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#somostodasescravas

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É poética a roupa girando dentro da máquina de lavar ou “mánica” como diz a minha filhinha. “She’s a maniac, maniac on the floor”, sempre penso quando ela comete essa inversão vocabular. Ela é a maníaca, maníaca da limpeza! Experimente cantar. Quase cabe na métrica desse clássico dos anos 80 que ainda faz muitos pezinhos saltitarem na pista em ritmo “alucicrazy”. Ah, as alucinações da máquina maníaca de lavar roupa. Como era antes de ela existir? E como esta máquina já um pouco rateada, pedindo pra tirar umas férias (os aparelhos não podem ter benefícios?), que às vezes, despeja excesso de sabão pelo chão, assim, meio que espumando de raiva (“já é a terceira vez que você me liga hoje, minha filha! E ainda quer que não reclame??”, esbraveja ela, me encarando com um olho só, quase que um terceiro olho expandido que enxerga além do que minha intuição é capaz, mesmo entre as calcinhas e uniformes de colégio que rodopiam em sua órbita lustrosa) pode se sentir abraçada e congratulada por mim, mesmo que em vários momentos despreze a importância de aproveitar todo o amaciante dispensado a ela? Pensamentos de área de serviço.

 

(Como viver é inútil!)

 

A área de serviço até três semanas atrás era frequentada somente pela minha empregada doméstica, mas nós combinamos que não dava mais pra nenhuma de nós duas e ela se foi. Não a chamo de secretária, não suavizo nada, não sou de eu-femismos. Pois, o emprego é doméstico e a ele deve ser dado esse título. Você acha pouco? A vida doméstica é das tarefas mais complexas que o ser humano já encarou. Até hoje, nós não inventamos uma forma simples e leve de lidar com ela. A vida doméstica suga energia na velocidade de uma máquina maníaca de lavar. “Our work is never over”, cantam os robôs do Daft Punk em ‘autotune’ neurótico enquanto você prega as roupas amarfanhadas mas limpas no varal. Ó Glória a Omo! Lava roupa, pendura roupa, guarda roupa, suja roupa e o ciclo de lavagem e “sujagem” não-automático continua infernizando sua vida ad nauseum. Mas agora, eu pergunto, quem quer lavar a roupa suja da necessidade do emprego doméstico em público?

 

O mundo enquanto bolha da classe média brasyleira parece se dividir em dois polos: os que absolutamente condenam que se tenha empregadas domésticas e os que absolutamente veneram que essa opção exista no Brasyl feudal até hoje. Já conhecemos os argumentos de ambos os lados de cor e salteado. Indivíduos com tendências esquerdistas, ativistas em geral e pessoas que desconhecem a complexidade da manutenção de um lar – sim, viver jogado num conjugado em que a pilha de roupas e louça suja ultrapassa a capacidade de pessoas ocuparem o espaço não dá a devida dimensão, literalmente, do que significa ter trabalho com casa e fica fácil de defender a erradicação da empregada doméstica nesse caso – chamam de exploração, dizem que tem que custar os olhos da cara pra que a maioria não possa ter acesso a esse serviço, argumentam que não é profissão e que não é coisa de país desenvolvido. A visão é de que qualquer mulher com empregada doméstica é madame que fica de pernas pro ar com a vida ganha. Uma visão romântica persistente desde os anos 1950. Não acho que essa facção leve em consideração o que é a vida da mulher de hoje, que trabalha fora, cria filhos e cuida de sua saúde e bem-estar, mas ainda não é hora de falar disso. O outro lado, geralmente composto por uma classe média habituada à naturalidade da presença da empregada no seio do lar, cuidando para que as engrenagens do cotidiano funcionem, quer manter privilégios a todo custo, sem pagar por eles o que a vida no século 21 exige, não querem saber de igualdade, lascam o pau nas vitórias sociais da classe que, hoje, tem direito à carteira assinada e é tratada como se parte de uma empresa com ponto, FGTS, férias remuneradas e hora extra, zombam de esquerdistas que denunciam a dependência doentia do brasyleiro médio de uma babá dos seus cacarecos, de uma pessoa invisível que siga catando as migalhas deixadas, sem o menor cuidado, pelo caminho, por aqueles que banqueteiam indiscriminadamente.

