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Aquarela do Brasyl

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O mundo está cinza. O tempo nublou. Ashes to ashes. Cidade grande, concreto, fumaça, exército de carros prata, que nada mais é que um cinza com brilho. Há alguns anos, o cinza virou a cor favorita dos projetos de arquitetura e design de interiores. Se os anos 1990 tiveram seu minimalismo com o branco como cor predominante para sugerir desafecção e assepsia ou espírito blasé, os anos 2010 têm no cinza o seu coringa, trazendo o mundo asfaltado para a sala, assumindo o protagonismo do cimento, ou seja, o papel principal da estrutura. É como se a rua viesse para dentro de casa e o cimento saísse das “internas” para a superfície. A gente pode entender esse movimento de várias formas. A mais pragmática explicará o fenômeno pela necessidade de reduzir custos, extinguindo revestimentos e acabamentos. A mais filosófica talvez argumente que esta é a idade da “transparência de dentro” onde revela-se do que são feitas as construções (em todos os âmbitos, não só na civil). A mais pop falará de moldar-se, finalmente, ao urbano e trazer para o convívio do lar os signos do lugar mais interessante que há, a rua. Pois, eu falo em brinde à zona cinzenta, à dúvida, ao ‘in between’, ao ficar entre o preto e o branco, e em produzir um caldo denso onde as cores não se distinguem, remetendo a uma certa ideia de “tudo é permitido, mas que ninguém saiba exatamente o que é ou não é permitido”. Alguns defendem que o cinza denota o equilíbrio entre os extremos. A maioria das publicações de decoração falará apenas em “versatilidade” e “neutralidade”.

 

O cinza seria, portanto, um “isentão”. Aquele que deixa que todas as cores se destaquem, que serve de fundo e base. Eu, que sempre vi o cinza como cor associada à tristeza e à sombra, assim como várias culturas, não me esqueço de quando visitei a casa de uma amiga que era notória pela paixão por cores estridentes e encontrei sua sala, antes inteiramente pintada de amarelo, toda cinza. Fiquei em choque, não entendi, tive vontade de sair correndo. Parecia que o peso do chumbo tinha feito ninho naquele salão. Aliás, parecia que estava tudo encardido. Acho que isso foi nos idos de 2009 e ela já estava capturando uma tendência que ainda não tinha chegado ao Brasyl. Ela me disse, então: “será o próximo grito”. Hoje, eu aprendo que cinza, não sei por que cargas d’água, pode representar estabilidade e autocontrole. Nada mais início de século 21 com crise de identidade que isso. Quem sabe, aliás, o cinza não seja o selo ou cromo da crise de identidade do mundo. O cinza é tudo que sobra do fogo.

 

Acabei me habituando ao cinza, e mais do que isso, me rendi à supremacia de sua sobriedade sofisticada. Aderi a ele em 2012, quando pintei toda a minha sala de “Cipó” da Suvinil, uma tonalidade com pigmento prata na composição e a cozinha de cor “cimento queimado”. O banheiro fiz de concreto, era minha adesão ao brutalismo de Paulo Mendes da Rocha e Vilanova Artigas, dois arquitetos pelos quais me apaixonei. Mas todo esse transe cinzento serviu, principalmente, para orientar o uso das cores espalhafatosas nos meus objetos: vermelho, amarelo, laranja, roxo. Sempre fui uma arara e tenho nostalgia dos tempos ultra-coloridos, o eldorado da paleta expandida e destemida do século 20, os anos que compreendem as décadas de 50, 60, 70 e 80. Esses foram os anos da fartura econômica, da juventude no trono da cultura, do reinado da televisão, cinema e videoclipe, do telefone, do consumo desenfreado e da consequente hiperpigmentação das ideias. Os carros tinham o mesmo espectro de cores que os esmaltes de hoje. Homens vestiam ternos de cores hoje consideradas absurdas pela ditadura do azul-marinho, marrom e preto. As cortinas e as paredes tinham violentas estampas e a psicodelia deixava tudo “entre o púrpura e o amarelo”, como diz a letra de Caetano para “O Estrangeiro”.

