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O fim do mundo como conhecemos

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“It’s the end of the world as we know it, and I feel fine”: nos anos 90, com a chegada da MTV ao Brasil, o clipe do grupo americano REM com essa música passava com certa frequência na MTV. Como eu, sempre que podia, praticamente só assistia à emissora, a canção se tornou parte importante da trilha sonora da minha vida. O vocalista, Michael Stipe, narrava de forma apressada o fim do mundo. A melodia era pra cima. O refrão-título resumia: é o fim do mundo como conhecemos, e eu me sinto bem.

 

Ainda hoje, no entanto, quando penso nessa música, a lembrança que me vem à cabeça é do Rock in Rio 2001, no show da banda. Mais especificamente, em uma imagem: enquanto todos cantavam em uníssono, já que esse era um dos grandes sucessos do REM, Mauricio Gouveia, o bravo dono do sebo Baratos da Ribeiro e meu colega de faculdade, que assistia ao show ao meu lado, pogava freneticamente. O chão era de terra (aquele foi o lendário Rock in Rio em que todos voltaram para casa com meleca preta) e, quanto mais ele pogava, mais a poeira levantava, e assim sucessivamente, num cenário digno de fim de mundo.

 

Corta para 2016. Eu e outros tantos colegas jornalistas tentando recomeçar. Nos “reinventar”, palavrinha um tanto viciada — e com a qual implico, por ser um eufemismo, assim como outras tantas começadas por “re” que se popularizaram nos últimos anos, como reengenharia e reestruturação. Literalmente, “reinventar” seria inventar algo de novo, o que é uma contradição: só se inventa algo uma vez. Na prática, “reinventar” significa fazer tudo de novo. O mundo como conhecíamos está desmoronando, e precisamos fazer algo a respeito.

 

Já faz algum tempo, a menina que sonhava fazer da escrita uma profissão se deu conta de que o jornalismo talvez fosse uma opção. Lia religiosamente a seção de cultura do jornal, comprava revista de músicas. Logo, estava fantasiando trabalhar no Jornal do Brasil e, mais tarde, na MTV. No fim da faculdade, porém, o JB já não era mais aquele, tampouco a MTV. A realidade do mercado era outra, e os sonhos foram tendo que se adaptar à realidade.

 

Até que, de repente, não mais que de repente, o desejo de trabalhar num veículo impresso virou realidade. Eu já havia vivido a experiência diária em uma redação de internet e feito matérias para impressos, mas aquilo era diferente. O jornal O Dia me deu a chance de entrevistar artistas que eu admirava, de conhecer meu ídolo Jorge Ben, de me aproximar do meu (futuro) biografado Martinho da Vila, de ir a lugares no Rio onde jamais iria se não fosse pelo trabalho (os plantões na editoria de polícia são educativos e essenciais, embora eu não sinta saudade, risos), de conviver com pessoas que se tornariam parte da minha vida para sempre. Ali, vivi meu sonho adolescente. Com todos os ajustes à realidades pelos quais os sonhos normalmente precisam passar.

 

Dez anos se passaram e me vi mudando radicalmente minha carreira. Os veículos impressos, principalmente os jornais diários, já não são parte essencial do cotidiano brasileiro (e do resto do mundo). Para algumas gerações, sequer chegaram a ser. A internet veio e, como um furacão, foi tirando tudo do lugar, sobretudo na última década. Mais do que nunca, o tempo não para, não para, não para, não.

 

Curiosamente, a música, paixão adolescente e área à qual mais me dediquei no jornalismo, passou por um processo semelhante, alguns anos antes. Da noite para o dia, a poderosa indústria musical viu suas estruturas sendo derrubadas uma a uma, para o surgimento de uma nova era. Frequentemente, uso esse exemplo para acalmar os corações dos colegas desconsolados com os seguidos passaralhos e fechamentos de redações: o pessoal da música encontrou um jeito, nós havemos de encontrar uma saída também.
 

Se, conforme eu via o jornalismo impresso definhar, um vazio se abria em meu peito, a rede, com sua infinitas possibilidades, fez tal qual a música de Chico Buarque: foi chegando sorrateira e, antes que eu dissesse não, se instalou feito posseira dentro do meu coração.

 
Tempo real, download, streaming, data sourcing, redes sociais, tudo ao mesmo tempo agora na palma das nossas mãos, em nossos celulares de última ou penúltima geração.  Se, há alguns anos, alguém me dissesse que eu praticamente deixaria de assistir à TV em casa, eu jamais acreditaria. Gil Scott-Heron cravou nos anos 70, certeiro, que a revolução não seria televisionada. Em 2015, ela foi parar nas hashtags. Como diria outro poeta, Marcelo Yuka, hoje eu desafio o mundo sem sair da minha casa.

 

Ao contrário da música, o jornalismo ainda não encontrou na rede uma forma de se manter financeiramente. Enquanto isso, jovens de diversas profissões — ou jovens demais para ter qualquer profissão além da de influenciadores — realizam o sonho dourado de ganhar boas somas de dinheiro com a internet. Algumas pistas podem estar aí. Quem será capaz de encontrá-las e adaptá-las para o jornalismo?

 

Não se sabe. O cenário é confuso. A poeira sobe, alguns saem de perto, outros tentam se agarrar às velhas estruturas que ainda não desmoronaram por completo, mas estão perdendo grãozinho por grãozinho a cada dia que passa (e elas sabem disso). Em meio ao caos, alguns dançam e pogam, tentando seguir o ritmo de uma nova música que está no ar. É o fim do mundo como conhecemos. E eu, juro, me sinto bem.

 

Kamille Viola é jornalista e há muito tempo sonha ser também cronista. É fã de Rubem Braga, Drummond, Carlito Azevedo e Alvaro Costa e Silva, o Marechal. Escreve neste espaço às quartas-feiras. E-mail: kamilleviola@gmail.com

 

Imagem: frame do clipe de “It’s The End Of The World As We Know It (and I Feel Fine)”, do REM<.

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