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Mulheres sobre duas rodas e unidas

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O ato de andar de bicicleta vem ditando comportamentos e estilos de vida, indo muito além do ato de se locomover e modificando as formas de se relacionar com o espaço urbano. Basta olhar em volta para comprovar: a quantidade de ciclistas pelas ruas não para de crescer. Eventos em torno dela também são cada vez mais frequentes. E, como não poderia deixar de ser, as mulheres vêm abraçando esta tendência de maneira múltipla: enfrentando desafios, empreendendo e se apropriando da bike como ferramenta de empoderamento.

A consultora de comunicação e cicloativista Lia Amancio aderiu ao pedal ainda na adolescência. Há cerca de dois anos, ela, que é moradora de Niterói, decidiu cruzar a Baía de Guanabara até o Centro do Rio sobre duas rodas para ir ao trabalho, aproveitando o fato de que acordava muito cedo. Desta forma, uniu o útil ao agradável. “Vi que eu podia incluir o exercício e a diversão no trajeto. Como eu já estava frequentando um grupo de pedal coletivo de Niterói, achei moleza ir”, conta ela, que no início ia com o marido e, atualmente, vai e volta sozinha.

Segundo Lia, que participa do coletivo Pedal Maravilha, a bicicleta se relaciona intimamente com o empoderamento feminino, e não é de agora. “As bicicletas fizeram duas coisas importantes para as mulheres: deram autonomia de transporte, para não dependermos de homens, e obrigaram a algumas mudanças significativas no guarda-roupa”, explica ela, que gosta de se vestir de maneira bem colorida para se destacar no trânsito.

Uma boa dica de leitura para se aprofundar no tema fica por conta do livro ‘Wheels of Change: How Women Rode the Bicycle to Freedom’, que explica como a bicicleta contribuiu para a emancipação feminina na América do Norte, redesenhando as convenções normativas da feminilidade. A publicação, cuidadosamente enriquecida com fotografias de época, propagandas e desenhos, detalha também uma curiosidade: a adaptação dos vestidos de época para facilitar a condução das bicicletas, o que ocasionou uma redução de cerca de quatro quilos nas vestimentas!

Felizmente, na época atual é possível se vestir bem e com praticidade para pedalar. Lia tem alguns macetes: no uso de calça social, ela sugere um elástico na barra, ou dobrar a perna direita até o joelho para não enganchar na corrente. Saias curtas ou médias são usadas com uma bermuda de lycra por baixo — “menos para não pagar calcinha e mais para não assar no banco mesmo”, diz ela. Além disso, saias mais longas podem virar uma calça saruel com o truque de uma moedinha com elástico que pode ser visto neste vídeo.

Foi combinando a cultura biker com moda que as empreendedoras Thaís Lima e Carolina Queiroz se encontraram. Elas, que fazem parte do coletivo Engraxadas — que promove atividades para mulheres usarem a bicicleta com mais autonomia — são as idealizadoras da Cíclicas, marca de moda voltada para ciclistas urbanos, com um conceito autoral de roupas e acessórios que “valorizam o uso da bicicleta, o engajamento, a liberdade e o estilo urbano de ser”.

Thaís conta que a marca surgiu a partir da importância da bicicleta como instrumento de empoderamento das mulheres, bem como da profunda transformação que o vestuário delas acabou sofrendo por aderirem ao hábito de pedalar. Assim, a marca busca criar peças versáteis e confortáveis para andar de bike à vontade e usar em diversas situações. Um dos exemplos é uma saia em viscose, com um short acoplado na parte interna, que possui bolso lateral, bacana tanto para momentos informais como para o trabalho, por exemplo.

Já o Engraxadas é um coletivo criado por cinco ciclistas urbanas no Rio de Janeiro para promover a bicicleta como ferramenta de empoderamento feminino e que tem um pedal feminino marcado para o dia 17 de julho (veja aqui).

Thais Lima

Com tantas iniciativas interessantes e femininas surgindo no universo biker, fica tudo mais fácil. Para auxiliar nessa empreitada, aqui vão algumas dicas de grupos e eventos para quem deseja começar ou se aprofundar neste universo tão engajado:

La Frida: projeto cicloativistas negras de Salvador que une bicicleta à arte de rua, estimula a representatividade feminina na mobilidade urbana, ampliando as vozes das mulheres negras e ocupando espaços.

Pedal Maravilha: comunidade criada por mulheres com desejo de mudança, onde todas as decisões e tarefas são executadas por mulheres.

Ciclanas Mulheres no Trânsito de Fortaleza: O grupo foi criado para aprofundar a relação das ciclistas mulheres com a cidade, ajudando-as a superar obstáculos como assédio, assaltos e atropelamento.

Alexandra Marchi é jornalista de formação, auditora de profissão e se pendura em tecidos por paixão. Ela publica seus textos livres no blog www.alemarchi.wordpress.com.

 

Foto do destaque: Lia Amancio, que adotou a bicicleta há dois anos

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