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Três futuros segundo o Wired Festival Brasil

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O Wired Festival aconteceu pela primeira vez no Brasil, nos dias 2 e 3 de dezembro, no Armazém da Utopia, no Rio de Janeiro. A edição, que recebeu o subtítulo de “o futuro muito além da tecnologia”, prometeu “reunir algumas das mentes mais disruptivas e visionárias do mundo para discutir ideias que vão mudar sua vida”. Temas como inteligência artificial, empreendedorismo e cidadania digital fizeram parte da programação de palestras e debates. A Vertigem esteve lá para conferir algumas dessas visões de futuro que os maiores conferencistas do mundo estão propagando por aí.

A CIDADE DO FUTURO CONSTRUÍDA PARA NÓS COM MUITA TECNOLOGIA E FAÇA-VOCÊ-MESMO TURBINADO

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Peter Hirshberg, mago do marketing e da filosofia ‘maker’. Foto: divulgação

QUEM: Peter Hirshberg é especialista em marketing, executivo do Vale do Silício, fundador e presidente da empresa de marketing digital Re:imagine Group, e tem no currículo nove anos de experiência na Apple onde atuou, durante os anos 90, como diretor de Marketing, levando-a a um bilhão de dólares de receita anual, e contribuindo para seu ingresso na seara do serviço online.

O QUÊ: A fala de Hirshberg girou em torno de duas grandes questões: como as cidades urbanas e a internet constituem um “convite à inovação” e como o futuro só pode ser construído colaborativamente. No coração da apresentação, foram abordados todos os mandamentos básicos da cultura ‘maker’, tocando em aspectos que foram da democratização de ferramentas como o Arduino ao crescimento das feiras ‘maker’, que chegaram a movimentar 100 mil pessoas este ano contra cerca de 40 mil no ano passado, nos Estados Unidos. Nesse novo mundo imaginado e mapeado por Hirshberg, a produção passa a ser local, artesanal, com muita atenção à prototipagem para evitar desperdício de recursos, tempo e ideias, deslocando a manufatura para o papel de serviço dentro da cadeia de suprimentos, com destaque para a customização em massa, já que nossas necessidades não param de ficar cada vez mais específicas. Uma das frases-mestras de Hirshberg foi: “Precisamos de um futuro feito para nós, não, por nós”. O especialista em marketing indicou duas leituras: “The Death and Life Of Great American Cities”, escrito em 1961 por Jane Jacobs, e “Maker City: A Practical Guide for Reinventing American Cities”, escrito por ele e outros dois autores. Para Hirshberg, a reconstrução das cidades e a consequente redefinição da urbanidade no século 21 dependem da construção de redes fortes de pessoas, que usem o imenso banco de dados em que se transformou a internet para detectar as necessidades dos cidadãos e que mudanças precisam ser feitas em função destas, e para angariar pistas sobre como fazê-las. O especialista e empreendedor também apontou a importância de novos contextos de aprendizado, deixando a escola tradicional no passado (foi particularmente interessante o exemplo de uma experiência em Bogotá, Bolívia, em que ônibus escolares foram transformados em salas de aula). Para ele, um dos maiores desafios atuais é “tornar a escola mais legal que o que acontece dentro de um ‘smartphone'”, chamando atenção para o fato de que, hoje, se aprende as coisas fazendo-as. Depois de um ciclo em que o progresso significou “mais, maior e mais barato”, um mundo colaborativo, desenvolvido em torno da cultura ‘maker’, representa “a maior oportunidade para a educação em toda a história da Humanidade”, nas palavras de Peter Hirshberg, que complementou sua declaração otimista, afirmando que “todos nós podemos resolver grandes problemas” e que “muitos estudantes sabem mais, hoje, que agentes do governo”. A plateia do Wired Festival pareceu concordar.

