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A trama de Zuzu Angel em cordel

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Rio de Janeiro, segura, que Dani Acioli está chegando e é impossível passar ileso a seu magnetismo. A artista plástica pernambucana desembarcou, ontem, no Espaço GaleRio, com a mostra ‘Trama: diálogos com Zuzu’, que ficará em cartaz até 26 de agosto. Na exposição serão apresentadas obras inspiradas na estilista Zuzu Angel (1921-1976). A mostra marcará, ainda, a entrega do Prêmio Rio V.I.É.S. Moda Ano Zuzu Angel, que, nesta edição, homenageia a estilista, por meio de sua filha, Hildegard Angel.

Dani é uma mulher que transborda. Conhecia e admirava seu trabalho há um tempo. Soube de Dani através da moda. Eu a conheci pessoalmente em uma mostra cultural, no Recife, há pouco mais de um mês. Não conversamos mais que cinco minutos. Tempo suficiente para seu filho mostrar que tem talento com uma caneta posca em cartolina. Algo de sangue. De alma. Tempo suficiente para sentir o quanto Dani ainda tem para gritar sobre o universo feminino através de traços, cores, texturas, angústias. E de querer, de certa forma, contribuir com este grito.

Nos desenhos-pinturas de Dani, você encontra diversas mulheres, com seus medos, conquistas, dores, delicadezas, pressões, luta. Imagina, Zuzu Angel por Dani Acioli. É uma exposição imperdível, não apenas pela expressão da beleza da força do universo feminino, como também por ser um grito necessário, atual e urgente.

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Dani Acioli em clique de Helder Ferrer

Vertigem: Dani, fala um pouquinho de você? Se apresenta, fala o que você gosta, o que te move, o que você quiser.

Dani Acioli: Sou uma desenhadora. Eita, Tathi. Pergunta difícil. 41 anos. Sol em capricórnio. Sufoco danado. Lua em peixes. Acho que me dá um alento. 🙂  Saturno como regente. Li hoje que soturno vem de Saturno. Me sinto ensimesmada. No sentido de voltando para dentro, como uma busca, e não como “em volta de mim mesma”. Como alguém que vestiu a palavra insólita como a roupa que foi feita sob medida.

Resposta fechada não existe. Em construção. 🙂

Quarenta e um anos de desconstruções e “caídas de fichas”. Venho ao longo dos anos construindo um repertório, empoderando minha fala enquanto feminino no mundo. Esse feminino que me junta às demais e que me joga ao mundo, a uma grande conexão de força e de luta, de necessidade de protagonismos. Esse universo (o feminino) sempre foi uma força em minha inspiração. Muitas vezes, o trabalho mais na frente do que eu estava; muitas vezes atrás (imaturo). E essa tentativa de equilíbrio entre eles no lugar de uma grande insatisfação como motivador. : )) Pode?

Com certeza!

Lembro que já respondi à pergunta se eu não achava que as “minhas mulheres” era uma repetição de tema no meu trabalho. Isso me fez pensar. Claro. E hoje essa resposta, que não foi dada exatamente assim na época, é tão clara: claro que não é assunto esgotável, cansativo… É revolucionário. Que lugar é esse que estamos no mundo? Nesse tecido social. Não está nem no início do que tem pra queimar. A gente vive um mundo que sempre quer nos colocar numa redoma. Uma vida cheia de regras que nos são colocadas, impostas, desde que nascemos. E a gente segue rasgando a vida para conseguir existir, ser, como protagonistas dos nossos desejos, quereres. Esse aprendizado é grande. É sonoro. É coletivo. Leva tempo e luta. E estudo. E compreensão. Estou no início. Estou engatinhando ainda.

Como é seu processo de produção?

Sempre pensei no negativo. O que tiro do papel, e não no que coloco de tinta. Parto sempre do preto e branco. Cor é difícil pra mim. Não penso no colorido para criar um desenho. O colorido, aliás me trava o processo de criação. “Primeiro, foi o preto no branco, de onde uma certa ordem estética anunciava quem estava para chegar, levando-nos a uma experiência mais pura; minimal, diríamos, não fosse sua inquietação telúrica e o rompante de formas e detalhes. Depois, o nanquim flertou com o amarelo e, do amarelo, surgiu um desvario de cores quentes. Além do papel, o exercício estético experimentou outras paragens: peças em cerâmica, adesivos, tecidos, roupas, acessórios, embora seja no suporte de celulose onde encontre o seu melhor pouso; na verdade, seu verdadeiro ponto de partida.” Peguei essa passagem de um texto de Olívia Mindêlo sobre o meu trabalho.

