cult

Documentário investiga a sinestesia

0 Flares 0 Flares ×

Segundo o dicionário Houaiss, sinestesia é uma “relação que se verifica espontaneamente (e que varia de acordo com os indivíduos) entre sensações de caráter diverso mas intimamente ligadas na aparência (por exemplo, determinado ruído ou som pode evocar uma imagem particular, um cheiro pode evocar uma certa cor etc.)”. Dizer que uma cor tem um certo cheiro ou que um som tem um gosto específico pode soar como licença poética, mas, para algumas pessoas, essa mistura entre sentidos é uma realidade. É o caso da especialista em aromas Palmira Margarida, titular da coluna Notas Perfumadas, da Vertigem, uma das personagens do documentário ‘Sinestésicos — Sentidos Cruzados’, do Discovery, que vai ao ar nesta segunda-feira, meia-noite, e será reprisados dia 23, às 13h40 e às 23h, e dia 26, às 11h.

No programa, cinco pessoas com sinestesia foram convidadas para dirigir um carro e depois conversarem com cinco artistas — uma perfumista, um chef, um pintor, um compositor e uma artista plástica — sobre as sensações que tiveram durante o test drive. Eles buscaram traduzir essas sensações de sabor, textura, cor, aroma e timbre em obras que um ser humano comum possa entender.

“Descobri que era sinesteta aos 28 anos, ao sentir um cheiro estranho de cadáver no meu antigo prédio e achar que alguém tinha morrido. Todo mundo lá negava minha hipótese, então caiu a ficha de que algo estava errado comigo. Sentia mil cheiros diferentes por dia, e que não condiziam com o meu cotidiano. Comecei a pesquisar, descobri o termo sinestesia e me dei conta de que era o meu tipo de comportamento”, lembra Palmira.

Muitos sinestéticos só descobrem que essa característica não é comum a todos na vida adulta. Nesse momento, muitas vezes têm vergonha do que sentem. Não foi diferente com Palmira: durante algum tempo, ela manteve essa informação escondida. “Por ser algo estranho e não muito falado, guardei pra mim. Pessoas muito próximas ao meu redor não entendiam. Comecei a perceber que minha ligação com o olfato não era tão comum assim. Vivia isso 24 horas por dia. Entendi que o fato de eu gostar ou não de algo ou de alguém pelo cheiro não era o normal”, revela.

Palmira foi encontrada e convidada para o documentário por conta de trabalhos realizados em seu doutorado na UFRJ, onde estuda cheiros e emoção, e por um texto que escreveu para a Vertigem sobre sinestesia. “Quando o Discovery me chamou, tive muito medo, não quis. O assunto morreu por um mês. Fiquei com receio porque, quando comentava isso com pessoas muito próximas, achavam que eu era louca ou tinha algum problema espiritual. Fiquei com medo da exposição. Mas eles foram legais e me mostraram que se tratava de uma experiência científica. Foi bom pra mim. Conheci outros sinestésicos, vi que não era louca, que tava tudo bem, era apenas uma condição”, explica a colunista.

img_4317_srgb
Palmira Margarida em cena do documentário

A seriedade da equipe envolvida também fez com que ela se tranquilizasse a respeito da participação no programa. “Conheço a Renata Ashcar, a maior especialista em perfumes no Brasil. A presença dela no doc me trouxe conforto e segurança. Ter o pesquisador Li Li Min (Professor titular do Departamento de Neurologia da Universidade Estadual de Campinas) e o Sérgio Basbaum (professor do programa de pós-graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital da PUC-SP) também.” Foi Renata Ashcar que desenvolveu uma obra a partir da sinestesia de Palmira ao dirigir o carro.

Fundadora da Casa Alquímica, marca de aromas desenvolvidos a partir de plantas, óleos essenciais e outros ingredientes naturais, hoje ela acredita que a sinestesia é determinante em seu trabalho. “Os perfumes só existem por causa da sinestesia. Não me importo com o cheiro final do perfume, mas em como os aromas vão conversar com as pessoas, que emoções elas precisam sentir, que cores as fragrâncias precisam emanar”, descreve.

Ela também revela o pior e o melhor aroma em sua opinião. “O cheiro que mais odeio é o que classifiquei de cheiro de vespa. Parece com o cheiro de geleia real, e eu fujo de pessoas com esse cheiro “, admite Pamira. “O que mais gosto, no momento, é o cheiro de ‘Clair de lune’, de Debussy. É um cheiro com lavanda e azul-turquesa, levemente doce e violeta, e uma vez conheci uma menina, em São Paulo, que tinha esse cheiro nos olhos. Talvez seja a cor dos olhos dela que faça isso”, arrisca a especialista.

Kamille Viola é jornalista e uma das fundadoras e editoras da Vertigem. E-mail: kamille.viola@revistavertigem.com

Imagem: frame do documentário

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Pin It Share 0 0 Flares ×