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Avô

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Achava o avô um homem engraçado, de hábitos calculados. Por vezes, quando a mulher lhe perguntava se estava com fome, ele devolvia: “Que horas são?” Dependendo do horário, respondia que sim, queria comer. Era mesmo metódico: tomava diariamente seu suco de laranja com farelo de trigo (o médico dissera que era bom para o intestino) na hora do almoço. No café da manhã ou no lanche, gostava de mergulhar pedacinhos de queijo no café com leite para eles derreterem e comia um a cada vez. Ela adorava aquilo e imitava.

Tinha um ar mal-humorado, ao contrário da avó, que, divertida, sempre respondia ao “boa-noite” do apresentador do telejornal ou revelava segredos à mocinha da novela. O avô, irritado, reagia invariavelmente da mesma forma: “Eles não podem ouvir”, resmungava. A avó ria.

A avó, prendada que só ela, estava sempre às voltas com receitas deliciosas, ou então na máquina de tricô ou de costura, ou ainda decifrando estrelas nos mapas astrais. A menina tinha fome de aprender um pouco de tudo, e foi graças a essas tardes com a matriarca que aprendeu a cozinhar, pregar botões, fazer pequenos consertos em roupas e o ponto básico de crochê. Mas, às vezes, trocava esse mundo mágico de informações pela companhia dos longos silêncios do avô. 

Dele, ganhou seu primeiro livro de adulto: ‘200 crônicas escolhidas’, de Rubem Braga, que, ainda por cima, trazia uma mulher nua na capa. Coisa pra adulto mesmo! Muitas vezes passavam horas na sala de estar sem dar palavra: ele, mergulhado no jornal do dia ou nos livros, e ela, em quadrinhos ou outras histórias infantis. Embora não fosse um homem de muito estudo, ela descobriria um dia, parecia ter devoção pela leitura.

Ele também passava tardes enfurnado no escritório, cercado de documentos, analisando Deus sabe o quê, já que estava aposentado havia uns bons anos. Às vezes, a neta adentrava seu reino, e o auge da felicidade ela quando ele deixava que ela brincassse à máquina de escrever, pela qual ela, ainda criança, tinha fascínio absoluto. Ali, acreditava ela, escrevia as histórias mais importantes do mundo.

O homem quase nunca saía de casa, a não ser para ir ao banco (era um tempo pré-internet) ou dar seu passeio preferido: todo domingo, almoçava fora, cada vez em algum lugar diferente. A avó sempre foi a melhor cozinheira do mundo (e isso era a opinião não só dos netos dela, mas dos de outras avós também), mas a neta dividia com aquele senhor de cabelos branquinhos o fascínio por descobrir novos sabores, tão distantes para uma filhas de naturebas feito ela. Cheirava o vinho antes de bebê-lo, o que, naquela época, a intrigava tanto — quem diria que, anos mais tarde, isso seria mais do que comum nos restaurantes da cidade.

Os sorrisos do avô eram raros. Ainda assim, ela é capaz de se lembrar deles em detalhes, como se fosse hoje, como recorda o ritual do avô quando se preparava para ir à rua, a camisa branca sob a calça presa com cinto, a boina italiana cinza, por último a bengala. Quando morreu, a neta era muito jovem para que pudessem ter tido qualquer conversa mais profunda, mas, para ela, havia uma espécie de laço que os aproximava. Talvez porque, durante anos após sua morte, ele ainda surgia em seus sonhos, como se cuidasse dela de alguma outra dimensão.

Sempre se sentiu muito ligada à avó por diversos motivos, do gosto pela cozinha e pela astrologia à mania de querer resolver tudo sozinha, do hábito de falar muito ao de fazer piada de tudo. Mas, hoje, passando as tardes sozinha no escritório, computador à frente, cercada de livros, dias e dias sem praticamente pôr um pé fora de casa, o coração tranquilo nos domínios de seu castelo imaginário, ela entende que há mais coisas entre o nosso DNA e o de nossos antepassados do que sonha a nossa vã filosofia.

Kamille Viola é jornalista e há muito tempo sonha ser também cronista. É fã de Rubem Braga, Drummond, Carlito Azevedo e Alvaro Costa e Silva, o Marechal. Escreve neste espaço às quartas-feiras. E-mail: kamille.viola@revistavertigem.com

 

 

Imagem: Pexels.com

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