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Tá tranquilo, tá favorável

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O dicionário Houaiss ensina que resiliência é “a capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças”.  Sempre senti um misto de admiração e irritação pela capacidade de ser otimista sempre. Conheço duas pessoas que são e seus exemplos me mostram que a atitude positiva de alguém diante das adversidades dessa nossa existência faz toda a diferença.

Acredito, sim, existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia. Creio em terapias holísticas, forças do pensamento, acontecimentos que não sabemos explicar. No mínimo, existe algo além do que a nossa limitada inteligência humana pode explicar. No entanto, muitas vezes é difícil manter a esperança.

E aí a gente lembra que é um pontinho dentro de um planeta que gira em torno de uma estrela-anã, em uma galáxia que tem cerca da metade do tamanho da galáxia vizinha. Como seguir com fé sentindo todo o peso de nossa insignificância?

As notícias, muitas vezes, também não contribuem para o ânimo. Tanto mudou no mundo, a tecnologia deu saltos quânticos, e aqui estamos nós, ainda falando em racismo, violência contra a mulher, homofobia, preconceito contra pessoas com deficiência. Como diria Heleninha Roitman, que ano é hoje? Uma leitura mais atenta evoca épocas sombrias no nosso país: “Tempo negro. Temperatura sufocante. Ar irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos.”

É nos tempos complicados, no entanto, que devemos ter fé (até porque, quando as coisas estão bem, não necessariamente precisamos de fé, otimismo ou qualquer coisa do gênero). Estamos no olho do furacão, no meio a profundas mudanças no mundo inteiro, e mudanças não vêm sem a destruição do que existia antes. Dá medo — e muito —, mas não devemos nos deixar paralisar por ele. Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade, já disse um especialista em marketing, então sigo caminhando e repetindo o refrão: “Tá tranquilo, tá favorável”. Uma hora há de dar certo.

Nos momentos em que beiro o desânimo total ou o desespero, no entanto, apelo para uma música que é uma espécie de mantra. “Zé Canjica”, minha preferida do Jorge Ben. Escuto-a como quem faz um rosário, ouvindo-a repetidas vezes seguidas. A melodia é para cima, mas a letra, no entanto, é tristíssima. Só que em mim o efeito é revigorante. “Pois ainda resta em mim um fio de esperança e a vontade de viver pra conseguir conquistar novamente ela”, ele canta num momento.

Hora de nos agarrarmos ao fio de esperança. Com toda a força do mundo.

Kamille Viola é jornalista e há muito tempo sonha ser também cronista. É fã de Rubem Braga, Drummond, Carlito Azevedo e Alvaro Costa e Silva, o Marechal. Escreve neste espaço às quartas-feiras. E-mail: kamilleviola@gmail.com

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