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Claudia Sehbe lança sua poesia do vento

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“Grato”, “tinta fresca”, “fui crime, serei poesia”, “somos instantes”. Esses são alguns dos recados que os muros da Zona Sul do Rio de Janeiro passam nestes anos tumultuados. A autora de “Somos instantes”, o mais contemporâneo de todos, é Claudia Sehbe, gaúcha, 32 anos, que lança seu primeiro livro, homônimo, hoje, na Livraria da Travessa, em Ipanema, pela editora Olhares. Claudia é artista visual, além de poeta, é poeta, além de artista visual. Está unindo palavra e imagem em sua poética, o que, hoje, não pode soar mais natural. É o que a contemporaneidade pede. “Somos instantes” expande a crua verbalidade dos poemas em imagens em preto e branco que contrastam um olhar delicado com o velho repertório da decadência urbana: azulejos, descascados, tijolos aparentes, construções escarnadas, papeis amassados, paredes de banheiro, escadas abandonadas que parecem levar a lugar algum. Pelos olhos de Sehbe, a dureza dessa materialidade, que vai esvanecendo no dia a dia, ganha contornos inegavelmente femininos ao se juntarem à sinuosidade da caligrafia. São instantes.

Assim como são instantes os poemas, uma pequena e expressiva/doída/sentida coleção de polaróides do cotidiano somando choque, coragem x covardia, ilusões, despertares e dores próprias da alma feminina, ausências e presenças, surpresas. O ritmo é de pancadão, mas às vezes, sopra um jazz miúdo ao fundo. Cenas brutas entrecortadas por versos melodiosos que expõem a fragilidade do ego – a confissão contemporânea favorita – e do humano quando coletivo. Enumerações como “aço/ pedaço/ felpa/ gota d’água/ grão de tudo” exibem domínio da linguagem poética. No grosso desse caldo de cimento, areia, vento, mar e lençol amarrotado, sente-se a angústia de uma mulher que vive entre a superficialidade das zonas mais ricas de cidades grandes com seus milhões de habitantes abandonados a uma sorte imprópria (“a dor sobreposta/ é tijolo/ é cimento/ e nós os edifícios”), e uma série de questionamentos e perplexidades reprimidas que explodem numa poesia radiante de urgência de carne & osso (“o jornal/ uma outra pessoa/ um café e muda-se o assunto”).

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Obra de Claudia Sehbe que virou uma das imagens de “Somons instantes”

O vento é a presença mais constante no conjunto, signo de movimento quando se deseja uma reviravolta que nunca vem. A sensação de iminência de um futuro em que a vida faça mais sentido perpassa todo o livro. “A Via Láctea me parece apertada” é a insígnia desse desejo de expansão. O “homem sem tempo” baila com esse vento que sopra dos versos de Claudia Sehbe. Esse homem é a sombra de um amante cuja presença é sempre tão fugaz e incerta (“tenho te carregado tão pesado como 12 cavalos que nunca desancam”; “as mãos inquietas cheias de ausências”) quanto gatilho para se sentir as vísceras num mundo que só se experimenta – violento, seco, convulsivo – por meio de notícias e comentários em redes sociais. “Os homens se enganam em relação ao amor/ e eu tô agora/ sozinha/ planejando uma fuga/ azul/ dessa gaiola louca que é você”. “O amor foi feito para engolir/ Não existe amor sem mastigar/ Todo amor é antropofágico/ Alguém engole alguém. Mastiga. Dói”. Assim, Sehbe vai construindo, degrau a degrau cheios de pontos finais em ‘close’, uma poesia de grandes espaços, que deixa lacunas, que substantiva, que nomeia, com cortes abruptos como num videoclipe. E ao mesmo tempo, suas panorâmicas fecham-se subitamente em momentos intimistas, claustrofóbicos, de fôlego curto e aflito (“meu cérebro simples ferve”). A poesia de Claudia Sehbe é assim como seu cérebro, simples e ferve.