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O futuro segundo Peter Hirshberg no Wired Festival Brasil. Foto: Leïlah Accioly

COMO: Uma palestra bem-ilustrada, recorrendo a muitos vídeos e acervos de imagens. Um palestrante sério, compenetrado, que não desvia do roteiro, que lê o tempo todo sem a preocupação de dar show. “O futuro é uma marca”, afirma Hirshberg do alto de sua expertise em marketing, enquanto mostra o futuro que era vendido à sociedade ocidental em 1939, quando o mundo estava às portas da Segunda Guerra Mundial. Em seguida, entram em cena imagens de Brasília, segundo ele, “o maior exemplo vivo de futuro do passado”. Em outro momento, Hirshberg espanta a plateia com o cartaz de uma curiosa feira ‘maker’, “America’s Making Exposition”, que tinha tudo para ser só mais uma em 2016, mas que é de 1921, dando a entender que o futuro também pode ser um lugar habitado pelos visionários. Um exemplo de lugar do futuro, aliás, é a microfábrica da GE and Local Motors, FirstBuild, um espaço de cocriação aberto em 2014, em parceria com a MakerBot, onde conceitos à margem do ‘mainstream’ encontram possibilidades de concretização graças à colaboração entre designers e engenheiros. Ou mais romanticamente falando, uma verdadeira “escola para aprendizes da cultura ‘maker'”, nas palavras do palestrante. Hirshberg exalta o experimento baseado na influência da comunidade, que leva a produção em pequena escala à venda em quantidade limitada no site da FirstBuild. Os utensílios com apelo mais abrangente avançam ainda mais na carreira, podendo ser produzidos em massa pela GE. Esse complexo de inovação, Hirshberg nos explica, surgiu numa manufatura que estava desativada, no Brooklyn (Nova Iorque), que, após a Segunda Guerra, viveu seu auge com um exército de 70 mil operários, chegou a zero em tempos de vacas magras, e agora é ocupada por 20 mil aprendizes que fazem a GE economizar milhões de dólares nos lançamentos de novos produtos. Um exemplo de como o futuro pode nascer até no ambiente mais passadista das fábricas. O futuro é uma marca, uma fábrica ou uma escola, afinal?

O FUTURO DA ARQUITETURA NO LUXO DA PERSONALIZAÇÃO

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Eric Carlson, arquiteto do luxo transparente. Foto: divulgação

QUEM: Eric Carlson, norte-americano de Michigan, criou o estúdio de arquitetura, CARBONDALE, em Paris, em 2004. Antes disso, cofundou e dirigiu o Departamento de Arquitetura da Louis Vuitton e colaborou com os escritórios dos renomados arquitetos Rem Koolhas, Oscar Tusquets e Mark Mack. Seus trabalhos mais recentes incluem o ‘showroom’ da BMW na Avenue George V em Paris, e o Museu 360 (Tag Heuer), na Suíça, e o prédio da Louis Vuitton no Champs Elysées.

