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Quebra-cabeças quebra-barracos

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Vou de táxi, cê sabe

Tava morrendo

De– –

Em novembro passado, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes declarou que abandonaria o Rio para lecionar na universidade de Columbia, Nova York, em 2017; só para então, nesta semana, contrariar o anúncio oficial e negar o legado de sua sabedoria a seus ex-futuros alunos da universidade gringa.

No rastro dessa e de outras bravatas do político, veio o bloqueio de seus bens pela Justiça. Sim, às vezes ela se faz presente. Olhei para os mais recentes revezes na carreira política de Eduardo Paes como quem observa peças que, antes, pareciam aleatórias ou desconectadas, e vi o quebra-cabeças formar uma imagem – feia, torta, mas que de certa forma registra uma jornada aos trancos e barrancos até o fim, até o fundo do Rio de Janeiro. Achei o momento oportuno para juntar e contar essas histórias.

— O senhor é bonito…

Senhoras e senhoras: conheçam minha septuagenária mamãe. Ela disse isso ao taxista, em poucos minutos de corrida. Eu me encolhi, ainda mais mortificada. Desde o primeiro instante no carro, o motorista puxava papo sem parar. Eu me limitava a enfiar olhos e dedos no celular, respondendo e-mails urgentes-urgentes-urgentes (tudo é urgente), enquanto os dois tocavam a conversa feito velhos amigos, falando sobre a segunda-feira no Samba do Trabalhador, do Moacyr Luz, comidas das baianas do Largo da Carioca, a beleza dos jardins do Museu da República, sei lá o que mais. A voz dele me incomodava, eu não sabia por quê.

Eu segui viagem no banco atrás dele; a veneranda aposentada, à minha direita, podendo, assim, observar o rosto do motorista de relance para soltar aquela pérola que foi ‘O sr. é bonito…’ (teóricos poderiam afirmar ser este um sintoma do chamado Dedo-Podre Pra Homem que corre na família, que esperamos conseguir erradicar ainda nesta geração).

Eu tinha chamado aquele carro através do aplicativo 99 Táxi para levar a-senhora-minha-mãe até um shopping da zona sul num domingo, dia 27 de setembro de 2015. Data de um eclipse lunar total — penumbra que eu esperava ver somente lá pelas nove e meia da noite, mas acabou encobrindo tudo muito antes, ainda de dia.

— Ele parece o Eduardo Paes, filha! — A minha mãe falou pra mim. Sem tirar os olhos da tela, digitando uma mensagem, soltei:

— Se for ele, abre a bolsa e me passa o meu taser. (Eu odeio carregar bolsa, ela adora, fazer o quê? De todo modo era só uma piada, porque há muito tempo que eu não sei onde larguei o meu taser. Provavelmente embaixo de alguma almofada do sofá de casa).

À altura da Praia de Botafogo, a conversa dos dois continuava firme e forte, passando por carnaval, a Portela, cerveja — a voz do cara me incomodando mais e mais —, segurança pública, Olimpíadas, eleições e — – epa.

Eu me desprendi do celular, notando o que havia de tão incômodo na voz do motorista. O jeito de ele falar também soava como o do político carioca cujos feitos o taxista enaltecia com pouca sutileza.  Notei também que, por detrás do apoio de cabeça do banco do motorista e do banco do carona, havia, em cada um, uma luz vermelha dissimulada sob o tecido preto que cobria o couro do carro. Toquei com a palma da mão a luz vermelha a minha frente: quente.

Era uma câmera. Era o Eduardo Paes ao volante, éramos duas cidadãs sendo filmadas e gravadas a mando dele sem que tivessem nos pedido nossa autorização.

— Eu votei em você!

Mãe, se você não fosse tão absolutamente foda em todos os outros departamentos, eu nunca seria capaz de lhe perdoar a sua consistente cegueira política. Quando a gente discute, 90% das vezes política é o problema, os outros 10% ficam por conta de seu terrível gosto para seriados de TV.

Então, começamos a discutir. Afinal, o prefeito tinha me sequestrado de táxi, usando a identidade e a foto de outro motorista.

*

A temperatura subiu no carro. Eu, citando fatos; o prefeito ao volante tentando minimizá-los: a falência das UPPs, a ferida aberta da Segurança Pública em nossa cidade, a truculência da polícia — que inclusive distribuíra bombas, balas e cacetadas em manifestações contra o governo do Rio de Janeiro.

A mesma polícia que humilhou e torturou no Fallet, que estuprou no Jacarezinho, sumiu com Amarildo e tantos outros, e que não dá sinal de mudança. Nada disso pode ser tratado levianamente, independentemente de ter ocorrido antes ou depois dessa viagem de carro. Eduardo Paes representa tudo isso, em qualquer linha do tempo.

Mas naquele dia de 2015, no táxi, o prefeito — o mesmo gênio responsável pela ciclovia da Avenida Niemeyer, que, no início deste ano, desabou, deixando pelo menos dois mortos — insistia em bancar o carioca bonachão e boa-gente, comentando que havia feito muita coisa bacana pelo Rio.

Rebati com algo nesta linha:

— Sim, e você é reconhecido por isso: até os seus assessores são homenageados no ‘Tropa de Elite 2’.

Onde eu disse assessores, leiam-se milicianos. Eduardo riu, fazendo pose ou tomando como elogio o que eu tinha jogado como ironia amarga.

*

Me bateu o enjoo: eu estava, contra a minha vontade, num carro guiado por um político que reuniu-se com milicianos, que tem mãos vermelhas e pegajosas, perigosas, que notoriamente embolsa dinheiro sujo, que contribuiu consistentemente para fazer do Rio de Janeiro uma pocilga.

