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Mentira tem perna longa

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Fui tomada pelo sacolejo de mais uma semana de escândalos políticos no Brasil (alô, meu Rio de Janeiro!) quando estávamos todos ainda atônitos pela vitória de Donald Trump, comovidos com o semblante abatido e sem graça de Barack Obama em sua primeira reunião com o presidente eleito e chateados com a morte de Leonard Cohen. Enquanto isso, na terra do Tio Sam, explodia uma série de acusações contra o Google e o Facebook por suposta influência negativa no resultado das eleições no país, devido à enorme proliferação de notícias falsas plantadas por jornais e sites de mentirinha nessa gigantesca internet sem lei. A questão dos hoaxes (farsas digitais) em si, não é exatamente nova, mas dadas as proporções perigosas do momento, resolvi explicar o que diabos isso significa em um textão de rede social que agora amplio & aprofundo, quase desenhando, aqui na Vertigem.

Vamos por partes, já diria Jack. A questão é que Craig Silverman, criador do BuzzFeed, publicou dias atrás o Top 20 de notícias falsas sobre Donald Trump e Hillary Clinton que mais receberam curtidas, comentários e compartilhamentos no Facebook durante os três meses finais de campanha. A conclusão de Silverman, que cruzou dados das 20 notícias falsas com melhor entre os jornais de mentira e os sites hiperpartidários com as 20 notícias verídicas com melhor desempenho de sites noticiosos mainstream, é de que as mentiras conseguiram um engajamento de 8,7 milhões de pessoas e superaram as verdades, que somaram 7,3 millhões de engajamentos no mesmo período.

Entre as 20 maiores mentiras computadas, apenas três eram pró-Hillary Clinton. Uma dessas notícias foi publicada por um jornal que não existe, o Denver Guardian, espécie de pegadinha com o nome da cidade de Denver e do jornal inglês The Guardian, o que só facilita erros de associação. A matéria original, já fora do ar, dizia que o Papa Francisco estava apoiando a candidatura de Donald Trump. Acontece que o Papa não apoiou ninguém e, ainda por cima, tem se posicionado a favor das causas dos imigrantes e refugiados, algo que não combina com a plataforma política da campanha de Trump. Outra história falsa, ainda no ar em um tal de Political Insider, diz que Hillary Clinton teria vendido armas para o grupo terrorista islâmico ISIS. A lista é longa e cheia de absurdos, que por vários motivos soaram verossímeis a um enorme número de leitores.

Sites falsos geram receita a empresas como Google e Facebook. Assim como qualquer outro, eles pagam por anúncios, links patrocinados e posts impulsionados para aparecer. Quanto mais as pessoas clicam, curtem, comentam e compartilham, mais tráfego, poder e receita elas geram tanto a quem plantou como às redes sociais que veicularam as notícias. Esses sites também hospedam anúncios próprios, alguns aceitam assinaturas para enviar newsletters e “hiperlinkam” conteúdo similar de outros sites para engajar ainda mais a audiência, gerar mais tráfego, mais poder e mais receita a uma certa rede de mentiras.

Quem posta essas notícias e quais as reais intenções por trás delas? O The Guardian verdadeiro já havia publicado em agosto uma reportagem sobre como sites falsoshospedados até na Macedônia — com 150 domínios registrados em uma cidade apenas! — estavam lucrando em cima da chamada “Trumpmania”. O criador de um dos sites deu entrevista sob pseudônimo falando em mais de um milhão de acessos mensais, boa parte deles oriundos do Facebook, e explica que começou apenas copiando notícias de sites ultraconservadores americanos e mudando os títulos para serem mais apelativos e “clicáveis”. Depois, acabou sendo copiado por outros editores em seu país, provocando uma reação em cadeia e a geração de conteúdos falsos inéditos.

