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Ah, faça­-me o favor!

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Daí que esta semana me deparei com um texto todo emocionante que mandava as pessoas terem filho. Não sei se é texto velho, desses que de repente e sem explicação são ressuscitados pela Dona Internet, mas um bom tanto de gente que aparece nas minhas redes sociais andou curtindo, comentando, compartilhando, até que ele aparecesse pra mim. Bom, o que importa é que a moça manda as pessoas terem filho. Ou melhor, filhoS. Então tive que ler, porque, né…? Já que estou, nas palavras dela, fazendo um favor a mim mesma e à sociedade, deixa eu me inteirar do porquê.

Basicamente, filho é uma coisa mágica, que faz você comer melhor, separar o lixo, trabalhar com mais afinco, rezar, deixar de ser consumista, usar cinto de segurança (oi?). Mas, gente… Olha, não é por nada, mas as pessoas não deveriam fazer essas coisas independentemente de ter filho? Quer dizer… eu conheço UM MONTE de gente que faz isso tudo e não tem filho. E aí, são mutantes? E também conheço gente que tem filho e não preenche a lista da moça. Como lidar? Eu mesma tenho dois filhos e comia igual a uma louca/alucinada/refugiada até outro dia e, pasme, não foi exatamente por causa deles que eu mudei isso (pode me chamar de louca, mas tenho mesmo a impressão de que alguém achava que eu era uma mãe mais maneira quando tinha sempre um biscoitinho à mão, em vez de castanhas).

Não seria meio “pesado” criar essa expectativa toda pra quando o filho nasce? Poxa, você tem que se preocupar com TANTA coisa… sei lá… Fora que, né, meu bem, tem a realidade junto. Você pode até comer melhor, mas tem comida pela casa, pela sua roupa, pela roupa da criança… Você separa o lixo, mas seu filho pode achar divertido separá-­lo pelos cômodos da sua casa. Você trabalha com mais afinco, mas tem que aguentar cara feia de chefe quando é obrigada a largar o trabalho pra buscar o filho com febre na escola. Você deixa de ser consumista porque TU­DO que é de criança está pela hora da morte, amiga. E você reza porque é o que resta.

Acho muito irreal isso de “fazer um favor à sociedade”. O que tem que te tornar uma pessoa melhor é a sua consciência, não? Você não precisa ter filho pra usar cinto de segurança, pra ser uma pessoa prudente. NÉ? Além do mais, nunca, nunquinha na minha vida eu desejaria que alguém passasse por uma cena de birra em local público para aprender que a melhor maneira de educar é pelo amor. Até porque, colega, você tem que ser muito iluminada pra praticar isso no momento do show.

A parte do inexplicável até concordo, porque realmente é muito louco isso de se reconhecer num outro ser humano, é muito gostoso cheirar criança, ganhar abracinhos etc. Filho é muito bom, sempre disse, mas também não é perfeito. E não faz de você essa pessoa perfeita que essa moça insiste em dizer. Filho, por exemplo, te deixa a semana toda por conta de uma tosse com febre inacabável, que culmina com uma tarde inteira no hospital, pós­-consulta de médico terrorista que diz que provavelmente você não vai sair do hospital naquele dia. Daí você atrasa seu texto e publica sua coluna no dia seguinte. Agora, já pensou se você não tem a sorte de escrever pra Vertigem?

Ninguém precisa ter filho pra ser consciente, cidadão etc. Eu acho até que o ideal seria que a gente fosse tudo isso antes de ter filho, afinal, a gente vai criá-­los, não? Então, se você quer ser tudo isso, apenas seja. Mas filhos você pode ter só se você quiser.

Leticia Lamas é jornalista e mãe de dois. Escreve neste espaço às sextas-feiras. Para trabalhos em jornalismo e de texto, entre em contato pelo e-mail: leticia.lamas@revistavertigem.com

 

Imagem: obviousmag.org

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