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Belas, lunáticas e da Terra

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A lua está cheia, eu não sou astróloga, mas andei lendo vários textos de boas astrólogas por aí sobre essa lua. Escutei, atentamente, amigas contando os saberes femininos de suas ancestrais e a ligação deles com o satélite cor de prata. Como historiadora, tive a oportunidade de ter muitas informações sobre o culto à lua em várias culturas. No entanto, nada que mostrasse nem, muito menos, que se aprofundasse na ligação dela com o sagrado feminino, com nossos corpos de mulher e as analogias primárias deles com os signos e símbolos da natureza.

Cabe lembrar aqui que, até o momento, a História como cátedra, a oficial, é escrita por homens ou analisada através de uma visão patriarcal.  De fato, seja por coincidência, sincronicidade ou, simplesmente, um chamado do sagrado feminino, essa interligação sensorial maravilhosa entre todas as mulheres, minha semana foi invadida por sabedorias lunares de minhas irmãs.

Ouvi, atenta, excitada, sobre as avós de minha amiga, uma mulher negra maravilhosa e empoderada do candomblé, que presenteou-me com uma visão saborosamente profunda sobre algumas deusas de sua religião e a lua. O que ela fez por mim nenhuma faculdade de História do mundo vai oferecer. Imaginei as mais belas cenas, junto à doce voz de outra irmã, ao ouvir como a água que limpava os panos menstruais de suas avós ia parar nas plantas, nutrindo-as.

Junto a todas essas informações chegando a mim, em alguns dias, a Baba Yaga adormecida no meu ser foi-me revelando partes dessas sabedorias que estavam estocadas no meu âmago, pulsando em cada víscera e prontas para serem despertas.

Lembrei-me da época da graduação, em que morava em uma casa cheia de mulheres, e de como todas menstruavam juntas. Sentia o cheiro da menstruação de todas, era entorpecedor, telúrico e corajoso. Segundo  a pesquisadora Martha McClintock, da Universidade de Chicago, mulheres de um mesmo dormitório apresentam o mesmo ciclo, devido ao suor exalado das suas axilas. Ela coletou esse suor específico de algumas moças e esfregou acima dos lábios de outras, dividindo as mesmas, de dormitórios próximos, em dois grupos. Após essa experiência, a pesquisadora obteve o resultado de ciclos menstruais regulados entre as participantes.

Aqui temos uma explicação fisiológica, porém indaguei-me por que um mulheres que estavam próximas não apenas menstruam juntas, mas também parecem, inconscientemente, escolher a lua em que vão menstruar. A lua na qual menstruamos pode revelar muito sobre nossas dores, memórias, histórias, momentos de nossas vidas e sobre como estamos lidando com eles.

Como escrevia o grande alquimista Paracelso, nós não estamos na natureza, nós somos a natureza! Se as marés, a fotossíntese, a vida das plantas recebem interferência desse pequeno grande astro que é a lua, porque nós, seres humanos, que apresentamos um corpo físico composto também de água, não sofreríamos? E por que nós, mulheres, que, além da água, carregamos em nosso próprio corpo um fractal do macrocosmo dos ciclos da vida, não sofreríamos essa interferência?

Perceba-se! Sinta como é menstruar em uma lua cheia e em uma lua nova. Veja que com a proximidade de uma lua cheia a sua menstruação é “puxada” para a Terra. Conversem, troquem, afinal, somos todas belas, lunáticas e da Terra!

Palmira Margarida é historiadora e pesquisa a história dos cheiros, é a pisciana mais ariana de que se tem conhecimento. Descende de italianos e adora uma massa, mas fala sem gesticular. Ama viajar e captar os aromas das trilhas, das culturas e das ideias. Está em busca do profundo perfume do Ser. Escreve neste espaço às quintas-feiras. Para saber mais sobre atendimentos e produtos com aromas naturais: palmira.margarida@revistavertigem.com

 

Imagem: Pexels.com

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