A Macedônia é um país bálcã pobre e de moeda fraca onde a remuneração por cliques paga em dólar via Google e Facebook se tornou um negócio lucrativo para um grupo de ‘millenials‘ que publicam usando pseudônimos e alimentam uma enorme audiência faminta pela destruição do viés político oponente. Não dá pra saber exatamente se as coisas começaram como um caça-níquel irresponsável, mas, enquanto as redações dos grandes jornais do mundo inteiro encolhem, demitem e cortam verbas, a receita obtida com os cliques nesses sites hiperpartidários de notícias falsas já fomenta uma cadeia de redatores freelancers remunerada pelos cliques nos posts (essa matéria da New York Magazine fala mais a respeito). A figura midiática onipresente de Trump, que, por meio de bordões polêmicos deu voz às maiorias silenciosas raivosas norte-americanas, era a cereja do bolo que faltava. Ame ou odeie: todos clicam para ler Trump.

A reação inicial de Mark Zuckerberg, criador do Facebook, foi de negação. A segunda, mais pianinho, seguiu o posicionamento oficial do Google, de fazer uma varredura para banir as notícias falsas dos serviços Facebook Ads e Google Adsense, o que, na prática, implica em não receber mais o dinheiro dos caluniadores. No entanto, nenhuma das duas empresas se comprometeu a impedir o tráfego orgânico de conteúdos falsos por seus servidores. Em sua conta oficial, Zuckerberg informou as medidas que serão adotadas, mas continuou afirmando que o percentual de “misinformation” é relativamente pequeno perto da grande quantidade de notícias que circulam livremente pelo Facebook. Segundo ele, suprimir o livre compartilhamento de ideias esbarra em questões técnicas e filosóficas.

Vale lembrar que o Facebook já se meteu em polêmicas por censurar imagens de pessoas nuas — mesmo que em obras de arte ou fotos jornalísticas históricas, além de ter retirado do ar páginas legítimas e perfis reais que receberam denúncias falsas por conteúdo ofensivo.

Os algoritmos: heróis ou vilões?

Estatísticas apontam que cada pessoa gasta em média 50 minutos por dia no Facebook — o número de usuários ativos passa de 1,65 bilhão no mundo. Faça as contas. Posicionar-se bem para obter cliques, gerar tráfego e repercutir no Facebook, em outras redes, como o Twitter, e melhorar o rankeamento nas buscas do Google tornou-se uma obsessão, um investimento mandatório para campanhas políticas, governos, celebridades, empresas e para o mercado de notícias. Inclua aí as falsas e as verdadeiras; as imparciais, as parciais e as hiperpartidárias.

Essas redes também guardam um infinito amontoado de dados a nosso respeito: está lá todo o nosso histórico de buscas, o rastreamento de nossa experiência como usuários, postagens, conversas, hábitos e opiniões. Há uma ciência nisso, e a corrida do momento, no mundo, é para obter, interpretar e refinar esses dados a fim de tirar diferentes proveitos deles. São inúmeras as questões de privacidade debatidas, mas a realidade é que estamos nas mãos deles.

O que muita gente ainda não sabe ou não entende é que as buscas no Google e nosso feed no Facebook são regidas por algoritmos que teoricamente facilitam nossa vida, priorizando as postagens das pessoas que mais gostamos de seguir e curtir ou nos enchendo de publicidade customizada de acordo com os dados e rastros que deixamos na rede. Notícias seguem a mesma lógica. Com as recentes mudanças aplicadas pela turma de Zuckerberg, as notícias que mais vemos são aquelas postadas por nossas conexões (entenda mais sobre a codependência entre imprensa e Facebook aqui).

Na prática, portanto, os algoritmos criam verdadeiras bolhas de informação que se retroalimentam com os mesmos pontos de vista. Assim, defensores de Trump passam a ver cada vez mais notícias positivas sobre Trump e negativas sobre Clinton, e vice-versa. No meu feed facebookiano, por exemplo, Marcelo Freixo (PSOL) e Fernando Haddad (PT) eram os vencedores absolutos das eleições para as prefeituras dos dois lados da ponte aérea na semana anterior ao pleito, embora a realidade distinta tenha deixado muita gente perplexa. Nossas bolhas, afinal, são meros retalhos da realidade, como bem descobriram esses grupos de eleitores norte-americanos Democratas e Republicanos que trocaram de feed uns com os outros temporariamente.