O mesmo homem que, cerca de dois anos antes, atingiu com um soco num restaurante um cidadão — nosso conhecido Botika, escritor, poeta. Não coincidentemente, o mesmo que, na cerimônia de entrega das chaves de um apartamento cedido pela prefeitura a uma jovem, assim portou-se:

Se não tiver saco de clicar no vídeo, transcrevo abaixo o que o prefeito disse à moça: “Vai trepar muito nesse quartinho”; “Vai trazer muito namorado pra cá”; “Rita, faz muito sexo aqui”. Ainda da matéria que saiu no jornal à época: “Ela disse que vai fazer muito canguru perneta aqui. Tá liberado, hein”, diz o prefeito. Nesse momento, a mulher se afasta, dizendo que vai trancar a porta de casa. Como se entendesse a gravidade do comportamento, Paes diz para o cinegrafista: “Corta, hein”.

*

“Eu dialogo com a cidade”, afirmou Paes, em 2012, em debate com Marcelo Freixo:

Eduardo Paes dialogou e negociou com bandidos, mas comigo, não. Não me avisou, não me perguntou se eu queria entrar em um carro dirigido por um defensor de milícias, um desgovernante que — àquela época — já sabíamos ser, no mínimo, corrupto.

‘MÃE E FILHA BRIGAM NO BANCO DE TRÁS’

O que o Paes chamou de briga entre mãe e filha nesta matéria foi a minha reação ao ter certeza de que era ele ao volante, meu choque diante de uma situação abusiva. Foi a sensação de que eu era refém dele, seguida por carros com seguranças armados, filmada e com minhas falas gravadas sem que minha autorização tenha sido pedida.

Chegamos ao tal do shopping. Eu peguei meu celular e coloquei na cara de Paes, filmando-o também:

— Prefeito, o que é que aconteceu?

— Ah, é o meu jeito, gosto de sair por aí, ouvir as pessoas, hehe…

— Não. O que aconteceu com a sua administração?

Infelizmente eu não tenho mais esse vídeo para inserir aqui. Meu novo celular não se conecta a nuvens wébicas, não faz esses malabarismos, não recupera as cenas que eu gravei naquele dia. Depois que me roubaram o terceiro aparelho em sequência no Rio de Janeiro, em menos de dois anos, optei por não substituir o último por novo celular de ponta. Mas roubo de celular é o de menos nesta cidade. A gente até agradece aos Orixás quando levam apenas um espertofone caro.

*

ALUCINANDO COM FUZIS

Fiquei tensa desse jeito, também, quando entrei sozinha certa noite, em 2010, no quartel de um batalhão especial da polícia no Rio para entrevistar alguns de seus oficiais. Engraçado (not) como o táxi de Paes e esse evento se conectam na minha cabeça. Passei cerca de três horas na sede do batalhão gravando entrevistas com os “homens de preto”, fardados e armados, numa saleta do último andar do prédio, isolada, atrás do vestiário.

Ouvi histórias de arrepiar, que poderiam ter saído de delírios de um quadro clínico de Transtorno Pós-Traumático. Um oficial jovem contou ter visto o espírito de um colega oficial morto salvando-o dos tiros de bandidos em plena ação em uma comunidade — segundo o rapaz, chegou até a conversar com o egun, para citar apenas um relato.

Ao final da entrevista, como os oficiais com quem conversei eram todos religiosos, eles me surpreenderam fazendo um círculo em torno de mim: eu, sentada numa cadeira, agarrada ao celular-gravador, bloquinho e caneta; eles, de pé. Então, colocaram suas mãos sobre a minha cabeça e começaram a falar todos ao mesmo tempo sobre Jesus, sobre o diabo, sobre temer a Deus.

Eu temia outra coisa. Ali, naquela hora, eu não vi mais nada a não ser a cor preta e as armas. Nada do que eu senti saiu no texto final da revista onde eu publicava na época, mas eu não esqueci aquela noite. Porque eu sei — agora todo mundo sabe, porque lemos sobre isso e vemos na TV, nas ruas, o estado de guerra em que uma política de segurança covarde e despreparada deixou o Rio. Porque sabemos que a sua atuação nas comunidades não é a solução pra lidar com o tráfico, que sua presença é truculenta, sufocante para os moradores e que mata inocentes.

Não posso acusar toda a força policial pelos crimes que ocorrem durante as suas operações. Mas posso tornar a lembrá-los desta tragédia recente, brutal: o assassinato de Yuri Lourenço da Silva, 19 anos (que já citei lá em cima, o filho de Tati Quebra-Barraco), tomado por bandido em uma operação policial contra o tráfico neste dezembro de 2016. Longe de ser um caso isolado.

*

Eu sou uma escritora branquela que mora no asfalto e, por um momento, cheguei a pensar se ia sair da sede do batalhão numa boa. E, numa boa, mesmo, depois daquilo, por algum tempo, eu não fiquei. Imagina então o que pensam — se é que dá tempo de pensar alguma coisa inteira, completa, quando uma bala voa na direção deles — gente feito o filho da Tati, lá em cima, garotos tomados por bandidos todos os dias, abatidos feito nada.

*

Se revirarem a minha casa procurando um taser embaixo das almofadas do sofá e literatura vândala e comunista, vocês sabem quem mandou.

Cecília Giannetti é escritora e roteirista, nascida no Rio de Janeiro. Ex-colunista da Folha de S. Paulo e do jornal Destak. Autora do romance ‘Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi’ (Ediouro/Agir, 2007), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2008. Coautora de ‘Afinal o que querem as mulheres’, da TV Globo (Núcleo Luiz Fernando Carvalho, 2010), e colaboradora em novelas da emissora desde 2013. Site: https://ceciliagiannetti.com. Twitter e instagram: @giannetti
Imagem: Pexels
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