 

Eu me encontro no meio. Pra variar. Fui criada com empregada dormindo em casa de domingo a domingo, daquelas “como se fossem da família”. O modelão classe média abastada quase rica ou muito rica. O brasyleiro tem algum tipo de aspiração de riqueza inalcançável, uma riqueza Walt Disney, de castelos doirados, uma nostalgia da Corte. Onde a Belle Epoque nunca foi tão belle, onde sempre se escondeu a pobreza, a sujeira, a violência, a falha, o desvio, fica imperiosa esta vontade de conquistar a imortalidade por meio do fausto. Um modelo individualista de sociedade, em que a coisa pública por ser de todos não é de ninguém, só pode alimentar este séquito de serviçais para uma família só. No Brasyl, a família talvez seja a instituição mais perniciosa. Seu microcosmos pauta o escopo maior quando deveria ser o contrário. Mas marca maior do que ter tido empregadas tempo integral em casa durante a infância e a adolescência, é a de vir de uma oligarquia que detinha um estado inteiro no Nordeste, praticamente, e que naturalmente, tinha um estilo de vida à moda oligárquica, ora, escravocrata. O governo de meu tetravô, da época quando governadores eram chamados de Presidentes – e isso não faz tanto tempo assim, estamos falando da segunda década do século 20 – foi deposto por revolta popular. Talvez o primeiro e único que tenha sido no Brasyl. Claro que o levante foi industriado pela família que representava a oposição, claro que o povo foi instrumentalizado pelos Rabelo e que os cangaceiros que achavam que estavam fazendo justiça quando atearam fogo ao casarão dos Accioly e saíram saqueando suas régias joias, estavam apenas sendo bucha de canhão para trocar seis por meia dúzia. Mas nada disso importa neste contexto. O que importa é que a minha bisavó teve mucamas e assim como ser bisneta de escravos marca alguém, ser bisneta de quem escravizou, também. Principalmente num momento em que o país de maior-visibilidade-mundial-mais-maltratado-da-história-por-sua-elite vive uma encruzilhada sociopolítica entre um populismo de conquistas reais e outros tantos atrasos e emulações mascaradas de padrões decadentes de negociação e representação, e a manutenção das caquéticas oligarquias disfarçadas pelo ímpeto heróico, higienizador e progressista. Claro que a militância radical vai dizer que não, que bisneta de manda-chuva escravocrata não sofre como bisneta de escravo. Não sofre se não carrega culpa pelo que seus antepassados fizeram. Eu carrego. Mesmo sabendo que meus antepassados (não exatamente os meus, aqui trata-se de licença poética) estão vivos e atravancando o processo democrático e impedindo que o poder emane do povo. Mesmo sabendo que os populares revoltosos não me identificarão jamais como uma deles.

 

Tanta culpa que, quando meu avô me perguntou recentemente, depois que passei quatro anos sem falar com ele, se minha filha tinha “o privilégio de ter uma ama só para ela” (sim, nestes termos), senti um frio na espinha. Era inacreditável, mas ela tinha, mesmo depois de eu ficar desempregada e refém de “freelas” no Brasyl sombrio da crise. Tanta culpa que passou um mês e tive que deixar ir embora aquela que era meu braço direito num dia a dia solitário de labuta em modo “home office” e criação de uma menina pequena. Porque eu labuto como bisneta de escravo. Não me sobrou praticamente nenhum quinhão da terra do desterro (meu tetravô fugiu da revolta popular para o Rio de Janeiro num barco de nome “Desterro”, escrito em alemão), mas eu adoro um palácio cheio de coisas bonitas, o que é bem difícil de cuidar, por mais que seja de bolso. Porque eu não queria ser mais uma que fabrica opiniões convenientes à militância e profere falsos sentimentalismos sobre classes sociais injustiçadas no Facebook, mas mantém pessoas servindo-lhes o dia inteiro e dormindo no quartinho dos fundos.

