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Do antigo futuro para o novo

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A faculdade de prever o futuro sempre, mais que me seduzir, definiu meu estar neste mundo. Quando tinha 10 anos, imaginava como seria quando eu tivesse doutos e assenhorados 40 anos. Incontáveis vezes, pus-me de frente a oráculos, enfrentando cartas de Tarô, de baralho cigano, de I-Ching, mapas astrais, revoluções solares, sinastrias, alinhamentos energéticos, giras de Umbanda, missas, sessões espíritas. Nunca experimentei uma bola de cristal, o fetiche máximo da louca da previsão. Estranhamente, no entanto, nunca procurei saber se no dia seguinte choveria ou faria sol. Cresci na praia e a praia é um dos seres mais mutáveis que existem e sempre traz surpresas. Já quanto a mim e os que me rodeiam, sempre tive o impulso de me antecipar, sempre quis confirmar ou desmentir as pistas que coletava ou inventava. Um dia, em 2002, não um dia qualquer, mas um daqueles que com um golpe só mudam a sua vida e todas as suas perspectivas (o futuro é uma questão de enxergar), dei de cara com “Sincronicidade” do Jung enquanto buscava uma resposta nos corredores acarpetados da livraria Saraiva para uma fulgurante intuição.

 

 

Abri na página que falava de “Sobre a Intencionalidade Aparente no Destino do Indivíduo” do filósofo alemão Schopenhauer. Esse texto dava conta de uma complexa teoria sobre sua vida ser elaborada pela vontade que está dentro de si. Defendia que o (a) autor(a) da história somos nós. Mas se todos somos autores, todas as vontades estão se chocando e se encontrando numa coreografia perfeita? A autoria é coletiva, algo que a internet viria nos ensinar. Creative Commons cotidiano-filosófico. A teia de atrações e repulsas, perdões e mágoas, esbarrões e belas passadas, ganhos e perdas, urdida por esse caleidoscópio de desejos e pavores que parecemos nunca compreender totalmente. As circunstâncias criadas por nós. A responsabilidade pelos fatos nas nossas mãos. E de novo, como, se também somos meras peças no jogo dos outros e há sempre uns outros maiores que outros? As descrições de acontecimentos sincrônicos, narrativas inteiras em torno de objetos perdidos e reencontrados para ressignificar um episódio, o significado de circunstâncias aparentemente banais, as sensações de recordações de eventos que nunca existiram, a “cisma” com determinadas pessoas que passam pelo nosso caminho e que queremos que se prolonguem ao máximo na nossa companhia, tudo isso estava ali naquele texto mágico. Magia é intenção. Mas o mistério sobre que vontade prevaleceria no final, permaneceria. Se acaso o final da história interessasse tanto assim, claro. No meu caso, sempre interessou. Porque sou escritora e escritores pensam no final antes mesmo de começarem suas histórias. E também porque o que eu busco é a lógica, o tal do fio condutor, a razão maior, aquilo que a tudo engloba, aquilo a que alguns muito corajosos chamam de Deus.

 

Já pensei muito sobre isso (penso nisso quase todos os dias, na verdade) e sei que essa predileção pela investigação do futuro, que acaba sendo uma investigação reflexa do passado, pode ser algumas coisas: a minha obsessão por controle se manifestando, a minha veia literária aplicadíssima num soro de realidade paralela ou fantástica ou presente mas invisível que nutra minha produção artística, a minha educação, que incluiu a exaltação de várias formas de misticismo como uma visão de mundo possível e factível e a minha instintiva conexão com o Cosmos, com o Outro Lado, com o campo magnético, com o The Great Beyond (como eu amo essa expressão!). Pode ser apenas tédio de viver dia após dia sem bússola, sem desvio, sem leme, sem asas, sem movimento ou como se não houvesse uma história sendo escrita/contada, de fato. Mas sou eu quem busco o movimento ou ele que me busca? Como minha vida muda muito, muito rápido e com muita frequência, eu estou sempre buscando é entender para onde o vento está soprando, consciente de que eu sou apenas uma mola da infinita engrenagem e que preciso estudar todos os elementos à minha volta para me orientar. Preciso, principalmente, estudar meus próprios desejos, já que eles são, muitas vezes, misteriosos para mim. Não consigo simplesmente querer ou não querer. Preciso ir atrás dos motivos, perseguir o motor desses desejos para não ser escravizada por eles. Talvez eu nem me consulte tanto porque preciso saber o que vai acontecer, mas porque preciso compreender o que já está acontecendo. E não que eu vá abordar o infinito agora porque ele jamais cabe e é como uma vertigem. Quanto mais se olha para baixo, mais medo dá. O que nos cabe é olhar para cima sem nos perguntarmos sobre o tamanho do que está sobre, sob e em nós.

