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Gutural, mas sem perder a ternura

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Roqueira de Brasília surpreende com vocal pouco comum entre mulheres, que mistura notas suaves à rouquidão agressiva típica do metal

Doces, as notas escorrem da garganta da morena e suavemente regam a plateia. De repente, a voz de anjo se transforma na de um ‘capeta’ que jorra sua rouquidão agressiva sobre o público, como a lava de um vulcão. O estilo gutural — típico do rock extremamente pesado — não é nada comum entre mulheres. Mas foi disposta a encarar o preconceito que a brasiliense Nájila Cristina, 31 anos, o adotou desde que começou a cantar, na adolescência.

Recém-contratada pelo grupo Duplo Destino, que passeia entre o punk e o metal, Nájila tornou-se mais conhecida na cena roqueira do Distrito Federal por seus seis anos ao microfone da Arandu Arakuaa — a banda heavy com letras na língua indígena tupi-guarani que, por sua originalidade, virou tema de reportagem da BBC Brasil, mês passado. “Tenho um carinho muito grande pela Arandu. Foi um projeto empolgante do primeiro ao último dia”, resume a vocalista, que prefere não dar detalhes sobre sua saída da banda. Coisas do rock’n’roll…

Nájila e sua nova banda, Duplo Destino. Foto: divulgação
Nájila e sua nova banda, Duplo Destino. Foto: divulgação

A presença de mulheres no heavy metal não é novidade, especialmente nos vocais. Grande parte, porém, se especializa no canto limpo, flertando com o lírico. Poucas são as que deixam o ‘mi-mi-mi’ de lado e arriscam a técnica gutural, que produz um som rouco, profundo.

Aos 12 anos, Nájila — filha de uma dona de casa mineira com um marceneiro do Tocantins — começou a ouvir os discos do pai, especialmente os de Pink Floyd, Queen, Legião Urbana e Raul Seixas. Dois anos mais tarde, a coisa ficou mais séria. “Enveredei pelo metal extremo. Foi quando comecei a achar interessante o vocal mais agressivo do death e do thrash metal”, conta a fã de bandas estrangeiras como Metallica, Slayer e Canibal Corpse, além das nacionais Sepultura, Krisiun, Korzus e Sarcófago.

Sinal da cruz

Nessa época, não foram poucas as vezes em que, pelas ruas de Brasília, “senhoras de igreja” faziam o sinal da cruz e crianças arregalavam os olhos ao passarem por Nájila. “Acho que todo roqueiro já teve experiência parecida, não é? Eu não queria causar essa reação. Eu me vestia como me sentia bem… Usava coturno de soldado, saia longa preta, blusa preta e um cinto enfeitado com projéteis de armas”, lembra a cantora, que atualmente cumpre comportado expediente numa empresa como arquivista. “Viver de música é complicado, sabe?”, justifica ela, que também é formada em Gestão Ambiental, pelo Sesc, e em Logística, pelo Senac.

Antes da Duplo Destino e da Arandu Arakuaa, Nájila tentou ser cantora em outra banda de rock, mas não passou dos ensaios. “Eu era casada nessa época e tive, digamos assim, incentivos negativos. Tempos depois, me separei e resolvi tentar cantar de novo”, conta a roqueira, que tem dois filhos, de 10 e 8 anos, com quem pretende voltar a morar assim que “ajeitar” o apartamento que recebeu do programa Minha Casa Minha Vida, do Governo Federal. “Por enquanto, o mais velho está com o pai e a avó e o mais novo, com a minha mãe”, diz.

O líder da Arandu Arakuaa, Zândhio Aquino, encontrou Nájila através de um anúncio que ela postou na internet, em 2010, onde informava ser capaz de performances em qualquer estilo do rock pesado — leia-se death, thrash e heavy metal. “Só soube que era para cantar em tupi quando encontrei o Zândhio. Ele não me disse nada pelo telefone. Sabe quando alguém te mostra uma coisa e você pensa: ‘Eu nasci para isso’? Foi o que aconteceu. Eu dizia: ‘Nossa, cara, deixa eu fazer isso.’ Sempre admirei as culturas nativas, de todos os países”, relembra a vocalista.

Para interpretar as letras da Arandu Arakuaa (‘Saber do Cosmos’, em tupi antigo), que abordam o dia a dia, os rituais e as lutas dos povos indígenas brasileiros, Nájila recebia orientações de Zândhio sobre o significado e a pronúncia das palavras.

Das aldeias para a cidade grande

Logo que saiu da Arandu, Nájila foi convidada pelo guitarrista Agnaldo Tadeu a integrar a Duplo Destino. “Gosto das letras. São bem consistentes e críticas sobre o sistema, a violência…”, elogia a cantora. O grupo se formou em meados dos anos 90, quando Brasília já era referência para o rock nacional. Afinal, foi o berço, nos anos 80, de bandas com letras fortíssimas, que até hoje retratam o Brasil, como Legião Urbana, Plebe Rude e Capital Inicial.

“Os roqueiros são revolucionários, são mais críticos em relação à realidade e à robotização da nossa rotina”, afirma Nájila, empolgada com os próximos shows da Duplo Destino, que também conta com Edney Menezes (baixo) e Renato Ismael (bateria). Serão duas apresentações no mesmo dia (este sábado, 10 de dezembro), no Distrito Federal: a primeira em Ceilândia, na edição 2016 do Ferrock Ecologia, a partir das 14h; e outra em Santa Maria, na segunda edição do Santa Rock, às 18h.

Fôlego é o que não falta!

Fernanda Portugal é mãe do Arthur há nove anos, jornalista há uns 20 e roqueira de nascença. E-mail para: contato@revistavertigem.com

Imagem do destaque: Nájila no clipe “Aruanãs”, do Arandu Arakuaa

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