O que fica claro é que os algoritmos podem, se não induzir, pelo menos reforçar absurdamente os sintomas de polarização política e ideológica.

O viés de confirmação

O termo viés cognitivo vem da psicologia cognitivo-comportamental. Simplificando muito, esses vieses são “atalhos mentais”, pensamentos viciados na direção de um determinado julgamento sobre determinado assunto, algo que pode ser reforçado e validado pela opinião alheia. O pensamento de grupo e o viés de confirmação, tendência de interpretar e procurar informações para confirmar uma visão pré-estabelecida, são apenas alguns exemplos.

Mais cedo este ano, o comediante Andy Borowitz publicou uma sátira na revista The New Yorker sobre o caso dos humanos ultra-resistentes aos fatos. Eles estariam ameaçando a capacidade da Terra em sustentar a vida. Afinal, apesar da capacidade de receber e processar informações pela via da racionalidade, às vezes parece que as habilidades racionais humanas foram substituídas por uma raiva de urso. O presidente Barack Obama bateu nessa tecla em entrevista concedida essa semana à mesma New Yorker a reboque da “pós-verdade”, divulgada pelo Dicionário Oxford como a palavra do ano.

“A explicação de um físico ganhador do Prêmio Nobel para o aquecimento global no Facebook parece exatamente igual à negação do aquecimento global por alguém que receba dinheiro dos irmãos Koch. E a capacidade de disseminar desinformação, teorias da conspiração, de pintar a oposição de forma totalmente negativa sem nenhuma refutação — isso se acelerou de formas que polarizam fortemente o eleitorado e tornam mais difícil ter uma conversa”, disse Obama. Os irmãos Koch a que ele se refere são bilionários da indústria petrolífera, financiadores massivos de campanhas políticas conservadoras e fomentadores de redes como a Americans For Prosperity.

Ligue os pontos. No Brasil, com nossa deficiência educacional, fica mais fácil ainda trocar gato por lebre em informação e narrativas políticas. Perdendo a nossa capacidade de enxergar as zonas cinzas, reconhecer o diferente, as nuances, de fazer dialética, chegar a acordos, mudar de opinião e pensar fora da caixinha, o ódio contra um “inimigo comum, esteja ele na esquerda ou na direita, parece ser o caminho mais fácil.

Existem também os sites enviesados à direita e à esquerda, que não chegam a postar notícias falsas, mas que ganham cliques alimentando alienação e são bancados por partidos e organizações com interesses definidos. Multiplicam-se os movimentos que ninguém sabe direito de onde vieram, para onde vão e quem está por trás, com poder de manobra ampliado pelas redes sociais. Isso sem contar a antiga concentração da mídia de massas convencional nas mãos de poucas e poderosas famílias e uma relação sempre contraditória com a política, os governos e as entidades privadas que as sustentam.

Deu pra entender o tamanho do problema, certo? O Los Angeles Times, único grande jornal a publicar uma pesquisa eleitoral que apontava a vitória de Trump sobre Hillary, tentou quebrar o galho de quem quer ficar longe das notícias falsas nesse guia aqui. Como diz o bordão jornalístico daquele filme norte-americano, “boa noite & boa sorte!”

Renata D’Elia é jornalista, pesquisadora e consultora de comunicação. Já participou de coberturas esportivas, culturais e políticas para veículos do Brasil, China e EUA. Nascida e criada na Zona Norte de São Paulo, publicou em 2011 seu primeiro livro-reportagem ‘Os dentes da memória — Piva, Willer, Franceschi, Bicelli e uma trajetória paulista de poesia.

 

Foto: Mark Zuckerberg, por Jason McELweenie

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