 

Minha filha me diz: “acho que no futuro vai ter muito trabalho, computadores, muitas pessoas”. Ela dispara a frase em plena tarde na cozinha, enigmaticamente, do nada. Fico admirada com a coerência do discurso mas pergunto a ela se sabe o que é futuro. Não acredito que à beira dos cinco anos, ela possa saber, mas creio que nesta idade, os mistérios começam a ser tocados. Não à toa, é nessa fase que a memória começa a se formar e o milagre da existência começa a tomar forma para além de um esmaecido esboço descosturado do contexto. Sei, aliás, da responsabilidade que pais têm sobre as lembranças dos seus filhos quando pequenos, sua primeira grande construção nesta estada terrena. Somos nós quem fornecemos as experiências quando o indivíduo ainda não detecta muito bem a sua própria vontade, aquela que vai guiá-lo, segundo Schopenhauer. A memória é, afinal de contas, a baliza da vida. Nós somos nossas memórias. E projeções, já que elas pautam nossas ações no presente quando estamos despertos e alinhados internamente.

Quando tinha a idade de minha filha, vi um anúncio sobre casa própria na televisão e fiquei profundamente marcada por aquilo. Era inconcebível que todas as casas já não fossem próprias. Era absurdo que alguém pudesse não ter seu pedaço de terra. Ouvi a palavra “futuro” naquela anúncio e me dei conta dela pela primeira vez. Era o sinal cabal da grande preocupação adulta com “garantir o futuro”, o que acaba sendo apenas um adiamento da morte. O futuro era uma espécie de sombra que acompanha tudo que se faz, um duplo indecifrável que você passa a vida tentando esquadrinhar antes que ele se a-presente como se assim, o tempo pudesse ser perpetuado indefinidamente sob nossa regência. Quando pensava em “futuro”, pensava num pacote de macarrão, ligava a sonoridade da palavra a um saboroso ‘spaghetti’, uma estranha associação que já sondei em muitos textos vida adentro. Num deles, aventei a hipótese de o futuro ser algo que se come enrolado. Por mais que queiramos a linha reta, da vontade à conquista do objetivo final, a vida se dispõe mesmo é na forma de mapa com uma série de rotas possíveis. No Brasyl, o futuro tem um valor ainda mais mitológico e definitivo. Não só porque o próprio país é eternamente o “país do futuro”, um devir que se perde nas mil possibilidades de seu presente já descrito tantas vezes como preguiçoso, disperso e sonhador, mas porque no Brasyl, “o futuro a Deus pertence”, no dito popular. Isto é, aqui, o indivíduo comanda menos a sua vida, já que sua vontade está sujeita ao controle de uma parcela ínfima da sociedade, nem um pouco a fim de zelar pelo bom funcionamento da homeostase coletiva. Aqui, não dá pra planejar, você liga o rádio, a internet, a TV e blá-blá.

 

Então, minha filha vira-se para mim e diz que não sabe o que é futuro. “Futuro é o que ainda vai acontecer, é amanhã e depois de amanhã e depois”, arrisco. “Então, o futuro não existe?”, ela me pergunta com os olhos saltando das órbitas, espantada, assombrada, inteligente. Bela conclusão. “Existe como ideia, minha filha, não como fato. E quando chegar o dia de amanhã, ele já não será futuro mais, ele será presente”, filosofo diante da pobre criança. “É, o futuro não existe nunca”, ela persiste. Ela tem razão. Imagino que minha vida poderia transcorrer sem esta pré-ocupação do futuro, como se hoje nunca estivesse ‘quite right’. O futuro precisa estar direito? Talvez admitir o futuro falho seja uma subversão que realmente valha a pena na minha vida de subversões. Não perseguir o melhor dos futuros, mas me especializar em fazer o melhor dos presentes. Uma das questões, no entanto, é que muitos estão ausentes na minha vida.

