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Quando um autor, uma cidade e um país morrem

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“Voltar seria simples. O gesto é que me parecia impossível” — João Paulo Cuenca

Qual deve ser a sensação de ser surpreendido pela notícia de sua própria morte? Especialmente quando você já se sente como uma ficção de si mesmo? Há coisas que só acontecem a escritores. Ou há coisas que só escritores podem transformar em acontecimentos. ‘Descobri que estava morto’, lançamento de João Paulo Cuenca (Tusquets Editores, 240 páginas, R$ 33,90), seu quarto romance, é um acontecimento dentro de um homem que vira do avesso, à imagem e semelhança de um entorno aos pedaços. Mais do que sobre a fragmentação do ser contemporâneo, tema tão batido em tempos de individualidades na ribalta, é sobre um ser inteiro ir escorrendo pelo ralo, fio após fio. De cabelo? De sanidade? Fio narrativo. ‘Descobri que estava morto’ tem a marca de Cuenca, um fio narrativo percorrido com eficiência atlética, brava e precisa reconstituição/criação dos fatos. Chega a beirar a aridez, o que seu filme-irmão, ‘A Morte de J.P. Cuenca’, estampa no telão, com seu Rio de Janeiro apocalíptico, em ruínas, cego e surdo para as relações humanas, mesmo na Rua da Relação, mesmo na Lapa mítica que evoca o sangue quente dos malandros comprometidos com a imprevisibilidade da vida.

 

O fio narrativo que falta, portanto, é ao personagem, que, espremido entre a quase obrigação de ter uma vida fantástica (vida de escritor consagrado, que viaja por todos os cantos, falando de si e de sua obra, atraindo pessoas igualmente interessantes e realizadas), e a mecanicidade de uma rotina feita de artifícios e expedientes que o dotam de uma autoimportância que o condena ao confinamento num simulacro de si mesmo, percebe o vazio de propósito de sua existência. O golpe final da percepção de que se tem uma espécie de farsa em curso é a farsa de sua própria morte, que chega em forma de fato consumado. A descoberta de que sua identidade serviu a um homem morto em circunstâncias obscuras, na Lapa, alguns anos antes, numa prosaica ida à delegacia, deflagra a crise, mas não, uma crise de identidade, apenas. Trata-se de uma crise de autoria de sua própria vida, e claro, de controle sobre esta. Estar diante de registros que “provam” que você já não é mais um cidadão quando a sua própria cidade sofre, em paralelo, de uma crise de identidade sem precedentes, é descobrir-se, também, um resultado vivo e pulsante da falência dessa cidade, dessa estrutura. Diante da própria morte, escrever não é mais suficiente. Representar o que sua escrita quer dizer ao mundo, também não. E é aí a partir daí que uma nova narrativa se impõe.

tusquets

 

Entre espasmos de deboche do perigo-glamour de um Rio de Janeiro sufocado pela institucionalização do banditismo, em que festas trepidantes do ‘high society’ dito culto convivem harmoniosamente com tiroteios nas favelas circundantes supostamente reformadas pelas UPPs, o que fica mais patente em ‘Descobri que estava morto’ é a ânsia de liberdade e desprendimento de convenções, típica destes tempos. Para conseguir chegar a esse utópico estágio de libertação de todas as amarras, na época em que se apregoa que para relacionar-se bem, é preciso, primeiro saber ser (feliz) sozinho, o autor reconstitui os passos de sua família. Em determinado ponto da história, ele é um homem que se arrasta entre a consciência amplificada da ruína prévia de seus antepassados e o entorpecimento deliberado para fugir de uma espécie de sentença autoimposta de não destino. Não é mais possível fugir. Nem fingir. É preciso partir, no entanto a identidade é uma prisão, só é possível partir de si mesmo e, quando você se encontra partido, é tão difícil ir embora quanto ficar onde já se está.

