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Um perfume para a sororidade

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Há algumas semanas, uma desastrosa chuva levou de algumas mulheres, em São Gonçalo, tudo que elas tinham. Um grupo feminino online uniu-se para arrecadar fundos de ajuda. Muitas mulheres desse grupo não se conhecem ao vivo, apenas virtualmente, nunca se abraçaram, nunca sentiram os cheiros umas das outras, tampouco se olharam nos olhos.

 

A internet trouxe esta possibilidade de conhecermos mulheres do mundo todo e nos colocarmos em rede, dividirmos nossos anseios, medos, abusos que sofremos. Esses grupos organizam encontros ao vivo para que mulheres possam se olhar nos olhos e se abraçar, sentir o cheiro e a essência umas das outras.

 

Como historiadora, fico imaginando como grupos de mulheres já se ajudaram e foram cúmplices em tantas situações no passado, fosse em guerras, campos de concentração ou em conventos e, hoje, nos abusos, dores e lamentos que dividimos pelos meios digitais e nas rodas de cura e pequenos eventos que promovemos, com o fito de tentar nos acolher umas às outras.

 

Já vi grupo que acolheu mulher que apanhava do marido, que acolheu a moça com câncer, acolheu as dúvidas cotidianas. Mas, infelizmente, nem sempre é assim. O mundo patriarcal, algumas instituições religiosas e paradigmas “científicos” nos fizeram acreditar que somos inimigas, que vivemos em disputa, que temos ataques histéricos e que somos loucas. Colocarmo-nos em rede, ouvirmos verdadeiramente a outra e, principalmente, nos darmos as mãos, é uma forma de sororidade, de ser soror com a outra, irmã. Todas as filhas de Gaia são irmãs.

 

Apesar de eu trabalhar com flores e viver imersa em frascos perfumados, vejo sororidade como um ato político, sinto meu sagrado feminino como algo social, e assim é toda vez que apoio uma moradora de rua ou que ajudo mulheres em condições de risco físico ou psicológico. Sagrado feminino, para mim, é a minha amiga que, em uma tarde qualquer, parou tudo que estava fazendo para ajudar uma mulher que apanhou de um homem na rua, passou a tarde com ela na delegacia e ofereceu o seu ombro para uma irmã que nunca havia visto.

 

Sagrado feminino, para mim, tem aroma de camomila, com seus caules e flores, sendo embalados no final de uma tarde ensolarada. Assim como um rio de Oxum e um mar de ondas calmas em uma manhã de verão, assim é a camomila, assim é a sororidade, ou, pelo menos, a forma como eu a vivo: é um acreditar nas mãos, nos pés, no ventre e na força da outra, quando ela mesma já não acredita mais! O sagrado feminino age em rede, liga um útero ao outro, uma flor à outra, todas se dão as mãos, trocam seus formatos, sentem e cheiram as suas cores e caminham unidas curando a Terra e a si mesmas.

 

Camomila, com seu nome científico, Matricaria, que lembra tanto a palavra Matriarca, vem embalar cada mulher e cada grupo feminino que se forma, a calma dela não é de passividade, mas de pacificidade, a fim de ter clareza e agir com sabedoria. Seu embalo é de acolhimento, não para dormir, mas para lembrar-se de quem se é, lembrar-se da essência, da força sagrada da qual fazemos parte. Não há um manual do que seja essa tal sororidade ou sagrado feminino. Para mim, é como digital e cheiro de corpo: cada uma acha a sua forma de ser esse estado do feminino. Somos geradoras, não só de bebês, mas de criatividade pulsante, de esperança, formas, sabores, cores e prosperidade que fazem a Terra pulsar.

 

Minha sororidade tem perfume de camomila, minha essência é de abraço e acolhimento, sou pisciana. Há também uma parte selvagem que tece a minha sombra junto a Baba Yaga, debaixo de uma árvore anciã que me revela muitos segredos, essa parte minha é voraz, visceral, e vai à luta, é política, social e grita quando é necessário gritar. Porém, todas estas minhas partes andam juntas, de mãos dadas, a menina de Oyá, a feiticeira Iá Mi Oxorongá, a doce camomila e a força shákti, que levanta-me todas as manhãs. Com o tempo, você aprende que todos os arquétipos da deusa são facetas de uma força feminina só.

 

A minha, às vezes, exala camomila, em outros momentos, cheira a jasmim. Tem dias que Baba Yaga toma conta, e o aroma do vetiver sobe das profundezas da terra e invade a minha alma, transformando-a em um animal vívido, pulsante e lutador. Há tempos em que preciso ser implacável como Durga e encher minha vida de capim-limão e, há tempos em que estou tão guerreira que necessito fazer contato com a baunilha e os ventres de Afrodite. As flores de laranjeira de Oxum ressignificam as minhas lágrimas, e a alfazema de Iemanjá coloca meu barco novamente no mar, para que, com calma, eu volte a navegar no desconhecido que é a vida. Assim, no exalar de cada nota perfumada, de cada mulher que conheço, eu vivo plenamente.

 

E você? Qual o perfume do seu sagrado feminino? Qual o aroma da sua essência?

 

Palmira Margarida é historiadora e pesquisa a história dos cheiros, é a pisciana mais ariana de que se tem conhecimento. Descende de italianos e adora uma massa, mas fala sem gesticular. Ama viajar e captar os aromas das trilhas, das culturas e das ideias. Está em busca do profundo perfume do Ser. Escreve neste espaço às quintas-feiras. E-mail: margaridalquimia@gmail.com

 

Imagem: ‘Old-fashioned Krishna’.

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