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Notas Perfumadas

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Amar em tempo de cólera — aromas para amenizar o ódio

Hoje venho com a difícil tarefa de indicar aromas e plantas que amenizem tanto ódio e agressividade. Não tem milagre! O que há é um trabalho árduo, intenso e honesto consigo mesmo de busca pela autoconsciência. E, se o que você tem a dizer está saindo de forma torta e violenta, cuidado, o problema não está lá fora, está aí dentro.

É muito comum a gente se apegar em uma onda de incômodo social, financeiro ou político para jogar todo o nosso ódio guardado há anos ou, quem sabe, em uma vida toda. Aquele ódio inconsciente do pai ausente, da mãe rígida demais, aquela violência que foi reprimida na infância ou na adolescência, ou aquela violência toda que você, carente, já demonstrava para chamar a atenção dos pais, e da qual eles nada fizeram a respeito.

Existe muito ódio guardado aí, muita carência, muita energia mal trabalhada, aquelas traições do marido que você engole, os desejos reprimidos, a não aceitação do gosto sexual e basta  um convite coletivo para colocar tudo para fora  de forma violenta. Aí sai igual ao estouro da barragem da Samarco: fazendo muita merda. Se o que está dentro está fora, o estouro da barragem foi só uma prévia de tanta emoção contida. Deve ser por isso que o ser humano gosta tanto de torcida: porque lá pode-se gritar, esbravejar e deixar virem à tona todas as dores contidas.

O Brasil está em um momento político complexo, em que as pessoas deveriam manter a calma e dialogar, analisar, pensar. Mas não há espaço para isso, porque há muita dor no brasileiro, o povo mais feliz do mundo, que de feliz não tem nada. É só o povo campeão mundial no uso de Rivotril. Isso revela muita coisa, não?

Então, antes de desfazer a amizade com o amigo bacana, antes de xingar alguém que você nem conhece na rua, ou quando vier aquela irresistível vontade de matar (!!!) a moça vestida de vermelho ou com a camisa da Seleção, ou quando você confundir o rapaz negro com o PT e quiser esfaqueá-lo (olha o racismo dissimulado aí), respira fundo e lembra que não é bem pela Dilma ou pelo Aécio que você está se revirando e admita que são as suas tretas internas, que você não tem coragem de assumir.

É claro que muitas delas envolvem indiretamente questões políticas, como você ser morador da favela, ter oportunidades cerceadas por ser negro ou aquelas suas viagens para Miami que estão difíceis de acontecer porque o dólar subiu, ou ainda o estresse gerado pela PEC das domésticas que ferrou com a sua vida, descobriu que seu marido é um machistão que não lava um copo e que sobrou tudo para cima de você, mulher, que trabalha fora, estuda e ainda tem que fazer todo o trabalho de casa sozinha. Está descobrindo  que as feministas, aquelas moças “malcomidas” que você odiava, podem ter razão!

Enfim, são muitas questões, e quem sofre é o corpo físico, que recebe toda essa carga emocional. O ideal seria eu saber a causa dessas emoções negativas guardadas, mas, não tendo como, fiz um cardápio e torço para que você seja o mais sincero consigo mesmo e encontre a sua dor, frustração e agressividade aqui, à la carte. Será como uma terapia, um momento para você se olhar e encarar algo que não está muito bem aí nesse coração. Vai ser tipo um “eu confesso”, e você pode estar em mais de uma categoria:

Eu quero matar alguém e xingar as pessoas, na verdade, porque:

“Eu odeio o meu chefe, o meu trabalho, sou frustrado profissionalmente”:  vamos usar um olíbano, um cardamomo (você pode comer) com bergamota (tangerina). Cedro vai resgatar poder pessoal, coragem, autovalor, e bergamota vai dar uma acalmada.

“Acho que minha mãe não gosta de mim”: vetiver, que é uma raiz , para te nutrir emocionalmente

“Meu pai foi ausente ou muito rígido e me cobrava muito”: sândalo, para se sentir protegido e amparado

“Eu tenho problemas com sexo, não gozo, ou, na verdade, eu acho que sou homoafetivo, mas não consigo me assumir”: flor de ylang-ylang, para aflorar sua energia sexual de forma delicada e amorosa

“Eu fui violentada, abusada sexualmente, psicologicamente, fui estuprada” (aqui no feminino pois a maioria a quem isso acontece é mulher): jasmim. Muito jasmim! Cate as flores nas árvores, leve para casa, cheire! Ame-se!

“Eu odeio mulheres, são cretinas, inferiores, confesso que sou machista e odeio mulheres, elas deveriam apenas me servir” (aqui, certeza de que tem problema com a mãe): gerânio, cura do seu sagrado feminino, rosa branca para abertura do coração.

“Meu marido (ou minha esposa) me bate e/ou me trai”: gerânio e camomila, para acalmar o coração e se sentir acolhida(a) (beba chá de camomila), e muito jasmim e canela para sentir seu poder pessoal e sair dessa situação.

“Eu tenho raiva de quem não pensa igual a mim, é todo mundo burro” (acha que o mundo gira ao seu redor): lavanda e rosa branca, para transmutar arrogância e abrir o coração

“Odeio gente vitimista” (cuidado, o que você vê é o que você é, talvez o vitimista seja você, em não querer que as estruturas em que foi criado mudem): mirra para tolerância, sândalo para conseguir se colocar no lugar do outro.

 

Claro que as questões são profundas e não se resumem só a essas. As principais plantas para acalmar são: camomila, gerânio, rosa, lavanda, vetiver, sândalo, laranja doce, bergamota, jasmim. Procure por elas, pelas próprias plantas, infusões, chás, cremes e perfumes. Somos seres espirituais tendo uma experiência na matéria, não o contrário. Não se distancie da sua essência divina e lembre-se: amar em tempos de cólera é um ato revolucionário.

Palmira Margarida é historiadora e pesquisa a história dos cheiros, é a pisciana mais ariana de que se tem conhecimento. Descende de italianos e adora uma massa, mas fala sem gesticular. Ama viajar e captar os aromas das trilhas, das culturas e das ideias. Está em busca do profundo perfume do Ser. Escreve neste espaço às quintas-feiras. E-mail: margaridalquimia@gmail.com

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