 

Bem, tudo isso era o que formava a bela capa do sofá de espuma desfigurada e molas retorcidas do século 20, chamado por muitos de “século sangrento”, mas que tingiu a paisagem moderna, tecnológica, belicista-civilizada (para os ricos) e predominantemente cinza de cores chamativas, superlativas, alegres em eficientes fachadas gráficas. Cores feitas sob medida para nos distrair de verde-militar e ocre, por exemplo. A usina de matança do século que mais massacrou e dizimou gente foi muito bem-sucedida em acobertar suas “faxinas” e varrer pra debaixo de um tapete mágico multicolorido criado à base de ‘chroma-key’ a podridão e a sordidez das suas batalhas. Sangrentas. Se os homens não podiam vestir rosa, suas fardas ditas discretas podiam ser manchadas de sangue.

 

O vermelho que anuncia as tão amadas liquidações do sistema capitalista, o vermelho da maior lanchonete de todos os tempos capitalistas, o vermelho da festividade mais consumista do capitalismo, o Natal, é também o vermelho do ímpeto revolucionário, identificado com o socialismo e o comunismo. Fora do terreno ideológico, vermelho evoca ação, vigor e é o que teóricos do design chamariam de “cor-statement”, uma espécie de anti-cinza, uma cor que diz a que veio e que liga os alarmes cerebrais. É a cor da atenção, que pode ser adotada tanto para avisar que não é possível atravessar a rua como para permitir a ultrapassagem, caso de uma faixa de ‘sale’, que convida ao gasto excessivo sem que você perceba, por exemplo. A cor mais comumente associada à paixão erótica é a cor que envia sinais sobre dominação. Estranhamente, como informa a matéria da BBC, enquanto homens classificaram seus colegas que usavam camiseta vermelha como “raivosos” e “assustadores” – ao contrário da “felicidade” e “neutralidade” que atribuíram às cores azul e cinza -, as mulheres não identificaram emoções turbulentas no uso da roupa vermelha. Arrisco o palpite de que o vermelho talvez não tenha a conotação de perigo para as mulheres que tem para os homens, por nós convivermos com a naturalidade dessa seiva humana da vida na menstruação e no parto. Nós convivemos com a vermelhidão, mesmo que o momento cultural seja de pintar até o erotismo de cinza. Ok que foram necessários 50 tons, pelo menos, pra isso. Piadas e achismos à parte, o que importa é que a antropóloga Diana Wiedemann, co-responsável pelo estudo, declarou que as diferenças entre participantes masculinos e femininos podem “ser um exemplo de como as percepções são moldadas socialmente”. Sobre isso, ela afirmou no jornal The Sydney Morning Herald: “A cultura pode refletir, reforçar ou modificar um viés inato ou pode acabar criando uma parcialidade”.

 

Não me diga. A cor da vitória virou alvo de perseguição no estranhíssimo reino verde-amarelo-azul-e-branco do Brasyl, este território outrora verdejante que padece de lama barrenta por todos os lados (vide Mariana). Eu digo que a cor tornou-se o alvo, e não, aqueles que a vestem, porque não considero, mesmo, que esses perseguidores enxerguem indivíduos à sua frente. Também não acho que tenham algum conhecimento sobre ideologias ou política. Estão obcecados. Babando de raiva, que é associada à cor vermelha, inclusive. Talvez, eles comprovem o que cientistas suspeitam, conforme uma das matérias ‘linkadas’ acima, “que o uso do vermelho, de alguma forma, inibe a ação dos outros concorrentes, sem que eles mesmos tenham consciência clara desse processo”. “Palma, palma, não criemos cânico”, como exclama o herói pobretão número um da América Latina, El Chapulin Colorado, um país que já foi collorido não deve temer a ação de uma cor isolada.

