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Esperança x Walmart

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Na semana passada, eu me peguei descobrindo uma leva novíssima e inspiradíssima de videoclipes, refestelada no sofá como nos velhos tempos (passei muitos anos da minha vida gravando videoclipes, o que me rendeu uma coleção particular de mais de 10 mil vídeos). Em tempos tão conturbados, é uma bênção poder se deliciar com clipes tão bem feitos para ótimas canções e dar uma desanuviada do “monotema” brasyleiro corrente. Diante destes clipes lançados ultra-recentemente, sendo a maioria deles de meados pra final de março, me lembrei de uma certa habilidade adolescente e jovem adulta, hoje pra lá de negligenciada, de me desligar do núcleo duro dos assuntos, das ‘hard news’ e dos debates político-filosóficos ardentes e cansativos, por meio do videoclipe. Mas um deles e o que ficou mais vívido na minha cabeça não foi o que desanuviou, mas o que ecoou as preocupações presentes: “The Community of Hope”, de PJ Harvey. Sem dúvida, a realidade vem destronando qualquer saudável pausa para a alienação.

 

“Community of Hope”, o vídeo, poderia ser resumido assim: compositora inglesa de mão cheia com preocupações humanistas e contralto que leva a emocionantes alturas une-se a cineasta e fotógrafo irlandês especializado em documentário, mais conhecido por seu trabalho em países devastados pela guerra como o Afeganistão. Lançado em 18 de março, ele marca a volta à ribalta da esfuziante e soturna, doce e furiosa Polly Jean Harvey, uma das maiores compositoras e intérpretes da história do rock, a única a ganhar o Mercury Prize duas vezes, a inglesa que reconcilia contradições com maestria, considerada por muitos e muitas a Patti Smith da geração Y e que estava sem lançar desde 2011. Depois de um álbum super bem-sucedido (como vocês verão abaixo), tingido a marcial vermelho-sangue, ecoando as preocupações com a ordem mundial neste complexo início de século, Polly Jean parece ter adquirido gosto pela coisa política. Assim como Patti Smith, a maior poeta do rock, que é também uma ativista pelos direitos humanos, apoiadora do Green Party (Partido Verde) nos EUA e autora do hino “People Have The Power”, resgatado recentemente pelo U2 por ocasião dos atentados terroristas em Paris, PJ Harvey envereda pelo artisticamente espinhoso caminho do protesto com o projeto iniciado em janeiro de 2015, “The Hope Six Demolition Project”. Apesar de não gostar de ser comparada a Smith (ela diz que isso é “jornalismo preguiçoso”, ha-ha), fica difícil de não levantar a bandeira das almas afins neste ponto, até porque “The Community of Hope” soa MUITO pattismithiana.

 

Seu nono álbum de estúdio, que será lançado no dia 15 de abril, começou a ser gravado num show, e um jornalista da revista Uncut notou que o tema político predominante em “Let England Shake”, seu último trabalho, de 2011, hoje, encontra-se expandido, alcançando territórios para além do britânico. Pudera, Harvey fez uma imersão no Kosovo, no Afeganistão e em Washington D.C. de 2011 a 2014, e é de sua convivência com problemas das comunidades desses lugares que resulta o disco. Mas há ainda mais expansão territorial nesse ambicioso trabalho. “Hope Six…” foi criado em sessões abertas ao público como parte de uma exposição em Londres, no ano passado, e está intimamente ligado ao primeiro livro de poesia de PJ Harvey, “The Hollow of The Hand” (algo como “o oco da mão” ou “o côncavo da mão”), que foi lançado num show multimídia cujo visual ficou a cargo de Murphy e no qual foram apresentadas dez canções, que fariam parte, justamente, do álbum que está pra sair. Vale informar que Murphy acompanhou Harvey em suas viagens de pesquisa.

 

Portanto, esse clipe é parte de algo muito maior, apenas três minutos — fortíssimos — do que andaram anunciando que seria um documentário a ser lançado junto com o disco, cujo título faz menção ao projeto HOPE VI nos Estados Unidos, que demoliu casas precárias em áreas de alta periculosidade para substituí-las por moradias melhores, o que acabou sendo um tiro pela culatra, porque os moradores de antes não puderam pagar por essas novas casas, levando a acusações de “faxina social”. Qualquer semelhança com os processos de gentrificação das metrópoles brasyleiras não é mera coincidência. Aliás, alguns políticos não gostaram nada da canção e criticaram a artista publicamente. Versos como “OK, now this is drug town/ Just zombies” (“Tá bem, agora esta é a cidade das drogas/ Apenas zumbis”) no ‘city tour’ que Harvey conduz na letra — ela, que, por sua vez, foi conduzida por um jornalista do The Washington Post em sua viagem ao estado para conhecer o HOPE VI — irritaram congressistas, que ridicularizaram a artista e disseram “não ser bem assim”. Não deve mesmo ser bonito como parece em “The Community of Hope”, filmado com extrema sensibilidade, polidez e sobriedade.