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Obra de Dani Acioli para a exposição. Foto: Helder Ferrer

Conta pra gente a tua relação com arte e moda.

Engraçado. Moda, pra mim (escolha do que se veste, não do que se coloca como moda propriamente), é a construção de uma identidade. É você como o próprio suporte para a arte criativa do vestir. É comunicação estética. Então, vestir é uma criação. Partindo desse princípio, no desenho, a moda por outro viés. A camisa preta “pintada” com água sanitária (confluindo para o meu pensamento preto no branco e de estética muito mergulhada no universo do cordel) era a forma mais barata de criar. Sem tinta, só com água sanitária e com o desenho se fazendo na camisa “básica” preta. Em minha primeira exposição em 2007 (fui jornalista por mais de 20 anos), eu lancei camisetas criadas com o meu desenho com assinatura da marca pernambucana Maria da Silva (de Rita Azevedo e Germana Valadares). Sempre achei meu traço muito gráfico. Muito possível para outras experimentações e suportes. Daí para tentar experimentar esse universo de novo foi fácil.

É a primeira vez que você expõe no Rio?

É sim. Muito feliz com o convite.

Como chegou esse convite?

Fui convidada pela Prefeitura do Rio de Janeiro, por meio do Eixo Rio, através de Alexandre Bojar juntamente com o Instituto Zuzu Angel, que é dirigido pela Hildegard Angel, filha de Zuzu. E fui apresentada a eles por Viviane Spitz, que é uma apaixonada por moda e arte.

O que te move?

A possibilidade de movimento em si. No movimento, tem gente que prefere o pouco. Acho que prefiro saltar. Não leve como óbvio. Poderia viver de inércia e incorreria na mesma resposta, por exemplo. Me move essa insatisfação do lugar presente. São tantas questões…. vivo de inquietudes.

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Dani Acioli incorpora a arte de Zuzu Angel e o cordel em tecido pintado por ela. Foto: Andrea Rego Barros

Quais as suas principais influências?

São muitas. Muita gente que gosto. Meu desenho parte muito do texto. Do que leio. Elas são textuais, embora sejam desenhos. Deve ser minha veia jornalista, presente em minha formação. Mas venho da estética da xilogravura, do universo lúdico e imagético do interior. Isso sempre foi forte no meu trabalho. E, por outro lado, da cultura erótica; sombria e subversiva… Ixe… fui de uma coisa a outra num pulo. Mas é assim. É muita mistura dentro da construção de um interesse, de um repertório. Vou de Harry Clarke, Klimt, passando por Bukowski, Matisse, Tom Waits, Nina Simone, Rubem Grilo, J. Borges, Patativa do Assaré, Gilvan Samico…

Qual o teu maior medo?

Na atualidade, são todas as quebras de confiança no que é minimamente esperado nas relações sociais, ética e moral, com o outro, institucionalmente falando e também nas relações não institucionais. Vivemos um momento muito difícil. De posições e comportamentos extremados; de uma volta à direita em todo o mundo.

E sonho?

Realizar.

O que pintar, desenhar, ilustrar, deixar o mundo mais colorido representa pra você?

Desenho é, para mim, a maneira mais verdadeira — mais legítima comigo e com o outro — de comunicação.

Qual o livro que está na sua mesinha de cabeceira neste momento?

‘Os sentidos da paixão’, livro do núcleo de estudos e pesquisa da Funarte. Trata, a partir de vários autores, sobre os afetos (paixão, amor, tesão…).

O melhor da vida é?

Afetos.

Trama — Diálogos com Zuzu
Espaço GaleRio. Rua São Clemente, 117-A – Botafogo
Segunda a sexta-feira, das 10h às 18h. Grátis

Tathianna Nunes é jornalista, produtora e torcedora do Santa Cruz. E-mail para: contato@revistavertigem.com

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