 

O cinza suave e neutro, que pode embalar a coexistência de muitas cores na decoração, é malvisto por entidades como o Estado Islâmico, por exemplo. A região dos atentados cometidos em Paris (10o e 11o arrondissements), no ano passado, foi escolhida a dedo pela organização terrorista por ser habitada e frequentada por pessoas diferentes que coexistiam sem sobressaltos. Segundo a matéria, “O Estado Islâmico publicou em sua revista um editorial celebrando e incentivando a ‘extinção da zona cinzenta'”, o que o autor, o historiador Patrick Luiz Sullivan de Oliveira, doutorando na Princeton University, chama de “parcela da humanidade que no dia a dia pratica sua resistência contra uma visão de mundo maniqueísta”. Para ele, “a zona cinzenta é aquele espaço social onde é concebível a existência de uma garota muçulmana que curte rock, escolhe vestir um ‘hijab’ por conta própria, namora um ateu, e faz suas orações diárias”. Esse tipo de sujeito social nasce de um mundo globalizado, em que as fronteiras desmoronaram e o que temos visto, diante da imensa recessão econômica que praticamente o mundo inteiro atravessa, é o crescimento daquele melancólico sentimento de patriotismo que cega para a percepção do humano, preferindo enxergar bandeiras. Justamente aquele momento em que as cores se sobrepõem às pessoas e às ideias, que nunca foram tão “nem preto nem branco” quanto hoje. Patriotas e religiosos fanáticos detestam o equilíbrio cinzento, ao que parece. “Nada ameaça mais o seu (do Estado Islâmico) projeto terrorista e divisório do que a coexistência entre pessoas de credos, cores, sexos, gêneros e nacionalidades diferentes”, como expõe Patrick Luiz. É, portanto, fundamental estar atento(a) a que tipo de projeto totalitário o seu ódio pode estar servindo.

 

A questão neste ponto é de identidade. No momento em que surge com ferocidade vermelha mais uma figura folclórica brasyleira, o “isentão”, que alguns pintam como uma espécie de Macunaíma instruído com perfil no Facebook, outros como um execrável petista disfarçado, o brasyleiro polarizado cobra uma posição, como se parar para ponderar no momento em que mais somos convocados a isso e no qual, até os cientistas sociais e políticos, analistas e economistas mais abalizados para dar opinião não têm ideia do que está acontecendo, nem do que pode acontecer, fosse um CRIME. Um crime de lesa-pátria. É preciso ter muito mas muito cuidado com o ufanismo verde-amarelo, alerta (em vermelho?) a história recente do país. Caça às bruxas costuma levar figuras anti-arco-íris ao poder. E nós sabemos, quero crer que sabemos que o pote de ouro, essa cor intrigante que interessa a todo mundo, só se encontra no fim do arco-íris, que não deve ser por acaso, o símbolo da luta pela diversidade sexual. Que ele vire símbolo também da luta pela diversidade de opiniões e ideias. E que entendamos, de uma vez por todas, que debate não é embate e que a violência vermelha de sangue do século 20 não precisa se repetir nos novos tempos.

 

“National cultures are not simple repositories of shared symbols to which the the entire population stands in identical relation. Rather, they are to be approached as sites of contestation in which competition over definitions takes place”, Philip Schlesinger (1987).

 

“Vou pintar um arco-íris de energia
Pra deixar o mundo cheio de alegria
Se tá feio ou dividido
Vai ficar tão colorido
O que vale nesta vida é ser feliz
Com o azul eu vou sentir tranqüilidade
O laranja tem sabor de amizade
Com o verde eu tenho esperança
Que existe em qualquer criança
E enfeitar o céu nas cores do amor
No amarelo um sorriso
Pra iluminar feito o sol tem o seu lugar
Brilha dentro da gente
Violeta mais uma cor que já vai chegar
O vermelho pra completar meu arco-íris no ar”.

Xuxa.

 

L.A. é um caleidoscópio: escritora, poeta, jornalista, agitadora cultural, curadora, DJ, artista visual, decoradora, ocultista, mãe, geminiana e o que mais não couber em duas linhas. Escreve neste espaço às terças-feiras. E-mail:leilah.accioly@gmail.com

 

Imagem: www.astropt.org

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