 

PJ Harvey conheceu Seamus Murphy através de uma exposição de fotografias suas, em Londres, feitas no Afeganistão. Em entrevista ao The Guardian, Murphy contou que, apesar de o material ter sido produzido no país em plena guerra, há quase nada explicitamente de guerra nos seus registros, que são, em sua maioria, silenciosos e contemplativos. Exatamente como no videoclipe, em que a pobreza e a desigualdade estão por trás das cenas como fantasmas que nunca se revelam, apenas assombram. Esse parece ser, então, o grande trunfo da imagética de Murphy, que deixa a violência e o perigo ou a imprevisibilidade no subtexto, quase que lynchianamente (ele é fã de David Lynch, inclusive), explorando muito bem as sombras. Impossível não traçar um paralelo com o Rio de Janeiro das “cidades misturadas”, comandado por criminosos de toda sorte de colarinho. Uma cidade que rende imagens em que a esperança e a união das pessoas carentes parecem estar sempre prestes a ser solapadas por mãos sorrateiramente assassinas, acionadas tantas vezes por aqueles que deveriam garantir sua proteção e bem-estar.

 

Seamus Muprhy já tinha assinado os clipes tirados do álbum anterior de PJ, “Let England Shake”. O mais notório deles, para “The Words That Maketh Murder” exemplifica bem o clima lynchiano com uma longa cena (para padrões videoclípticos, claro) de um casal idoso dançando num salão, que poderia parecer prosaica, mas tem uma aura de mistério inexplicável, seguida da mão de um homem num volante dirigindo estrada adentro. O truque de interromper a execução da canção em estúdio para mostrar Harvey tocando sua ‘autoharp’ e cantando solitária, ao vivo, emociona com seu apelo documental. Já “The Community of Hope” é puro naturalismo, com sua estética HD brilhante e pormenorizado, ultra hi-fi século 21, conseguindo dependurar-se no meio do trajeto entre duas montanhas muito distantes uma da outra: a do realismo documental, jornalístico, discursivo, e a do videoclipe, produto pop, artificioso e convulsivo, gerador de imagens-amuleto.

 

O clipe é quase uma sequência de fotografias fortíssimas, enfileirando, por exemplo, bandeira dos Estados Unidos cabisbaixa e iluminada na escuridão, um avião ao longe voando entre prédios, sendo um deles da MetLife, corporação campeã mundial em seguros de vida (impossível não pensar na colisão do WTC vendo essa cena), um recepcionista negro atento a alguma coisa que está embaixo, num plano em que ele está rente à parte de baixo da tela enquanto uma imensidão de luz azul toma a maior parte da cena, pessoas segurando velas, pessoas vendo a Estátua da Liberdade de dentro de um ‘ferry’, pessoas levantando dos seus assentos numa igreja. Aos 37 segundos, uma das melhores fotografias deste vídeo de fotografia impecável protagoniza um lance de metalinguagem ao mostrar fotografias de Obama e Michelle penduradas no espelho de uma barbearia. Fotografias, fotografias. A vida vai passando na comunidade, alternando tomadas de aglomerações admiradas de perto, em tudo de mais humano que há em seus rostos anônimos, e massas amorfas da cidade grande vistas de longe, como engarrafamentos e helicópteros sobrevoando a paisagem.