 

Justamente quando sua identidade está sob ameaça, e um novo sentido para a vida precisa ser encontrado, o autor vive o princípio de decadência de sua relação amorosa. Sua parceira começa a manifestar o desejo de construção de um núcleo familiar, como se fosse esse o desenrolar natural do relacionamento. Mas seu objeto de amor já não se encontra capaz de estabelecer relação sequer consigo mesmo. Dentro dele, impõe-se a aflição de contrariar a formação de uma família apenas para obedecer um script — que está sendo rasgado por sua geração, desencantada com a perpetuação da espécie, empobrecida e despreparada para suportar a responsabilidade de tamanha obra (um filho), quando nem as suas criações intelectuais e artísticas conseguem ser postas no mundo — contrastando com uma intensa, quase patológica carência. O grande plano parece ser, não amar, mas ser capaz de amar e entregar-se a uma experiência de amor dentro dos arranjos cínicos de relações que giram em torno de puro hedonismo, dentro da lógica bajulatória de uma cidade cujos espasmos de criatividade vêm de uma corte improdutiva e falida, que vaga em busca de um sentido de realidade.

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‘Frame’ do filme ‘A morte de JP Cuenca’, dirigido e protagonizado pelo próprio

‘Descobri que estava morto’ é também sobre o escritor como farsa na sociedade contemporânea, a invenção do personagem-escritor evidenciada por uma morte falsa que passa a ser real dentro de um esquema psicológico que equaciona fragilidade existencial, a farsa de uma cidade sendo remodelada para fins corruptos e o momento de não paradeiro, o limbo, quando tudo deveria estar bem (mas não está), afinal, há uma mulher interessante, fiel e gostosa, há um apartamento no “melhor” bairro da cidade, o Leblon, há as viagens e festivais, há o prestígio, há o círculo social agradável com gente abastada ou reconhecida midiaticamente, há a majestosa cidade como cenário, há a permissão para ser escritor e há um emprego na TV mais poderosa do país.

 

A analogia é clara, a essa altura. A queda de João Paulo Cuenca do pedestal que cuidadosamente criara para si próprio é como a queda do Rio de Janeiro e do país. Curiosamente, a semente da destruição é plantada quando a sua ficção está no auge. A morte do homem que não é o autor acontece enquanto ele lança seu terceiro romance na Europa, desfrutando dos privilégios de sua condição de homem, branco, da classe média da Zona Sul da cidade-farol do Brasil, em 2008. Passam-se três anos até que ele descubra o ardil da Sincronicidade. É em 2011, quando o Rio ainda está vivendo o pico (ilusório, forjado) da prosperidade e é, segundo a ‘The Economist’, o ‘place to be’ no mundo que o autor toma consciência de que tudo que ele entende como sendo sua vida caminha para a dissolução. Em outras palavras, dá-se o momento crucial em que reconhecer-se como personagem de si mesmo põe em xeque a habilidade para seguir interpretando esse personagem.

 

O livro segue sendo escrito durante o processo de desmascaramento de um país que simula, num grande ambiente de propaganda multicolorida, conquistas socioeconômicas radicais e mentalidade progressista, enquanto passa a lidar mais de frente com os recalques e preconceitos advindos de sua herança escravocrata,  e suas violência, desordem e corrupção intrínsecas. O momento nacional mais agudo, vivido em junho de 2013, encontra correspondência no apogeu da crise existencial do autor. Em 2014, quando os escombros já são evidentes, a população está cindida entre arroubos fascistas e uma esquerda paralisada, e o Brasyl caminha para ser denunciado pela mesma ‘The Economist’ como estando afundado num atoleiro (‘quagmire’ é o termo usado pela publicação), Cuenca se ergue para dirigir o filme-desdobramento do livro, que é, ao mesmo tempo, obra independente e ‘doppelganger’ da peça literária. A morte está se concretizando com sua própria encenação. O filme é concluído e apresentado no Festival do Rio, em outubro de 2015, quando as forças mais obscurantistas do país já estão prestes a tomar o poder, e, neste início de segundo semestre de 2016, quando o azedume de uma situação de exceção já está instalado, as “ilusões estão todas perdidas”* e os nossos sonhos foram “vendidos tão barato que eu nem acredito”*, ‘Descobri que estava morto’ é, finalmente, lançado. Como se o país precisasse ter sido morto para a história da morte do autor poder ser contada. ‘Perfect timing’. Assim, a devastação de um projeto de país justo socialmente, rico culturalmente e com suas estruturas e instituições econômicas e políticas em pleno funcionamento, a que a geração de João Paulo Cuenca assiste, encontra seu espelho na devastação de um projeto de homem e autor.

