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A vitória de Trump e a derrota das mulheres

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Quando viajei para os Estados Unidos para cobrir a eleição norte-americana, não passava pela minha cabeça (feminista) que um homem que tinha falado tantas grosserias sobre as mulheres pudesse ser eleito contra, justamente, a primeira mulher a concorrer por um grande partido. É claro que não era a mulher que as feministas, principalmente as jovens norte-americanas, gostariam como primeira representante na Casa Branca. Hillary Clinton era símbolo de muitas coisas que não agradam ao eleitor e sua agenda feminista — que sim, existiu, principalmente em seu papel como primeira-dama — é ofuscada sempre pelas denúncias sexuais contra seu marido, Bill. Mas foi Hillary quem colocou os direitos da mulher na agenda global de forma definitiva durante a 4ª Conferência para as Mulheres na ONU, em Pequim, em 1995.

Mesmo assim, mais de uma vez durante uma entrevista tive que interromper meu interlocutor para lembrar que não era ele, Bill, quem estava concorrendo, mas sua esposa, que, além de senadora, havia sido Secretária de Estado — e, mesmo com todas as críticas que possa vir a receber, era politicamente bem mais experiente que seu adversário. Também ouvi algumas vezes, inclusive de mulheres, que Hillary não havia sido uma “primeira-dama convencional”, em tom de crítica, claro, não de elogio. Sua ambição, característica tão apreciada entre seus pares masculinos, era um demérito.

Pouco antes da viagem, havia entrevistado uma das biógrafas de Trump e lhe perguntei, claro, sobre seu comportamento dominador sobre as mulheres que o cercam. Sua resposta foi didática: “Ele tem sempre que mostrar que mulheres são objetos. São como um novo carro, um anel de diamantes, tudo é transação, tudo é sobre conseguir algo, sobre ganhar ou perder, inclusive na sua relação com as mulheres.”

Hillary se aproveitou dessa imagem. Michelle Obama, a “primeira-dama convencional” e adorada pelos americanos, foi um grande reforço na reta final — hoje, Michelle tem mais aprovação que o marido, e muitos sonham com uma possível candidatura, o que ela desmente. Fui a um comício em Filadélfia, na Pensilvânia, e estava lá um dos grandes símbolos de poder da mulher norte-americana, Shonda Rhimes, roteirista de séries como ‘Scandal’ e ‘How to Get Away with Murder’. Vários especialistas citavam a força que o voto feminino teria nessa eleição. “Sim, elas podem”, escrevia eu, esperançosa, em uma matéria sobre a força desse eleitorado. Mas talvez tenha sido tarde demais.

Uma das cenas que mais me marcaram nessa cobertura foi o discurso de derrota de Hillary, adiado para o dia seguinte — uma demonstração de que nem ela esperava perder. Na plateia, centenas de mulheres choravam. A própria candidata, durona, embargou a voz ao falar diretamente a elas, num dos raros discursos em que vi na candidata paixão e verdade.

“A todas as mulheres, em especial as jovens, que depositaram a sua confiança em mim, quero dizer que nada me deixa mais orgulhosa que ser a campeã de vocês. Eu sei que não tenho os telhados de vidro mais resistentes, mas um dia alguém terá e mais cedo do que possamos pensar.”

É o que todas nós esperamos.

Marina Gonçalves é jornalista. 

 

Imagem: Hillary APAIC 2016.

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