comp

Deu sereia na Ocupa Minc

0 Flares 0 Flares ×

“Ocupar, etimologicamente falando, significa tornar um lugar capaz. Isso não se faz só com prédios institucionais, mas também com praças, outras pessoas e nós mesmos. É a gente se ocupar de verdade com esse novo mundo que a gente deseja.” A atenção do público estava toda voltada para a professora e pesquisadora Adriana Alcure, do curso de Direção Teatral da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em suas mãos, o microfone reverberava essas palavras para o grupo presente na Ocupa Minc, no Palácio Gustavo Capanema, centro do Rio de Janeiro. Era noite de segunda-feira, 25 de julho, a primeira após a reintegração de posse que aconteceu no prédio, algumas horas antes, por agentes da Polícia Federal.

De 24 a 31 de julho, aconteceria no local a primeira semana feminista da ocupação, o Arrastão das Sereias, organizada pelo coletivo de mulheres, Formação de Sereias. O dia 25 traria uma programação pensada para a data: o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Shows, performances, apresentações teatrais, debates e outras atividades culturais preencheriam a semana para trazer reflexões sobre feminismo e questões políticas em relação à mulher.

Com a desocupação, as integrantes ficaram de vigília até a manhã de terça-feira. “Todas as participantes convidadas para a Semana das mulheres foram convocadas a estar aqui conosco, hoje. Posteriormente, decidiremos em plenária com o coletivo e tentaremos chegar a um consenso sobre o que fazer com esta situação emergente”, explica a atriz, ‘performer’ e professora Brenda Jaci, que está na Ocupa desde o primeiro dia.

Ela estava no prédio quando os agentes da Polícia Federal entraram, por volta das 6h da manhã. “As pessoas estavam dormindo. Acho que eram em torno de 20 policiais, todos armados, com máscaras de gás. Eles foram empurrando as barracas e cutucando, dizendo: ‘vocês têm cinco minutos para sair’. Nós conseguimos conversar e pedir um tempo para sairmos, que foi de meia hora. Organizamos as coisas e começamos a descer. A gente já tinha noção que a reintegração poderia acontecer a qualquer momento, então tínhamos decidido em consenso que sairíamos de forma lúdica. O mais importante não é o enfrentamento com a polícia, mas com a sociedade, para que ela não naturalize o golpe”, relata.

IMG_5442

Dentro do prédio, quando ainda estava ocupado, as mulheres davam seu recado (Foto: Renata Fontanetto)

O coletivo de mulheres da Ocupa têm nome, “Formação de Sereias”, em homenagem à criatura mitológica do mar retratada nos azulejos do Palácio Capanema, criados por Cândido Portinari. Em um grupo no aplicativo de troca de mensagens instantâneas Telegram, as participantes socializam, se ouvem e se organizam. O grupo surgiu cerca de um mês após o início da ocupação, depois que algumas mulheres denunciaram ocupantes homens por assédio. Em um deles, um dos ocupantes era conhecido pelo jeito afetuoso.

“Quanto mais a informação circula entre as mulheres, mais seguras estamos. Foi uma catarse, porque todos achavam essa pessoa um fofo, querido, prestativo, que dançava com todo mundo, mas descobrimos que muitas meninas já tinham uma situação esquisita com ele para relatar. A gente teve que agir quando viu que era algo que já tinha acontecido com todo mundo”, relata Isabel Gomide, atriz e produtora do movimento Reage Artista que está presente na Ocupa desde o início. O homem em questão foi expulso, assim como aconteceu com outro ocupante, também devidamente denunciado por assédio sexual.

O grupo no Telegram surge da necessidade de as mulheres se fortalecerem. Rachel Dias, 20 anos, que integra o núcleo de comunicação da Ocupa, explica que não há uma linha feminista única no grupo. Ali, existem mulheres feministas, no plural, desde que o grupo se entendeu como feminista dentro da ocupação. “O Sereias compreende o desconforto dessas mulheres. Não há como dormir em paz se existem homens que não estão nos respeitando dentro do local”, alerta.

IMG_5438

A atriz Luciana Pedroso, uma das ocupantes, preparava uma exposição com diversas sereias pintadas por ela para a semana feminista (Foto: Renata Fontanetto)

Desde a criação, o grupo vem colocando na pauta de planejamento a elaboração da primeira semana feminista. “Queríamos que todas as mulheres ocupantes se sentissem envolvidas com o processo do evento, que deveria ser representativo de todas e plataforma para a voz da mulher. Além disso, o evento serviria para clarear a visão do machista que ocupa, porque também há aquele homem que não consegue identificar atitudes machistas no outro”, explica Rachel.

Se a programação da semana feminista segurasse um cartaz de reivindicação, as seguintes palavras poderiam ser lidas: “Estamos falando sobre mulheres, sente e escute!”. Com a reintegração de posse, os eventos do Arrastão continuam acontecendo, porém não em sua totalidade, e nem com o espaço físico de antes. Os ocupantes agora se organizam próximos ao muro erguido em volta do Capanema. Quando conversei com outra ocupante, Luciana Pedroso, cantora que também está desde o primeiro dia, ela atentou para o fato de que, desde o início, a ocupação é composta por mulheres em sua grande maioria, totalizando cerca de 70% dos manifestantes.

Luciana é daquelas que aquecem apenas com sua presença, forte e avassaladora. Durante a entrevista, ela entoou diversas palavras de luta que as mulheres brasileiras têm ouvido nos últimos meses em eventos como a Marcha das Mulheres: “Quando digo não, é não!” e “Legaliza! O corpo é nosso! É nossa escolha! É pela vida das mulheres!”. Sua voz, em alto e bom som, lembrou-me do canto das sereias. Entre as muitas histórias sobre esses seres, metade mulher e metade peixe, talvez a mais senso comum seja aquela que diz que as sereias são capazes de atrair e encantar a todos e todas com seu canto.

No lugar da canção, palavras que buscam combater o patriarcado e conquistar ainda mais mulheres para a luta. Nascida e criada na favela da Maré, no Rio de Janeiro, Marielle Franco, socióloga filiada ao Psol e coordenadora da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj, estava presente na primeira noite de vigília pós-reintegração. No domingo, 24, primeiro dia da semana feminista, ela levou a filha e um sobrinho ao local. “Para além dos shows, é mais importante vir num dia em que não está todo mundo porque são nesses dias em que precisamos fortalecer. Neste Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, é importante que a gente amplifique os diálogos e que a mulher negra tenha voz. Precisamos ocupar esses espaços e botar a cara”, reforça.

Agora, a luta continua. A Ocupa Minc já deu o recado por meio de sua página no Facebook. Nesses 70 dias da Ocupa, foram mais de mil atividades realizadas de forma gratuita para a população. Morgana, 33 anos, que estava prestando apoio à vigília, define bem o que o ato representa: “Nas noites de festas maiores, já houve de duas a três mil pessoas ouvindo ‘Fora, Temer’!’ e que não vieram para cá apenas pela festa. E se viessem para cá achando que era uma festa, voltavam para casa sabendo que é um ato político. Essa ocupação alimenta politicamente nosso discurso neste momento atual do Brasil”. E as mulheres, mais do que nunca, estão e continuarão presentes.

Renata Fontanetto é jornalista, trabalha como divulgadora científica no Museu da Vida, da Fiocruz, e é repórter da revista Apuro (www.medium.com/@revistaapuro). Email: renatafontanetto@gmail.com 

Imagem de capa: Mídia Ninja.

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Pin It Share 0 0 Flares ×