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Ser estrangeira…

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Tem dias que bate tanta saudade… tanta que, talvez, só o Rubel seja capaz de entender. Do calor, da cerveja gelada na mureta da Urca, de semanalmente entrevistar um artista no Faro MPB, do meu afilhado, do meu apê decorado do meu jeito, dos cafés no Humaitá, dos amigos, de ir a festas com os amigos, de andar de bike, do Jardim Botânico, da Lapa, da minha família, dos meus alunos, de Volta Redonda, do mar, ahhh, o mar!

Aí eu penso que serão só dois anos e dois anos passam rápido. Lembro que Temer é presidente (há controvérsias mas…) e que Crivella é o novo prefeito da minha cidade e sigo em frente com medo de olhar pra trás. A Ana Lomelino me disse que em dois anos “só as crianças mudam, o resto continua igual.” E como a Ana é (mezzo) de outro planeta, ela deve estar certa porque pessoas sensíveis como ela sempre estão certas.

Morar em outro país por opção é privilégio mas não confunda privilégio e mar de rosas. Certos sentimentos existem e insistem em dizer que não vão desaparecer mesmo que você se mude pra Shangri-La ou pro Nepal. Há medos, fobias e angústias que nos acompanham sempre como as malas de rodinhas.

Ser estrangeira é equilibrar mais pratos que o normal. É conviver com expressões idiomáticas que não fazem o menor sentido. É não entender, achando que entendeu, o outro pelo olhar, tanto pro bem quanto pro mal. Mas estou em Portugal e por aqui, além de falarmos a mesma língua — fora as expressões idiomáticas — gostamos de música e literatura na mesma intensidade. E esta conexão me acalenta nos momentos mais difíceis.

Mas também há uma parte libertadora em estar estrangeira. A aproximação de pessoas que conhecíamos superficialmente, estreitando relações e criando novos laços é das coisas mais bonitas desta existência. É como nos dar uma segunda chance pra conhecer e conviver com pessoas que, outrora, deixamos passar sem que as percebêssemos.

Só estando estrangeira, me permiti conhecer novos rostos e torná-los lembranças. O Rio e seu microcosmo-zona-sul-carioca-provinciano, às vezes, nos insere numa bolha meio esfumaçada, deixando nossa visão turva e isso dificulta a aproximação, a integração e principalmente o convívio gerador de raízes.

Ser estrangeira na era Trump é pros corajosos. Viver duas vidas ao mesmo tempo — a real e aquela que criamos quando estamos morando, temporariamente, em outro país — dá uma sensação de superpoderes porque a maioria dos mortais vive apenas uma. Por um lado, as emoções são sempre duplas, e isso é bom. Por outro, a saudade também vem multiplicada, e isso não é bom. Não gosto de ser estrangeira, mas “é o que tem pra hoje”, então, sigo de mãos dadas com o tempo confiando nas palavras da Ana.

* dicas musicais: se você ainda não ouviu o disco “Mãeana”, da Ana Claudia Lomelino, não perca mais tempo. É uma mistura deliciosa, audaciosa e corajosa de Tropicalismo e Caravaggio. Aproveite e ouça também a canção “Quando bate aquela saudade”, do Rubel. Ana e Rubel são dois grandes representantes da nova safra de bons músicos da nossa MPB. Boa audição!

Fabiane Pereira é jornalista, trabalha com música e escreve.
Imagem: pexels.com
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