cult

As Bahias e a Cozinha Mineira faz primeiro show no Rio

0 Flares 0 Flares ×

Na faculdade de História da USP, duas alunas eram conhecidas pelo mesmo apelido: Bahia. Assucena Assucena nasceu em Vitória da Conquista (BA). Já Raquel Virgínia é de São Paulo, mas tinha vivido em Salvador. Junto do colega Rafael Acerbi Pereira, mineiro, criaram um grupo em homenagem a Amy Winehouse, que já flertava com a música brasileira. Mas foi depois que as vocalistas caíram de amores pela obra de Gal Costa que eles formaram o grupo As Bahias e a Cozinha Mineira, que se apresenta pela primeira vez, no Rio de Janeiro neste sábado, no Solar de Botafogo, com participação de Ava Rocha.

O repertório é do disco ‘Mulher’, produzido por Deivid Santos e lançado em novembro do ano passado. Tanto Assucena como Raquel são transexuais, e a temática do disco é toda em torno do feminino. A Vertigem entrevistou Assucena e Rafael, que contam um pouco da trajetória do atual momento da banda.

No show de hoje, As Bahias e a Cozinha Mineira apresenta releituras de músicas como “A Preta do Acarajé”, de Dorival Caymmi, “Vaca Profana” e “Mamãe Coragem”, de Caetano Veloso, e “Fé Cega, Faca Amolada”, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos. Além de Raquel Virgínia (intérprete e compositora), Assucena Assucena (intérprete e compositora) e Rafael Acerbi (arranjador e guitarrista), o grupo é formado por Rob Ashtoffen (baixista), Carlos Eduardo Samuel (tecladista), Vitor Coimbra (baterista) e Danilo Moura (percussionista). 

Vertigem: Quando pensaram no disco ‘Mulher’, que conceito veio em mente? Qual era a ideia?
Assucena Assucena: Veio à mente a força, a resistência, o lirismo, a História. A ideia foi criar um disco que semiologicamente atravessasse os substantivos femininos, os signos Mulher, a água, a terra, a fumaça, a melancolia, a comida. Buscamos a compreensão de uma obra que jogaria com o universo de sentimento proposto de forma lírica.

Qual o critério para a escolha das músicas do repertório? O que permeou essa escolha?
Assucena Assucena: O critério foi encontrar uma narrativa coerente com a História, com o processo de modernização do Brasil, do rural para o urbano, e que sonoramente expressasse nossa musicalidade como paisagem. A primeira canção composta foi “Apologia às Virgens Mães”, uma canção universalizante, questionadora do status quo, que joga com o sagrado e o profano, com os elementos do cotidiano como a feira, o bordado ponto de cruz, a sacola, o feijão, mas, se a primeira canção se propõe universal, a que se segue, de tão particular tem até nome, “Josefa Maria”, uma canção-ode ao trabalho doméstico, aos significados da retirância da mulher, da vida e do cotidiano. “Josefa Maria” tem em seu nome a sagrada família compilada na imagem de uma mãe solteira, que é a realidade de grande parte das mulheres brasileiras.

Quais as principais influências da banda?
Assucena Assucena: Gal, sem sombra de dúvida foi nosso expoente maior de inspiração, seguida de Caetano, Elza, Bethânia e Amy Winehouse. Nós ouvimos a discografia dela de maneira ritualística, disco a disco, respeitando o tempo de efeito de contemplação da obra. Gal é uma Mestra Grandiosa na elaboração de um disco.

Rafael Acerbi: Outra grande influência do grupo é a musicalidade mineira. O Clube da Esquina, tendo como sua figura maior Milton Nascimento, deixou marcados na história da MPB álbuns clássicos e de muito peso até hoje. Eles nos influenciaram principalmente na questão dos arranjos, na ousadia de propor paisagens sonoras múltiplas, pensando nos protagonismos e detalhes de cada instrumento escolhido para as canções.

Como passaram da admiração mútua por Amy Winehouse, de quem eram fãs, para a influência direta da música brasileira em seu trabalho? Como foi essa transição?
Rafael: Nos idos de 2011 e 2012, formamos uma banda logo após a morte de Amy, chamada Preto por Preto. Ela foi a responsável pelo início da nossa relação musical, tocando em algumas festas na USP com um repertório que a homenageava, mas que também já flertava com Gil, Tim Maia, Elza Soares. Pouco tempo depois, Raquel e Assucena têm um encontro com a obra de Gal Costa, e, a partir daí, passamos a escutar sua discografia assiduamente.  Apesar de nosso disco transitar muito pela música brasileira, as influências de Amy estão ali, como, por exemplo, na cancão “Jaqueta amarela”.

A banda já apareceu em diversos jornais e sites… Como tem sido a apróximação do público? São muito assediados por fãs?
Assucena Assucena: Nosso público ainda é pequeno, porém, é muito respeitoso e consciente das causas pelas quais lutamos. A tietagem acontece, a coisa agora é aprender a lidar com ela (risos).
Rafael: Lancamos nosso disco há apenas cinco meses e, desde lá, viemos colhendo bons frutos deste trabalho. Estamos ainda no processo de formação de público, porém o contato tem sido muito caloroso.

Como veem as polêmicas dentro do próprio feminismo envolvendo mulheres trans?
Assucena Assucena: Todo movimento é heterogêneo, e posso afirmar que a minoria do feminismo nega a identidade de gênero. Acho um absurdo a supervalorização da genitália, da biologia sobre a construção social. A genitália e nosso fisiologia hormonal não podem ocupar os espaços sociais de ação e sobressair à linguagem.

É a primeira apresentação de vocês no Rio?
Rafael: Sim, é nossa estreia no Rio de Janeiro. Para nós, é muito gratificante e inspirador poder trazer nosso show pra cá. Uma cidade que tem em seu currículo alguns dos momentos mais lindos da história da música brasileira!

Como aconteceu a participação da Ava Rocha? Como se conheceram? O que vão cantar juntas?
Assucena Assucena: Nós conhecemos Ava na SIM-SP, Semana Internacional de Música, ela fez um ‘pocket show’ e ficamos maravilhadas com a beleza que aquela proposta alcançava. Ava é uma feiticeira do palco, de uma performance e canto originais, elaboradas belamente e sem rebarbas. Após o show, nos encontramos em uma festa de músicos e trocamos uma ideia, e apresentamos nosso trabalho. Ela gostou muito e, a partir daí, nos mantivemos em contato. Daí, com a estreia no Rio, nós decidimos convidá-la para o show e ela foi uma anfitriã sensacional e aceitou nosso convite, o que pra nós, é uma honra. O que vamos contar é segredo de show (risos).

As Bahias e a Cozinha Mineira no Rio de Janeiro
Participação especial de Ava Rocha
Sábado, dia 7 de maio, às 21h
Solar de Botafogo. Rua General Polidoro, 180 – Botafogo. Tel: 2543-5411
R$ 20 (meia-entrada) e R$ 40

Kamille Viola é jornalista, carioca da Tijuca e uma das editoras da Vertigem. A música e a palavra são duas grandes paixões. E-mail: kamille.viola@revistavertigem.com

 

Imagem: As Bahias e a Cozinha Mineira. Foto de José de Holanda

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Pin It Share 0 0 Flares ×