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Sabe?

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(Baseado em fatos reais/pessoais)

 

Estou para lhe dizer, amiga dona de casa, que nesse mundo poucas pessoas têm tanta certeza na vida como uma grávida. É uma coisa maravilhosa/assustadora. A grávida sabe tudo. Sabe o que é melhor comer, o que não pode, qual remédio pode tomar (nenhum que de fato funcione…). Sabe quanto de álcool tá liberado pra ela, quanto é OK engordar, quanto a criança tem que engordar dentro da barriga. Sabe todas as siglas do mundo e até aprende a contar semanas, o que deixa a não grávida tensa, porque essa conta não tem pé nem cabeça.

 

A grávida sabe tanta coisa, que ela não pode ver outra grávida, menos grávida que ela, que já quer entregar apostila de graduação em gravidez. E quer provar que o médico dela é quem entende do riscado. E se o seu médico não te deu a mesma vitamina que o dela… sei não… ela vai te passar o telefone dele, só por garantia.

 

A grávida empenhada lê livros que ensinam a ser grávida (esses eu nunca li, graças à deusa, mas ganhei) e vira expert em tipos de parto, pós-parto, amamentação, pega, conexão mãe e filho. Ela tem certeza de que o filho vai dormir bem, comer bem, ser calmo. Afinal, ele não terá razão pra chorar por nada, pois ela já leu que é tranquilo entender quando a criança tá com fome/frio/sono/*manha*. Ela vai pro parto seguríssima. Ela se informou sobre tudo. Até que nasceu a criança e, junto com ela, a mãe. Aí, meio que fudeu…

 

A fonte inesgotável de conhecimento (leia-se: seu médico) já não resolve muita coisa, porque ele é médico de grávida, não de neném. E a mãe sai pesquisando pediatras, conduta, filosofias. Ela entra em grupos de mães no Facebook e tem vontade de matar todas, porque existem outras 84 siglas para ser referir ao filho, ao período, ao comportamento, e ela não entende nenhuma. Ela vê pessoas muito felizes fazendo sopa de quinoa pros filhos e ela pensa que nunca na vida imaginou que teria que aprender a cozinhar quinoa.

 

A mãe está, na maioria do tempo, esgotada. Ninguém lembrou de mencionar essa parte nos livros de grávida… Mas a mãe ganhou outro livro, que ensina a não enlouquecer, escrito por uma senhora que se autointitula “encantadora de bebês”. Tem que funcionar! E a mãe aprende que frustração pode ser uma constante — um dia escreverei sobre esse livro e por que ele me foi tão traumatizante.

 

A grávida e a mãe são separadas por algumas horas e um abismo. A única certeza da mãe é que ela não sabe quase nada.

 

Leticia Lamas é jornalista e mãe de dois. Escreve neste espaço às sextas-feiras. E-mail: lamasleticia@gmail.com

 

Imagem: Josh Willink/Pexels.com

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