O QUÊ: Carlson começa sua fala indo direto ao ponto. “Existem duas categorias de luxo: o absoluto (carros de ponta, caviar, diamante) e o relativo, que trata da personalização, ou seja, transformar alguma coisa sob medida para alguém em vez de desenhar algo aplicável a todos”. Num mundo hipermassificado, em que quase tudo é ‘made in China’, essa espécie de alta-costura da arquitetura e design de interiores expressa um desejo por diferenciação, paradoxalmente, cada vez mais disseminado entre os meros mortais. Não que Carlson trabalhe exatamente para meros mortais. A arquitetura de excelência artesanal e obsessivo detalhamento, utilizando materiais até simples, mas de forma inusitada, é desenvolvida para algumas das maiores marcas de luxo do mundo. No Brasil, Carlson é responsável pelo térreo do shopping Iguatemi, em São Paulo, referência de elegância acessível que convida as pessoas a conviver, evidenciando o quanto a arquitetura se tornou mais uma ferramenta para as marcas neste início de século. O arquiteto traçou um panorama da evolução das marcas, mostrando como a ‘boutique’ deu um salto para a ‘maison’ e como, hoje, uma das maiores ambições de uma ‘maison’ é realizar o sonho do museu próprio. “Marcas de luxo como Mercedez Benz e Salvatore Ferragamo querem estar associadas a valores culturais”, afirmou. Um dos maiores sinais dos novos tempos no mercado de alto luxo é uma certa transparência arquitetônica, que se opõe orgulhosamente ao modelo Tiffany’s, com fachada de pedra excessivamente austera. Como explicou Carlson, a mensagem que a construção dá às pessoas comuns é “fique longe!” No espectro contrário, o novo luxo aproxima-se do público comum, talvez porque este nunca tenha sido tão exposto à alta performance das marcas de primeiríssima linha, graças ao marketing onipresente na era digital. São exemplos desse conceito as já icônicas lojas da Louis Vuitton na Coréia e no Japão, em que, segundo Carlson, “uma nuvem ilusória torna-se permeável”. Estar dentro de um shopping center, no conforto do ar-condicionado, e poder usufruir do lado de fora, especialmente se o cenário natural incluir sol de verão e árvores, virou um signo de luxo, por exemplo. “O design deve basear-se em ideias, e não, em materiais, embora estes possam reforçá-las”, apontou Carlson, que abordou a tendência da customização também no departamento de materiais para interiores e exteriores, ressaltando a importância de um novo nicho de designers, os “especialistas digitais”. Esses novos agentes da estética trabalham lado a lado com arquitetos, construindo interfaces em vez de paredes, conectando iluminação, telas e impressão 3D, entre tantas outras técnicas que fazem de um prédio uma obra de arte visual afinada com o melhor da tecnologia disponível hoje.

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Arquitetura de luxo, arquitetura ilusionista: projeto assinado pela Carbondale. Foto: divulgação

COMO: Eric Carlson é um anglo-saxão discreto, de gestos comedidos, registro de voz muito baixo e grave, quase não querendo ser ouvido. Quando o arquiteto avisou que sua palestra seria sobre a segunda categoria existente de luxo — o relativo — parecia que iríamos enveredar por um terreno mais filosófico, com explicações a respeito de um luxo artesanal, personalizado, que leva mais em conta o valor emocional da experiência que o poder de compra do adquirente. Esse luxo século 21 muitas vezes sequer pode ser levado para casa. Mas, não. Carlson fez do seu espaço no Wired Festival um desfile de seu régio portfólio diante de olhos abobados com tanto refinamento visual. Seu estúdio, CARBONDALE, tem como filosofia basear o design numa pesquisa incansável do excepcional. Não deixa de tratar-se de um ‘case’ de personalização, já que seus clientes têm um papel vital na construção desse luxo que parece estar cada vez mais disposto a ser visível para pessoas que não podem desfrutar dele intimamente. Pelo menos, o farto acervo de imagens de Carlson logra sucesso em provar que o luxo está mesmo é na vitrine, na passarela a céu aberto das cidades, deslocando-se de trás dos arbustos parisienses para se fazer presente cotidianamente, oferecendo até mesmo museus, em que o deleite visual ‘linka’ marcas-fetiche que ditam o estilo ocidental urbano a obras de arte nascidas no meio digital. Uma promiscuidade só. A igreja do dinheiro detendo a arte.

UM MARAVILHOSO FUTURO DE CRIADORES EM VEZ DE COMPETIDORES

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Magnus Lindkvist, futurólogo-performer. Foto: divulgação

QUEM: Magnus Lindkvist é sueco, futurólogo, escritor, Mestre em Negócios e Economia pela Stockholm School of Economics e tem uma graduação em produção de cinema da UCLA. Essa mistura dá a ele a capacidade de unir ‘storytelling’ hollywoodiano a gráficos e números. Seu mais recente livro, ‘Minifesto’, publicado este ano, conta por que ideias pequenas fazem a diferença num mundo de narrativas grandiosas.