 

Vejo a ligação de ‘Descobri que estava morto’ com a mostra ‘Permanências e destruições’, que leva intervenções e ocupações artísticas a espaços em desuso, em ruínas ou em processo de transformação, no Rio de Janeiro. Tratam-se de duas obras (com trocadilho) que expõem as vísceras de uma cidade destituída de um sentido positivo de construção, que vive suas modificações com a apreensão do “e depois?”, ciente dos interesses aos quais as extinções e desapropriações repentinas estão subjugadas. Predomina o niilismo de quem está fora da festa do lucro desenfreado com supereventos esportivos. Há a consciência de que o Rio de Janeiro é essa desesperada última capital inocente útil do Ocidente que vai afundando e de como foi instrumentalizada pelos chefões da Coisa Toda de uma Europa e EUA colapsados social, cultural e economicamente. Esse Rio de Janeiro serviria para representar a ideia de que a periferia do mundo começa a se vingar e vingar como alternativa possível à falência dos valores capitalistas neoliberais perpetrados por um Primeiro Mundo pós-imperialista que sofre com as encruzilhadas do sistema que criou e que o sustentou por tanto tempo. Mas o que é essa cidade depois de passado o rolo compressor sobre sua gente? O desaparecimento da ‘urbe’ com pessoas e ofícios e construções de verdade é elaborado no desaparecimento do escritor J.P. Cuenca. Quando a cidade é tragada, ele é tragado junto. Sua viabilidade passa a ser a mesma de um bueiro explodido ou de um prédio demolido pelo pensamento “deixa cair que amanhã tem outro em seu lugar”. Sua queda se dá junto com a queda de uma sociedade inteira, enquanto muitos estão apenas anestesiados pela euforia transitória. As ruínas expostas no projeto ‘Permanências e destruições’, que discute o processo de desapropriação de uma cidade nestes anos loucos de seu saqueamento pelo poder público, são as mesmas que Cuenca expõe em seu livro.

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Vista comum do Rio de Janeiro nos anos 2010 em ‘A morte de JP Cuenca’

A obra também reflete a dificuldade de assumir-se estrangeiro, diretamente proporcional a uma dificuldade de assumir-se a si mesmo. Sem família, sem vontade de criar uma, sem identificação com o lugar onde nasceu e cresceu e morou a maior parte do tempo, o autor está sequestrado pelo personagem e sabe disso. Mas, paradoxalmente, a única coisa que parece satisfazê-lo, ainda que vagamente e de forma destrutiva, é SER esse personagem. Não interpretá-lo. Mas sê-lo. Impossível não pensar na fala de ‘Persona’ de Ingmar Bergman: “o inútil sonho de ser; ser, não parecer”. Há um esforço por carregar esse selo que o autoriza a ser alguém. Na verdade, há um culto às aparências vivido em negação. A ideia de largar o país ronda-o, mas sair do lugar e fixar-se numa terra estrangeira equivale a distanciar-se do personagem, já que este existe, em grande parte, por causa das escapadas cada vez mais frequentes e, por isso, banais, para os grandes centros estrangeiros.