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Capa de “Somos instantes” (Divulgação) 

É também este documento de mulheres livres que perambulam pelo mundo ansiosas pela abertura de portas e portais contra “a covardia dos sonhos que não possuem asas/ sonhos mancos”. “Dois” dialoga com “O Oco”. Na segunda, “diz-se das maçanetas que não giram”, enquanto que a primeira cospe: “ou talvez a gente seja tudo aquilo que cabe na expectativa dos segundos entre estar sozinha e o mexer da maçaneta”. Somos independentes, mas continuamos à espera. Vício histórico da mulher. O vento é a ânsia de liberdade dessa expectação, dessa eterna gestação. Somos instantes. Em “Antes do dia 23” está a “nova utopia” que o poeta paulistano Regis Bonvicino celebra em exposição em cartaz no Rio: “corpos à esquerda/ nus” (a nudez dos e das esquerdistas reivindicando libertação dos padrões); “o eu imerso na manhã do teu umbigo” (individualismo, ego); “não morrem carnívoros os amores” (vegetarianismo e veganismo); “um zoom que liberta o poema” (tecnologia como redenção, era de Aquário). Já em “Das coisas que não são acidente”, a tragédia criminosa em Mariana, com o deslizamento de uma barragem que acabou de sepultar o Rio Doce, ainda sem penalizações para os responsáveis, é descrita com precisão cabralinademelonetiana num ótimo ‘build-up’ que alinha décadas e segundos na missão de destruir. E enquanto o Rio Doce e províncias inteiras viram lama, uma turminha de garotas em Ipanema vai ter que almoçar na parte de dentro do restaurante porque chove. Os alinhamentos absurdos seguem em outros poemas com preocupações sociais, que nunca esbarram em pieguice, tocando em temas espinhosos como aborto e estupro sem medo do sangue.

No ano passado, Claudia retornou ao Rio, após temporada longa em Nova York, e fez sua primeira exposição na Ocupação Mauá, durante a ArtRio, emprestando seus versos a instalações artísticas num galpão abandonado do Centro do Rio, junto com Carlos Vergara, Raul Mourão, Vik Muniz e Zanini de Zanine. Claudia se prepara para duas exposições coletivas a partir do dia 27 deste mês, a “Toulouse Clubhouse Rio II”, na Galeria Toulouse, na Gávea, e no Clubhouse, em Copacabana. A Vertigem falou com a poeta sobre referências, a nova geração de poetas, o vento, a mulher e os instantes registrados. Siga na ventania.

 

