cine

Mulheres negras no cinema em pauta

1 Flares 1 Flares ×

8ª Semana dos Realizadores reúne diretoras e pesquisadoras em debate após sessão com o curta ‘Kbela’, de Yasmin Thayná, e o longa ‘Amor maldito’, de Adélia Sampaio

 

Desde que Adélia Sampaio lançou ‘Amor maldito’, em 1984 — anunciado como filme pornô, já que os exibidores da época se negaram a projetar a fita sobre uma trágica história de amor lésbico, baseada numa história real —, nenhuma outra mulher negra dirigiu um longa-metragem de ficção no Brasil. Entretanto, escreveram, filmaram e produziram curtas prolificamente, sobretudo nos últimos seis anos.

É sobre essas ausências e presenças que fala a o programa ‘Por um cinema negro no feminino’, que acontece neste domingo, dia 27, como parte da mostra Com Mulheres, na 8ª Semana dos Realizadores, no Espaço Itaú de Cinema, em Botafogo. A partir de 16h, serão exibidos o longa de Adélia Sampaio, 73 anos, e o premiado curta ‘Kbela’ (2015), da cineasta Yasmin Thayná, de 24 — duas gerações aproximadas pela curadora Janaína de Oliveira, historiadora e pesquisadora do cinema negro. Após a sessão, elas se reúnem para uma conversa sobre a representatividade na indústria audiovisual.

A cineasta Yasmin Thayná, diretora do premiado curta 'Kbela'. Foto: Davi Marcos
A cineasta Yasmin Thayná, diretora do premiado curta ‘Kbela’. Foto: Davi Marcos

O assunto foi engatilhado por um questionamento de Yasmin no mesmo evento, no ano passado. Ela apresentava o seu filme em Cabo Verde quando foi realizada a mesa ‘Construção e desconstrução do feminino no cinema brasileiro’, na 7ª Semana dos Realizadores. Enviou uma carta para ser lida na ocasião, onde apontava que só havia uma mulher negra na discussão: Zua Mutange, atriz e diretora de movimento em ‘Kbela’.

“Não afirmo que é de responsabilidade da curadoria da Semana dos Realizadores o fato de não haver cineastas negras em evidência no cenário, mas é de nossa responsabilidade, nós que fazemos cinema, nos perguntarmos quantos negros e negras compõem os nossos sets de filmagem”, escreveu Yasmin. Para Janaína, a mesa desta edição é uma maneira de pensar em como resolver essa questão.

“Ela não estava dizendo para olhar para as fotos dos realizadores, mas que não podemos ignorar e usar esse discurso de neutralidade da arte. A gente sabe que não funciona assim. O cinema é uma indústria, um espaço, e as curadorias estão imersas nisso”, analisa. “Há um debate sobre estereótipo nos filmes que está mais vivo, mas acho que é
o momento de passar para trás das telas. Inclusive na curadoria, porque é um espaço fundamental de formação.”

A historiadora e pesquisadora Janaína Oliveira. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
A historiadora e pesquisadora Janaína Oliveira. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Trabalhando para que isso aconteça, há um intenso engajamento. No Afroflix, plataforma colaborativa online criada por Yasmin Thayná, o usuário pode acessar uma biblioteca de filmes que têm em comum a participação de
pessoas negras na produção. Na visão de Janaína, levando em conta critérios técnicos, estéticos e de alcance, o protagonismo desse movimento é feminino. “Está florescendo uma geração de realizadoras, que saiu das universidades, dos cursos de formação, e está produzindo. Mais do que isso, está se articulando. Há a configuração de uma rede feita por iniciativa delas.”

Adélia Sampaio está empolgada com essa efervescência: “Estou nesta luta há tempos, e de prontidão para participar da guerrilha de Thayná. Ando muito entusiasmada com essa juventude, que por certo nos trará um cinema com um olhar moderno e inquieto”, afirma a diretora. “Conheci em Porto Alegre uma galera que está disposta a
ir à luta para mostrar o que pensa com uma proposta negra, questionando desde a manga com leite até valores mais importantes.”

Adélia Sampaio, diretora de cinema negra pioneira no Brasil. Foto: reprodução
Adélia Sampaio, diretora de cinema negra pioneira no Brasil. Foto: reprodução

A pedido da Vertigem, Janaína Oliveira recomendou alguns curtas-metragens da nova geração de cineastas negras do país — lembrando que há muito mais. Para conhecer o Fórum Itinerante de Cinema Negro (FICINE), iniciativa da pesquisadora e de outros profissionais que realiza encontros para discutir e refletir sobre o cinemas negro na diáspora e no continente africano, acesse www.ficine.org.

Kbela (Yasmin Thayná, Brasil, 2015, 20’)
As minas do rap (Juliana Vicente,  Brasil, 2015, 13’)
Dia de Jerusa (Viviane Ferreira, Brasi, 2014,  20’)
Cinzas (Larissa Fulana de Tal, Brasil, 2015, 15min)
O dia que ele decidiu sair (Thamires Santos, Brasil, 2015, 17min)
Elekô (Coletivo Mulheres de Pedra, Brasil, 2015, 6 min)
Conflitos e abismos: a expressão da condição humana? (Everlane Moraes, Brasil,  2014, 15 min)
Aquém das nuvens (Renata Martins, Brasil, 2010, 18min)
Das raízes às pontas  (Flora Egécia, Brasil, 2016)

8ª Semana dos Realizadores
Espaço Itaú de Cinema
Praia de Botafogo, 316/sala 4 (2559-8750)
Até 30 de novembro de 2016
Horários: Consultar programação
Ingressos: R$ 6 (meia) e R$ 12
Lotação: 164 lugares

 

Clarissa Stycer é carioca e estuda jornalismo na UFRJ. Escreve sem parar desde que aprendeu. Ama literatura e é fanática por cinema. Quer conhecer o mundo. E-mail: cstycer@gmail.com

 

Foto do destaque: cena de ‘Kbela’, por Alile Dara Onawale/divulgação

1 Flares Twitter 0 Facebook 0 Pin It Share 1 1 Flares ×