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Gilmore Girls: da Netflix ao Méier

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[ATENÇÃO, CONTÉM SPOILER]

Foram nove anos de saudades até que as ‘Gilmore Girls’ fizessem um retorno cheio de expectativas, no mês passado, em quatro novos episódios de uma hora e meia, produzidos pela Netflix. Mas e agora? ‘Gilmore Girls: Um ano para recordar’ terminou com um tremendo suspense e uma espécie de vazio tomou conta dos fãs novamente. Ninguém sabe se a criadora da série, Amy Sherman-Palladino, vai escrever a continuação dessa história ou se Lorelai, Rory e Emily vão ficar mesmo na memória e nas reprises. Só que não é ainda momento de se despedir. Embalados pelo revival, grupos de discussão no Whatsapp foram criados para falar sobre os destinos das personagens, entrevistas com os atores em ‘lives’ no Facebook movimentaram a rede e, no último sábado (dia 3), tivemos uma das mais lindas homenagens à série no Brasil: o evento ‘Star Hollows em quatro estações’, no qual as jornalistas e fãs Bruna Santamarina e Alessandra Monnerat recriaram, no Méier (Zona Norte do Rio), o clima da exótica cidadezinha americana.

Os personagens da série sempre abraçaram atividades coletivas em prol de um bem comum (como um inusitado campeonato de tricô para salvar a ponte da cidade), e, nesse mesmo clima de camaradagem, os participantes e simpatizantes do evento contribuíram no financiamento coletivo para que o projeto se tornasse possível e ajudaram a dupla de criadoras na decoração cheia de detalhes. Assim, a praça do Méier ficou dividida nas quatro estações do ano, com direito a réplica do boneco de neve da Björk, três trovadoras, placas estilizadas, foodtrucks — no de café e sanduíches, o vendedor estava fantasiado de Luke, embora nunca tivesse assistido à série e fosse bem mais sorridente do que o querido personagem —, entre outras recriações divertidas.

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A partir da esquerda: a professora Luísa Mello e a jornalista Mônica Chaves. Foto: Rachel Almeida

Toda essa paixão que uma série desperta em pessoas com trajetórias e pensamentos tão diferentes foi um dos temas abordados no debate ‘Feminismo e Representatividade em Gilmore Girls’, com a professora da PUC-Rio Luísa Melo, que falou sobre “Personagens e fãs: vidas compartilhadas”, e a jornalista Mônica Chaves, que fez uma apresentação a partir do tema “As garotas Gilmore em um mundo feminista: uma viagem no tempo”. Instaladas em cadeiras de praia, com boias e bolas ao redor, remetendo ao episódio verão, elas falaram da dor que é perder um personagem, devido à intimidade que se cria com ele no decorrer de uma série, e da identificação (ou revolta) com personagens tão complexas e cheia de nuances.

Mônica resgatou a história do feminismo a partir da história de quatro personagens. A primeira delas foi a Lorelai avó, que viveu a primeira onda do feminismo nos anos 20, quando as mulheres conquistaram o direito ao voto nos Estados Unidos. Um movimento que incluiu nomes como Lucretia Mott, Lucy Stone, Elizabeth Cady Stanton e Susan B. Anthony. Emily, a segunda personagem analisada, foi de uma geração de transição e perdeu o bonde do feminismo. Apesar de ter ido à universidade, fazia parte da elite conservadora dos anos 60 com energia voltada para o casamento e para o patriotismo representado pelo grupo das Filhas da Revolução Americana.

Lorelai foi cria da contracultura, tem o espírito de seu tempo e cresceu seguindo o clima de liberdade sexual e igualdade entre os sexos. Nessa época, como Mônica contou na palestra, houve um grande aumento da quantidade de alimentos industrializados, porque as mulheres passaram a trabalhar fora e não mais se dedicar às tarefas domésticas. Lorelai conseguiu ter sua filha e sair de casa porque a sociedade já estava aberta a esse tipo de atitude. Ela sempre fez questão de ser e se mostrar uma mulher independente, que não precisa da proteção de ninguém. Por isso, é tão emocionante e emblemática no revival a cena na colina em que ela relembra o episódio em que foi protegida e verdadeiramente amada pelo pai — quando, depois do término de um namoro na adolescência, encontra Richard no shopping e ele a leva ao cinema (“foi o melhor aniversário da minha vida”). Uma situação que ela nunca havia contado a ninguém e que revela o quanto, de fato, ela precisa de proteção. Por fim, Rory faz parte da terceira onda do feminismo, que já não é tão rebelde como a geração de sua mãe e abre espaço para outros tipos de discussões, como a representatividade de raças.

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A estudante Isabelle Freire tem o coreto da série tatuado. Foto: Rachel Almeida

 

Encontro de emoções

‘Star Hollows em quatro’ estações recebeu gente de todas as idades, entre elas a estudante Isabella Freire, de 21 anos, moradora do Méier, que tem tatuado no braço esquerdo o coreto de Stars Hollow. “As pessoas acham que é o coreto daqui, da praça Jardim do Méier. Sempre tenho que explicar que não tem nada a ver”, contou ela, que, aos 15 anos, começou a alugar na locadora todas as temporadas em DVD para assistir depois do colégio com a mãe, que a criou praticamente sozinha. Na página do evento, várias histórias e fotos divertidas e emocionantes, como a de Mary Marques: “Como a vida é… Do lado de um lugar que me trouxe tanta dor neste ano (perdi minha segunda “mãe”), hoje volto ali para celebrar a série que mudou a minha vida há 11 anos. Obrigada!”

O evento contou também com sorteio de dois livros escritos pela atriz Lauren Graham e terminou com um quiz em que dez competidores disputaram prêmios num concurso de perguntas sobre a série. Responsável pela criação das perguntas, a jornalista Alessandra Monnerat não facilitou não — uma delas era a seguinte: “Qual a população de Stars Hollow?” A título de curiosidade, a resposta é 9.973 pessoas, entre eles Lorelai, Rory, Luke, Sookie, Lane, Babete, Miss Patty e outros personagens inesquecíveis, que mostraram com sensibilidade e emoção as complexidades das relações familiares.

Rachel Almeida é jornalista especializada em cultura, assessora de comunicação e viciada em seriados.
Imagem do destaque: Lorelai (Lauren Graham) e Rory (Alexis Bledel) nos episódios de ‘Gilmore Girl’ da Netflix. Foto: divulgação
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