Vertigem: Como está sendo lançar este livro? Conta pra gente sobre o projeto de artes visuais ligado a ele. Como você vê este momento para a poesia visual?   
Ah… Como está sendo lançar esse livro? Maravilhoso, de todas as maneiras. O processo foi muito importante. Sempre é. O processo de transformação é contínuo. Não existe um fim exato. O livro impresso continuará neste processo de mudança, só que agora entra a relação com outras pessoas e isso significa muito para mim. Estou muito feliz em dar esse passo. E fico confortável em pensar no livro, na casa das pessoas sendo lido. Essa rede de troca muito íntima que a arte da escrita cria com as pessoas em seus momentos individuais me interessa muito, me encanta. Sempre percebi o “fazer arte” como um processo de transformação. A liberdade de me expressar com texturas, cores e formas quando as palavras me faltam ou sobram foi uma experiência que comecei a experimentar e tenho gostado muito. Tudo está conectado. Essa mistura de poesia e arte visual foi acontecendo ao acaso, naturalmente, e tem me possibilitado uma liberdade no meu trabalho. Depois do lançamento do livro, participo de duas coletivas e participo ainda com alguns trabalhos na ArtRio em galeria.
Sua poesia tem um ritmo próprio da geração de poetas entre 25 e 40 anos que está despontando no cenário da língua portuguesa, hoje. Você identifica este ritmo apressado, urgente, “videoclíptico”, que se apoia em jogos de palavras e muita substantivação, na sua poesia e como você o vê? Enxerga uma tendência geracional nisso? Acha que as redes sociais teriam um papel nesse movimento? 
Tenho experimentado me deixar levar pelo fluxo, pela liberdade extrema que a poesia e meu estilo de vida possibilitam. Um processo de experimentação e transformação mesmo. As coisas estão em movimento assim como a poesia, que não é cristalizada. Acho que mais do que uma tendência, somos poetas e artistas sendo transparentes. Expandindo experiências sem qualquer esforço à negação deste mundo que experimentamos agora: móvel, inflamado, ebulitivo e em constante transformação. Neste sentido, é natural que isso influencie no estilo e a obra em si. É até uma questão de verdade, sabe? Uma expansão de experiências e a veracidade. Somos poetas e artistas de um mundo urgente. Os discursos bonitos são bonitos, apenas bonitos…. Uma vez, ouvi uma entrevista do Tunga onde ele dizia que nos dias de hoje, a necessidade da beleza foi substituída pela intensidade… Grande Tunga…
O vento é talvez a palavra mais presente no livro. Alguns exemplos: “O vento que bate é vizinho”; “engulo o vento”; “os ventos estão livres a correr pelas tuas duas narinas até o fim do mar Egeu”; “atravessei um vento para ver o teu acordar” e o que talvez sintetize sua poesia, “eu existo/ eu vento”. O que é o vento pra você e o que é ele para o seu eu lírico? 
No meu poema “Eu lembro”, que fala de uma morte em vida e de um renascimento, existe um trecho que resume (se é que isto é possível) um pouco do o que sinto sobre isso:
…um vento batia
gritando:
nada
não importa,
era vento e isso
dizia muito sobre estar vivo….
“Somos instantes” fala das dores da mulher, dos amores inconstantes, da solidão, da angústia, de problemas sociais, comportamentais, ambientais, de ego e tem como temática principal, ao meu ver, a dificuldade de o sujeito contemporâneo viver o presente ao mesmo tempo que tenta se agarrar ao momento. Como você percebe estes nossos tempos, dentro e fora do Brasil? 
No livro, você consegue perceber dois tempos subjetivamente. Há uma parte bem intimista acompanhada por questionamentos e experiências individuais, fragmentadas. Há também uma segunda que permeia o campo mais humano, global, questões delicadas que senti em algum momento necessidade de trazer para este lugar. Esse “ao redor” que acaba por nos influenciar e instiga a necessidade de expressar algo sobre este universo de dor, de ódio, de mortes violentas, de injustiça. Estamos em um tempo delicado, muito. O humano não humano? Talvez. Mudanças gigantescas já aconteceram. Agora, estamos em pequenas mas importantíssimas transformações. Talvez a maior delas seja olhar para o lado com mais generosidade. Acolher a diferença. Faz um ano que voltei ao Brasil em um período de completa metamorfose, não era apenas o problema da crise. Nunca foi. Há muita coisa a ser feita. Existe muita gente esquecida, muita pobreza, muita dor. Não é justo esse abandono em que vivemos no Brasil. Essa corrupção absurda. Eu iniciei um trabalho junto à comunidade aqui no Rio e dessa maneira pude ficar mais próxima da realidade brasileira. Existe muita gente do bem, existe o amor, ainda existe o amor! Precisamos resgatar nossos “soldados”, eles estão cansados…
….só que você não sorri mais
e eu me vejo no espelho
nós
múmias que rezam
e caminham
em círculos
e agora descemos juntos
mais um degrau rumo ao inferno
o inferno é tudo que sobra é tudo que falta
e você não consegue chorar
as bombas
o homens
a nuvem
de ódio que chove a notícia
e vende-se jornais
a dor sobreposta
é tijolo
é cimento
e nós os edificios …
Quais são as suas referências literárias e artísticas?  
Nossa, muitas. Elliot, Whitman. Como não falar de Cortazar, Sylvia Plath, Drummond, Ana C.? Tenho fases, vivo-as. Tenho lido muito Adília Lopes, Anne Carson. Meu primeiro autor preferido foi Caio F. e continuo amando-o profundamente. Fiz um poema sobre uma primeira experiência gay entre duas mulheres, o poema chama-se “Ana”, está no livro ‘Somos instantes’, e foi completamente influenciado por ele, dediquei a Caio. As referências se misturam…
Leïlah Accioly é um caleidoscópio: escritora, poeta, jornalista, agitadora cultural, curadora, DJ, artista visual, decoradora, ocultista, mãe, geminiana, feminista e o que mais não couber em duas linhas. E-mail: leilah.accioly@revistavertigem.com 

 

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