 

Quando chega essa hora, é impossível não pensar nos muitos “especialistas em felicidade” que glorificam o ‘carpe diem’, defendendo que o tempo foge e que a vida é feita apenas de uma sequência de hojes (e pensar que hoje não admite plural, e que essa é outra subversão, provoca arrepios). Foco no presente virou antídoto para a ansiedade de um tempo em que o futuro chega antes do passado, quase. O “museu de grandes novidades” de Cazuza, que teria feito 58 anos anteontem, tivesse ele tido um futuro mais comprido, poderia ser o epíteto da nossa deusa internet, o oráculo mais acessado pela humanidade, onde a história está sendo escrita a tantas mãos simultaneamente que não há mais bíblias nem manuais de instruções nem Constituições nem declarações de direitos de coisa alguma com a mesma validade de antes, quando a maioria passava longe de produzir conteúdo e dar sua opinião. Cazuza teria previsto o futuro?

 

É sempre muito tênue e perigoso o limite entre o entendimento de que uma previsão se concretizou e o entendimento do que se disse como uma previsão em si. É como se o futuro sempre confirmasse o passado, não importando o que foi pretensamente revelado antes de a coisa tomar corpo. Ou como se qualquer dito anterior fosse aplicável à ratificação da revelação posterior. Talvez a noção de previsão seja ainda mais ideia que o próprio conceito de futuro. Talvez isso tudo diga respeito à questão sobre o tempo ser uma coisa só, presente, passado e futuro unificados. Meu bisavô, que foi um modernista da classe de 22, aquele movimento que ousou no Brasyl do perpétuo atraso atingir o futuro com a flecha da palavra e da arte, uma ideia de nação da ordem multicor multiforme que nunca vingou, e que preferiu progredir (tusso) sob sombrios ocres e chumbos, dizia que o tempo nada mais era que uma fórmula matemática especiosa.

 

Mas, pensando bem, o futuro existe sim, porque a vontade de estar nele é a única força que afirma o presente. “No future, no future”, vociferava Johnny Rotten à frente dos Sex Pistols e diante da sociedade inglesa das oportunidades perdidas, no final dos anos 70, porque quando o passado é um monte de ruínas e escombros pondo o sentido abaixo, não é possível antever qualquer coisa para além da bruma da confusão ou do pó da demolição. Penso na carta do rapaz suicida que sofria com Síndrome do Pânico e que circulou por muitas ‘timelines’ estes dias, como um lembrete de que a vida pode ser, ao mesmo tempo, uma escolha e não-escolha. A ansiedade é a faceta mais cruel da necessidade de controle e o suicídio pode ser visto como a única saída para quem não consegue esperar pelo final. Ou o suicídio pode ser encarado como a expressão máxima do fim da vontade. Schopenhauer decreta a falência do indivíduo desistente: quem não tem vontade morto está. Mas teria sido da vontade do indivíduo que sua vontade falisse?

 

Ontem, num bate-bola papo reto com meu irmão de trema, Löis Lancaster, lendário líder da banda underground carioca Zumbi do Mato, instrumentista virtuose, compositor lóki, letrista-narrador das neuroses, falamos de como o Brasyl foi dominado pela ideologia do “eficiente emocional”. Eu não posso nem devo dizer melhor que a letra de Lancaster, que desfia um delírio de certezas sobre o certo, pregando o conservadorismo da não-vontade: “bebo e não passo mal/ não mexe, senão estraga/ está tudo ótimo comigo!/ eu estou sempre relaxado/ gasto tudo com guloseimas e nunca acho que estou gordo/ todo mundo tem medo de brigar comigo porque sabem que eu nunca vou morrer/ cheiro e nunca matei minha vó/ a sua inveja é a velocidade do meu sucesso”. E a personagem exclama ao final: “eu sou o futuro do Brasil!” Teria Löis previsto a pasmaceira ideológica que corroeria o país, infestado de sujeitos acomodados em pequenos privilégios que acham que qualquer ser problemático é um pusilânime sem valor? De sujeitos que querem que “tudo mude” mas que não dão um passo sequer para fora das suas vidas em prisões monitoradas pela tríplice aliança família-estado-igreja? De sujeitos que menosprezam as dificuldades dos outros e que precisam dos circos de suas redes sociais em que posam de riquinhos honra ao mérito, sorrindo viscosamente com suas parafernálias importadas num ‘still’ eterno que não pode ser ameaçado pela melancolia? Pareceu-me que Löis conseguiu delinear o tipo que definiria estes nossos tempos. Então, ele me apresentou a uma canção ainda mais visionária, que se chama mui apropriadamente, “Aprenda História com Zumbi do Mato”, em que a zorra total em que se transformou o país é inteiramente decantada com 12 anos de antecedência. O título é autoexplicativo. Entender História leva à capacidade de predizer o futuro.

