, não, esta pode ter divulgações mais, digamos, modestas, pé de página. O terraço abandonado nunca foi objeto de tamanha denúncia. Para esse pessoal, a lógica é outra. Faz-se uma sutil mudança de nomenclatura de um espaço, anterior ao que será decidido sobre ele, de modo a já guiar a percepção comum sobre o que ele representa enquanto se usufrui dele sem observância das regras. Vejam bem, nenhum “humanista” ousaria discordar do uso recreativo de um terraço, mas a maneira como se apropriam dele e o loteiam de acordo com as pretensões individuais é mais feio que o seu lamentável estado de conservação que nunca tinha sido alvo de preocupação dos condôminos tão zelosos. Estado este para o qual, certamente, já deva haver uma saída genial que nunca o “outro lado” havia apontado antes, tão pouco engenhoso que é. Ufa. Eu me sinto quase abençoada por ter resistido a fazer um texto sobre política durante tamanha balbúrdia que o país atravessa. Pelo menos, estou a salvo de polêmicas. Mas se nessa reunião de condomínio, alguém falar em política, não respondo por mim.

L.A. é um caleidoscópio: escritora, poeta, jornalista, agitadora cultural, curadora, DJ, artista visual, decoradora, ocultista, mãe, geminiana e o que mais não couber em duas linhas. Escreve neste espaço às terças-feiras. E-mail:leilah.accioly@gmail.com

Imagem: “O Triunfo da Morte”, de Felix Nussbaum.

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