O QUÊ: A filosofia de Magnus Lindkvist é centrada na oposição criação x competição. Para ele, você nunca pode ter ambos ao mesmo tempo, e o mundo recompensa os competidores e pune os criadores. A primeira pergunta que ele faz é “de onde vem o futuro?” A resposta é dada ao longo de toda a sua exposição, por meio de exemplos de criadores que, um dia, tiveram suas ideias desconsideradas, ignoradas, ridicularizadas ou simplesmente postas em dúvida, e que, hoje, já viraram senso comum. É o caso da invenção do mandamento número um de lavar as mãos para os médicos, que mataram muitos pacientes de septicemia, até o início do século 20, por não saberem que a assepsia de suas mãos era uma providência fundamental nos trâmites cirúrgicos. Para Lindkvist, o futuro começa em qualquer lugar, de qualquer forma possível e imaginável. Tudo que ele pede é que não desistamos de nossas ideias, principalmente quando elas parecerem estúpidas. “Nós não precisamos de ‘smartphones’, precisamos de ‘stupidphones’, nós não precisamos de inteligência artificial, mas de estupidez artificial. Tudo que só nós podemos ser nesta vida, ao contrário dos robôs e máquinas dos quais estamos com tanto medo, é estúpidos”, disse o palestrante, apelando para a graça da falha na natureza humana. “O futuro começa na solidão e na estupidez”, pontuou. Sua receita para que sejamos criadores em vez de competidores é simples: olhar para fora; experimentar; ser paciente. “Se você quer inovar, tem que estar disposto a ser incompreendido por muito tempo e ouvir que sua ideia é ruim”. Parecendo estar mais afim de radiografar o presente que possíveis futuros, Lindkvist falou da “hotelling’s law”, o postulado econômico da “diferenciação mínima”, ou seja, “faça seu produto o mais parecido possível com o do seu concorrente”. O verso eternizado por Nancy Sinatra em “These Boots Are Made For Walking”, canção pop de 1966, “you keep saming when you ought to be changing” (“você fica sempre fazendo a mesma coisa quando deveria estar mudando”) tocou alto no armazém da zona portuária do Rio de Janeiro, ilustrando a tese de Lindkvist de que o futuro só pode ser fruto de inovação. Mas a inovação parece ter virado “o de sempre”, já que, enquanto uma ideia nova era necessária a cada 300 anos, segundo o futurólogo, hoje, é preciso ter uma ideia nova toda semana.

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Capa do mais recente livro de Magnus Lindkvist

COMO: Palestra motivacional que encerrou a programação do Wired Festival parecia bis em show de rock. O performático — pra dizer o mínimo — Magnus Lindkvist hipnotizou a plateia, fez todo mundo rir, se contorcer na cadeira e dar urros de espanto. Só falta de talento musical poderia explicar Lindkvist não ser um rockstar. Exemplos vindos do universo da música pop não faltaram, com direito a trechos de canções tocados muito mas muito alto. Totalmente comprometido com o palco, Magnus Lindkvist vai de uma ponta à outra, faz caras e bocas, dialoga com espectadores, faz piadinhas com eles, em suma, comanda uma performance, em que, mesmo com tanta firula, não se perde a validade de algumas coisas que diz, por mais autoajuda que muitas delas soem. Com a ‘expertise’ de cerca de mil discursos na última década para plateias tão díspares quanto de CEOs de primeiro escalão, e servidores civis no Oriente Médio, é difícil ficar imune às palavras de ordem que saem da boca de Lindkvist com tanta veemência. Reage-se muito ao que ele diz, afinal, suas palavras são como choques de incentivo, mas a impressão que se tem depois é que todo este efusivo encorajamento para a criação e a inovação mais se parece com uma injeção de ânimo para profissionais desesperados para inventar ‘the next big thing’ ou receber algum reconhecimento, que com a prescrição de um tratamento passível de funcionar de fato. O futuro, estranhamente, também fica de fora dessa palestra a que o Wired Festival Brasil assistiu, já que o sueco fala mais do passado e de quem chegou “lá”, na tão almejada terra do sucesso, que no que ele prevê para os próximos tempos.

Leïlah Accioly é escritora, artista visual, designer de interiores e está louca pra que o século 21 comece. Email: leilah.accioly@revistavertigem.com

Imagem da capa por Leïlah Accioly

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