 

É preciso assumir o desterro, o exílio, superando os traumas, feridas e bloqueios dos antepassados, todos envolvidos com o estrangeiro em alguma dimensão (como toda a elite brasyleira, aliás; a história dos sujeitos dessa elite é um perverso mosaico de histórias de etnias, castas e famílias estrangeiras cheias de cruzamentos sinistros que desembocam num país mal-resolvido com sua identidade), mas não há maturidade emocional para isso. Quando o agente funerário diz “não sou seu familiar”, ele está dizendo o que quase tudo diz ao escritor-personagem, ansioso o tempo todo por sua origem e por conseguir um paradeiro, um local de construção, um porto onde possa se dar a elaboração de um novo homem. Mas a relutância em assumir uma vida no estrangeiro tem sua raiz na não aceitação de que, na verdade, nada lhe é familiar.

 

O estrangeiro segue como espectro nessa relação conflituosa consigo mesmo, com a cidade e o país. As desventuras de João Paulo Cuenca começam após a publicação do “malfadado primeiro capítulo” do livro que nunca chegaria a existir, pela revista inglesa ‘Granta’. Há ainda mais essa promessa que não se concretiza, de um livro de um autor promissor com menos de 40 anos, que desiste de contar a história que havia planejado e que desencadearia, talvez, um processo de maior alcance no exterior, quando se depara com a coincidência bizarra que origina o livro que se consumou. Os sujeitos atravessados por perdas e consciências múltiplas de seus próprios desastres costumam parar/congelar quando atingem determinado reconhecimento de grife, parece. É que aquele é justamente o ponto onde o escritor está alcançando um entendimento sobre si mesmo e a farsa em que está enredado. O gatilho é externo. O gatilho é a ‘Granta’. Não é mais possível escrever sobre sua cidade (sua?) sem envolver-se com ela. O ‘self’ está atravessado pela vivência nessa cidade e pela própria cidade. Que está sendo desconstruída. Como ele mesmo será desconstruído. Não é mais possível testemunhar de fora. Em vez disso, testemunha-se a transformação da cidade, DE DENTRO.

 

“Expulsar de mim um ar ancestral.” Morrer aqui também é extirpar essa ancestralidade. Os laços. Os compromissos com uma família decadente, essa, sim, morta. É uma afirmação de vida. O encontro do escritor morto que não está morto com ele mesmo dá-se num cessar-fogo entre estar plenamente inserido na sua cidade e estar em perpétua turnê. Dá-se num interregno plantado no apartamento do prédio na Rua da Relação (um nome curioso para ser o endereço central de um livro que expõe um personagem incapaz de se relacionar). Ali, no lugar de encenação da morte falsa, o personagem encena seu renascimento. Que é também o renascimento simbólico de um escritor, na encruzilhada da literatura contemporânea, que força uma importância ‘made in’ século 21 por meio de ciclos autocongratulatórios que vão afastando os escritores, esses seres já naturalmente frágeis e complexos, de seu ofício – que é o ofício da observação, da contemplação e da análise.

 

“Manter-se vivo não é difícil.” Essa conclusão chega quando cessa a atuação num palco, seja ele estrangeiro ou familiar. A travessia até ser você mesmo nunca termina, ensina o livro de João Paulo Cuenca, enquanto o Rio de Janeiro encara seus escombros e a democracia brasyleira segue entre agonizar para morrer ingloriamente, a fim de confirmar sua vocação para o autoritarismo, e admitir suas falhas estruturais para tentar reinventar-se. Que cidade, que país e que autor surgirão nos próximos anos, após a destruição? A descobrir.

Leïlah Accioly é um caleidoscópio: escritora, poeta, jornalista, agitadora cultural, curadora, DJ, artista visual, decoradora, ocultista, mãe, geminiana e o que mais não couber em duas linhas. E-mail: leilah.accioly@revistavertigem.com

Imagens de divulgação do filme ‘A morte de JP Cuenca’ (2015).

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