 

No meio da conversa, Löis aponta o mito de Cassandra pra mim e ao lê-lo novamente, com a atenção dirigida pelas prioridades e compreensões de hoje, tenho a epifania de que Cassandra marca a desconfiança da tal capacidade de predizer o futuro como um dos alicerces da cultura machista. A intuição como atributo da psique feminina, menos moldada pelo número e mais afeita a dialogar com o entorno e com a chama interna, e mais sensível à coletividade, portanto, vira maldição pelos desígnios de Apolo. E por quê? Porque Cassandra recusou-se a dormir com ele, ora. O bonitão não podia ser esnobado, então lançou a praga. Cassandra preveria tudo, não erraria, mas ninguém poria fé nela e em suas previsões. Em suma, ninguém vai acreditar numa mulher que escolhe com quem dorme. Uma mulher que prediz o futuro também é uma mulher atenta à História e o cruzamento de sensibilidade com razão pode ser muito prejudicial a um sistema masculino baseado na força bruta.

 

Minha epifania, eu descubro via Sofia Soter, autora do texto “Para sempre Cassandra: o mito da histeria feminina”, publicado na revista Capitolina, há quase exatamente um ano, é compartilhada pela psicóloga Laurie Layton Schapira, que em 1988, escreveu sobre o “Complexo de Cassandra”. “O sofrimento das mulheres que, desmerecidas em seus sentimentos e atos simplesmente por serem mulheres, e consequentemente percebidas como ‘irracionais’ e ‘histéricas, não encontram apoio e são desacreditadas quando contam acontecimentos reais pelos quais passaram, ou sintomas que de fato sentem”. É a “patologização de reações emocionais naturais”. O texto segue com “É curioso perceber, também, que as mesmas emoções, quando demonstradas por homens, são percebidas de outra forma”. Os homens sempre têm uma razão. Seus sintomas de transtorno são mais levados a sério e eles definem no que a sociedade deve acreditar. Qualquer semelhança com o caso da matéria da IstoÉ sobre supostas descompensadas emocionais de Dilma Roussef não é histérica coincidência.

 

Depois de percorrer minha memória de todos os futuros mais expressivos já projetados, planejados e sonhados por mim, dentro desta lógica feminina, que passa longe de um jogo falacioso de adivinhação, fui dar uma pesquisada no “futuro” nos meus poemas. Como ele se comporta, como ele se coloca, onde ele está presente (com trocadilho). A palavra ‘vate’, em latim, já serviu para designar os poetas, pois o poeta também já foi tido como um adivinho, surrupiando o dom dos deuses. Vejamos algumas das menções ao futuro na minha poesia: “ouve o futuro que vem cavalgando/ lento e sussurrante”; “céu de chumbo/ certezas ruindo/ o que já foi, fugindo/ um presente sem futuro”; “o futuro que não mente/ logo ali, logo ali trocando de turno”; “montanha infusão de fumaça passa o futuro por este chão que já foi liso passa o cupim pelo livro já lido”; “se memória acaba/ acaba o futuro”. O futuro tem sido o mais terno companheiro dos meus dias. Pois, quando o presente nega alegrias, quando o coletivo urra e sangra por verdade e justiça, quando o presente reitera alegorias rotas, quando um país compraz-se em escandalizar, quando as instituições vandalizam nossas vidas, quando gastar 100 reais na banca dói e quando a banca quebra por falta de bancada que banque o avanço, quando as capas das revistas e os miolos também agridem a inteligência, resta mirar o futuro. Nós vamos levar o barco até o outro lado, sim, e inventaremos o cais e nos lançaremos, mas por ora, o exercício da imaginação é também o exercício da interpretação. Desolador, entretanto, que quando haja tanta mentira e hipocrisia, a interpretação forje um futuro que como cantou Cazuza, só faz “repetir o passado”. O futuro como reprise, ou melhor, como ‘remake’ com novos atores e cenário atualizado, é tudo que não queremos assistir. Por isso, dispensemos os fatos forjados e as consequentes interpretações tolas (todas) e escancaremos nossas almas que despencam no turbilhão do presente. O que não pode é como em “O Carimbador Maluco” de “Plunct Plact Zum”, “não ir a lugar nenhum”. Nosso futuro não pode mais depender de um carimbo.

 

L.A. é um caleidoscópio: escritora, poeta, jornalista, agitadora cultural, curadora, DJ, artista visual, decoradora, ocultista, mãe, geminiana e o que mais não couber em duas linhas. Escreve neste espaço às terças-feiras. E-mail: leilah.accioly@revistavertigem.com 

 

Imagem: Frederick Sandys, Cassandra, c. 1895

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