 

Não importava se a pessoa que me servia e à minha filha tinha carteira assinada e salário pago todo dia 5 do mês. Eu estava sempre me sentindo devedora. Como se estivesse apenas dando um verniz século 21 a uma relação que nunca consegue ser puramente trabalhista como é numa empresa. Mas depois que ela se foi, eu começo a questionar: existe alguma relação puramente trabalhista? A função doméstica é a única que pressupõe uma relação íntima que desagua num conflito de classe? Ou quaisquer pessoas que sejam forçadas a conviver por cerca de 10 horas todos os dias úteis (vejam bem, o fim de semana é inútil) não conseguem, depois de um certo tempo, manter distância emocional umas das outras? É necessário manter esse distanciamento para que o trabalho não seja afetado? E qual o grande problema em se relacionar bem de perto com uma empregada doméstica? Sim, eu dividia meus problemas com ela, eu falava abertamente dos meus dilemas, eu a trouxe para dentro do meu coração e da minha casa, em vez de deixá-la relegada à cozinha. Minha cozinha é século 21, aliás, integrada. Será que não condenamos essa relação que pende entre o tal “pura ou meramente trabalhista”, o que talvez seja mesmo uma fantasia para tolerarmos o trabalho quando somos de estratos sociais mais elevados, e o de “membro da família” ou aquele famigerado “como se fosse” porque inconscientemente não nos autorizamos a ter intimidade e cumplicidade com negras de baixa escolaridade? O que eu estou perguntando é: por que, no Brasyl, não conseguimos tratar o emprego doméstico como uma necessidade legítima, ainda mais para mulheres que não gozam de rede de apoio familiar (meu caso) e que precisam trabalhar e dar conta de seu(s) filho(s) e que sabemos, não têm opções de boas creches mantidas pelo pagamento de seus impostos? Vou me arriscar a responder. Porque consideramos o trabalho doméstico vergonhoso, porque não reconhecemos a importância da mulher para o funcionamento da sociedade, porque temos a sombra da escravidão à nossa espreita e porque nossa elite não consegue evoluir espiritualmente.

 

Vejo que muitas mulheres liquidam a discussão sobre a necessidade de a mulher de classe média ter empregada doméstica dizendo “o marido tem que compartilhar as tarefas, se a cultura machista brasyleira fosse revolucionada e os homens fizessem a sua parte, como na Europa e nos EUA, a mulher aguentaria a jornada dupla, tripla”. Mas eu provoco: e as mães solteiras? E as mães divorciadas? E as mães viúvas? O que elas fazem? Vão viver de solidariedade dos grupos de mulheres que se reúnem cada vez mais, porém, com um detalhe fundamental, apenas digitalmente? Para alguém bater à sua porta e se oferecer para o mutirão, digo que é necessário dar um grito de socorro. A urbe não cultiva a solidariedade e esse movimento de construir uma comunidade consciente, indo contra o individualismo-nuclear-familiar brasyleiro, é muito recente e incipiente.