 

Apesar da atmosfera desoladora, muito por causa da triste canção ‘folk’, o clipe transmite o calor da união entre as pessoas, transformando-se num estand-arte da comunidade enquanto valor. A comunidade como sinônimo de esperança e a esperança não como algo individual, mas como a força-motriz, definidora de uma comunidade. O vídeo é a narração visual ‘partner in crime’ da letra, que se restringe a apresentar os pontos anti-turísticos da comunidade atingida pela criminalidade: o único restaurante com assentos, a “via da morte”, a escola que parece um buraco, o sanatório caquético, a delicatessen chamada “M.L.K”, iniciais de Martin Luther King. E é nesse ponto que o clipe ganha tons épicos: a letra é fechada com o mais que irônico verso “They’re gonna put a Walmart here” (depois das ausências, a promessa, que também se constitui numa ausência), e é justo nesse momento que Murphy recorre àquela interrupção como em “The Words That Maketh Murder”, mas, dessa vez, dando voz não à artista, mas à comunidade. É de arrepiar até os cílios quando, perto dos dois minutos, a música passa a tocar num celular e um homem se junta a duas mulheres para cantar o trecho final, “eles vão botar um Walmart aqui” num coro ‘gospel’ que eleva a cadeia de hipermercados ao status de redenção divina.

 

Em tempos assombrados pela ascensão da extrema-direita em quase todo o mundo e com os riscos de a população norte-americana cair de amores, em massa, por Donald Trump, eu gostaria que esse clipe-manifesto, “The Community of Hope”, fosse visto de olhos bem abertos. Que bom saber que há artistas de pensamento independente, ocupando as trincheiras ideológicas progressistas. A questão, no entanto, é a angústia pulsante. Como vamos substituir os espaços vazios, os “hollows of the hand” e “of the land” (da terra) por comunidades que não vivam somente de esperança, mas de poder real sobre os espaços que ocupam? Elas, que ainda sobrevivem relegadas a meras assombrações ou empecilhos para o triunfo do capital, mas que, nesse videoclipe, conseguem inverter a posição, deixando a desgraça da miséria fora dos holofotes, graças ao eloquente jogo de sombras de Seamus Murphy. Gostaria de viver para ver a ascensão das comunidades justas. A esperança é uma palavra muito comprida.

 

***

 

PJ Harvey foi lançada a seco (com o álbum “Dry”) no início dos anos 90, após alguns anos de experiência numa banda ‘folk’, quando a quadrilha do rock independente americano, ou seja, à margem das grandes gravadoras, passou a frequentar as paradas na esteira do sucesso do Nirvana e da cena ‘grunge’ de Seattle. Depois de se firmar como queridinha do circuito ‘indie’ com seus raivosos brados feministas “Dry” e “Rid of Me”, Harvey começou a explorar sua estranheza com timbres flutuantes entre a sensualidade e a melancolia, e a dar vazão à sua veia menestrel feminina, ultrapassando os limites do manual da boa ‘riot grrrl’ com o brilhante álbum de 1995, “To Bring You My Love”. Nos anos 2000, lançou dois discos essenciais para a compreensão da música popular daquela década: o perfeito “Stories From The City, Stories From The Sea”, um canto pungente sobre o amor na era globalizada hiper-consumista, que conta com participações estelares de Thom Yorke, líder do Radiohead, e algumas das baladas mais sentidas de seu repertório; o caótico, delicioso e sexual “Uh Huh Her”, onde Harvey toca todos os instrumentos à exceção da bateria, e no qual ela cunha uma de suas grandes frases, “shame is the shadow of love” (“a vergonha é a sombra do amor”). O álbum que completa a jornada nos anos 00 é o lindo e diáfano “White Chalk”, baseado em piano, resgatando suas raízes ‘folk’ e adicionando uma farta camada de elementos vitorianos com o auxílio luxuoso, por exemplo, da auto-harpa, uma espécie de cítara que acabou virando um dos instrumentos favoritos de PJ. Depois dos agudos perfurantes e dedos deslizantes de “White Chalk”, vieram quatro anos de intervalo e “Let England Shake” chegou para abrir os anos 2010 com o bafo ácido do engajamento político, abordando a guerra no Afeganistão. Sucesso de crítica (levou um 10,0 da instituição sagrada inglesa NME), fala do DNA guerreiro inglês. “Etéreo” e “brutal” foram alguns dos adjetivos dados a mais uma demonstração de contradições bem encaixadas de PJ Harvey. A Uncut e a MOJO, outras duas das maiores publicações dedicadas à música pop, o elegeram o álbum do ano de 2011.

 

L.A. é um caleidoscópio: escritora, poeta, jornalista, agitadora cultural, curadora, DJ, artista visual, decoradora, ocultista, mãe, geminiana e o que mais não couber em duas linhas. Escreve neste espaço às terças-feiras. E-mail:leilah.accioly@gmail.com

 

 

Imagem: Trecho do clipe “The Community of Hope” tirado do Vevo.

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