comp

Costurando um futuro com retalhos do passado

0 Flares 0 Flares ×

Plástico, papel, papelão, vidro, madeira, eletrônicos, tecidos… Cada vez mais e mais toneladas do que antes era apenas lixo são reinseridas na cadeia produtiva e viram matéria-prima, na tentativa de curar as feridas abertas no Planeta Terra. Reciclar e reinventar são as palavras de ordem, hoje. Mas como reaproveitar os resíduos de histórias de vida? Como costurar — a partir dos retalhos de um passado em que ninguém quer colocar as mãos – um futuro que não possa ser rasgado?

A carioca Flavia Cristina dos Santos Dantas, 38 anos, é um exemplo de transformação. Passou de presidiária, condenada por assassinato, a empreendedora. Sem qualquer preconceito, a ONG Tem Quem Queira, da empresária Adriana Gryner, aposta em empregar, no Rio de Janeiro, a mão de obra mais marginalizada que existe: presos em regime fechado e semiaberto. Em três oficinas, transforma lonas usadas na decoração de eventos em produtos exclusivos, como bolsas, porta-iPads, estojos e jogos americanos, entre outros. Cada peça é única, assim como cada vida de quem a produziu.

Flavia foi presa em 2006, aos 29 anos, sob acusação de participar do assassinato do marido, o taxista Ernesto Grinaldi Filho, 44 anos. O corpo foi encontrado dentro do carro dele, no Morro do Santo Amaro, no Catete, junto com outros quatro. “A Justiça dos homens me condenou a 18 anos e 8 meses de prisão pela morte dele”, conta Flavia, que ainda alega inocência e, depois de passar pelas celas de duas delegacias e quatro presídios, foi posta em liberdade monitorada em 2012.

“Eu até hoje não sei foi um assalto no táxi, e mataram ele como queima de arquivo. Eu sinceramente não sei e eu procuro, com esse meu novo caminhar, não me aprofundar nisso. Isso me dói muito. Estávamos separados, tínhamos todos os problemas do mundo, mas ele era meu alicerce. Ele tinha aceitado ficar comigo grávida e registrou meu filho como se fosse dele. Mas a família dele acredita que fui eu que mandei matar, por dinheiro”, conta a mãe de Gabriel, 12 anos hoje.

Sua maior dor ao ser presa foi separar-se do menino, que na época tinha 3 anos. “Meu filho foi criado sem nada. Sem o pai, que era mais pai que o pai biológico, porque escolheu ser pai; sem a mãe, que estava dentro do sistema penitenciário; sem afeto, sem dinheiro, sem ir à escola direito… Ficou com a minha mãe, mas ela é doméstica e precisava deixar ele com alguma pessoa, com vizinhos, e muitas vezes trancado dentro de casa. Então ele cresceu rebelde”, conta.

A partir de 2011, durante quatro anos – dois em regime semiaberto e outros dois na liberdade monitorada -, Flavia trabalhou na Tem Quem Queira. Começou como costureira, na oficina da Rua do Rosário, no Centro do Rio, chegou a cobrir férias de uma gerente e, depois, voltou “para a galera”. Lá, em meio às lonas coloridas e máquinas de costura, começou a ser notada por Alexandre Mota, 41 anos, também ex-detento – de “cadeia paga, sem dever mais nada”.

Ainda interno do presídio Vieira Ferreira Neto, em Niterói, ele começara a cortar lonas para a ONG. Ao sair da cadeia, continuou o trabalho na mesa de corte do espaço no Centro, onde se encantou por Flávia. “Ele queria porque queria ficar comigo! Eu dizia que não tinha condição, que quem gosta de preso é grade! Mas aí consegui entender os planos de Deus para mim. Quando Ele quer, une as pessoas que não têm nada a ver uma com a outra. E com certeza toda mistura que Deus faz dá coisa boa”, conta Flávia, olhando para a filha Valentina, 11 meses, fruto da união com Alexandre, que já dura três anos.

Flavia2
Flavia Cristina dos Santos Dantas trabalhou na ONG. Foto: Fernanda Portugal

Recentemente, já sem dívidas com a Justiça, Flavia pediu “as contas” na Tem Quem Queira, sob os protestos da equipe. Sua meta agora é abrir um negócio próprio, na área de costura. “Quero poder ajudar outras pessoas que tenham problemas. No mundo aqui fora tem gente que precisa muito. São muito carentes de autoestima, de trabalho… São desacreditadas de si mesmas, acham que não podem nada, que nunca vão ser ninguém. Tenho um projeto no papel, mas Deus vai me ajudar a por em prática, a ajudar as pessoas e também a ganhar meu dinheiro e fazer a minha História.”

A Tem Quem Queira é uma empresa social, que capacita a mão de obra e gera renda a partir da produção de peças com design original, feitas com lonas vinílicas de publicidade e ações promocionais. A primeira oficina foi aberta em 2008, no Vieira Ferreira Neto, com detentos em regime fechado. Três anos depois, começaram as atividades da unidade no Centro do Rio, que passou a empregar também detentos beneficiados com a progressão de regime. No mesmo ano, 2011, foi inaugurada a terceira unidade, no Morro do Turano, no Rio Comprido.

As três oficinas produzem cerca de três mil peças por mês, quantidade que retira de circulação mais de 4 mil metros quadrados de lonas. Adriana, que é sócia da agência de eventos corporativos LG, resolveu criar a Tem Quem Queira por sentir-se incomodada com o lixo gerado ao final das convenções, como banners, fundos de palco e outdoors. Segundo ela, o material geralmente era incinerado ou jogado no lixo, levando anos e anos para se decompor.

Em torno de 40 pessoas trabalham na Tem Quem Queira, que já ganhou vários prêmios na área de sustentabilidade. Além das vendas no varejo, empresas fazem encomendas por atacado, para distribuir as peças como brindes. Além da remissão da pena – ou seja, a cada três dias de trabalho, um a menos na prisão –, os funcionários ganham piso salarial, alimentação e transporte.

Em alguns casos, como o de Flávia, também têm assistência psicológica. “Isso me ajudou, e ao meu filho também. Ajudou a ter de volta a minha identidade, a minha autoestima, a minha personalidade. Eu saí do sistema penitenciário com medo do mundo. Ao mesmo tempo em que eu tava com muito ódio e muita raiva dentro de mim, tinha medo de encarar tudo isso e de olhar de frente as pessoas, até mesmo a minha família. O que iriam pensar de mim? Eu precisei muito dessa ajuda”, conta.

Gabriel tinha 9 anos quando a mãe reassumiu seu papel perto dele. “Foi muito difícil. Ele aceitava meu carinho, mas não os limites que eu tinha que impor, a educação, a autoridade de mãe.” O menino, hoje dócil e carinhoso, passou boa parte de seu tempo, quando saía da escola, com a mãe na Tem Quem Queira. “Cansou de fazer dever de casa com o pessoal todo aqui. Evoluiu muito, aprendeu a ler, a contar… Quando ficava cansado, dormia debaixo da mesa”, lembra Flávia. “Hoje ele consegue entender que tem uma mãe. Uma mãe que briga e dá corretivo, mas que ama. Tudo o que faço é para preparar ele para o mundo, para fazer dele um homem melhor, alguém melhor do que eu fui”, diz ela, orgulhosa por hoje o menino um bombeiro mirim e ter um boletim recheado de notas boas.

Fernanda Portugal é mãe do Arthur há oito anos, jornalista há uns 20 e roqueira de nascença. E-mail para: contato@revistavertigem.com

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Pin It Share 0 0 Flares ×