 

Também vejo uma certa avenida para a hipocrisia sendo aberta por algumas mulheres para as quais parece que o emprego doméstico ‘full time’ é a grande questão. Ele é o grande vilão, ele é o recriminado e condenado. Então, o problema é a frequência do serviço? Quer dizer que, se a sua faxineira trabalha cinco dias por semana sob péssimas condições, sem carteira assinada, inclusive, mas você não a vê dentro da sua casa todo dia, mas sim, apenas uma vez por semana, o problema fica tolerável? Ouvi de muita gente que abrir mão até de uma diarista com a casa e a carga de trabalho que eu tenho, além de uma filha, seria uma temeridade. Está sendo, de fato. Depois de três semanas, estou exausta, não consigo comer, não dou conta de mais nenhuma das minhas funções a contento e me arrasto pelos cantos sem energia pra coisa alguma. Mas aí, eu pergunto por que empregada doméstica todo dia não pode mas diarista é um lance bem aceito? O que é mais capcioso nisso é que uma diarista pode chegar a fazer três mil reais na zona sul do Rio de Janeiro, mas sem benefício algum porque eu não conheço ninguém que assine carteira de diarista. Mas uma empregada doméstica, por ter a “garantia” de uma carteira assinada, e estar fixa numa residência, considerando que essa residência equivaleria a contrato de exclusividade com uma empresa, ou seja, não ser uma funcionária terceirizada, ganha, em média, 1500 reais, ou seja, a metade. Só que essa lógica é a que rege todo o sistema trabalhista brasyleiro, especialmente quando se trata do sexo feminino, sem distinção entre pobres e classe(s) média(s) (acho que vale aplicar um plural à classe média brasyleira). Qualquer mulher que seja “freelancer” no Brasyl, ainda mais na área cultural, sabe que pode vir a ganhar mais nessa condição que numa empresa, além de ter mais mobilidade e independência na sua atuação, tal qual uma mulher que desempenhe serviços domésticos, mas igualmente sem garantias e benefícios trabalhistas. Então, no fim das contas, o maior problema de todos, mesmo, é ser mulher no Brasyl.

 

O Brasyl é esta história de decadência de um modelo de poder, que aqui se faz sentir com as vísceras expostas, mas que carcome outras sociedades por aí, mais vistosas, mais hábeis para a propaganda e com uma distribuição de renda um tanto menos injusta. Sim, eu estou falando dos Estados Unidos da América, o país no qual o Brasyl tem fissura em se espelhar. Muitos brasyleiros adoram dizer que temos que fazer como nos EUA, onde não há empregada doméstica. É mentira. Não há para solteiros sem filhos nas grandes cidades, que podem equipar muito bem os seus práticos e pequenos apartamentos e que contratam empresas de serviços domésticos, que me parece, por vezes, ser uma das saídas práticas para eliminar o ranço da escravidão no Brasyl. Mas para as famílias tanto dos grandes centros quanto dos ‘outskirts’ e cidades do interior? As latinas, geralmente, estão lá, fazendo o serviço doméstico. Ou as mulheres não estão trabalhando para fora, e vivendo para suas casas, maridos e filhos. A equação mulher sem ajuda, que produz bens, serviços ou conhecimento para a sociedade, tem filho, não tem marido e que se vira sem empregada doméstica por dia algum, simplesmente, é inviável. Lembro de uma amiga me dizer quando optei por colocar minha filha na escola por tempo integral e prescindir da empregada, “observe primeiro as suas necessidades, antes de pensar em termos do que é mais justo socialmente porque você vai se arrebentar inteira”. Pois é. A verdade é que no Brasyl, #somostodosescravos e ainda mais, #somostodasescravas, entendendo a definição de escravo como alguém incapaz de construir algo próprio, seja uma casa, seja uma carreira, seja sua própria vida. Quando este país atingirá a tão sonhada maturidade, livre de sombras de crime e castigo? Quando seremos um país livre, afinal? Lamento constatar que parece estarmos cada vez mais longe disso.

 

L.A. é um caleidoscópio: escritora, poeta, jornalista, agitadora cultural, curadora, DJ, artista visual, decoradora, ocultista, mãe, geminiana e o que mais não couber em duas linhas. Escreve neste espaço às terças-feiras. E-mail: leilah.accioly@revistavertigem.com 

Imagem: www.pattersonplumbing.com

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