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Liberdade, liberdade: George Michael em videoclipe

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O mundo foi surpreendido mais uma vez por 2016 e sua foice afiada para grandes personalidades da música. George Michael morreu, segundo o site TMZ, em consequência de uma insuficiência cardíaca enquanto dormia, aos 53 anos, em sua casa, na Inglaterra, no dia 25 de dezembro. Para homenagear um dos maiores ícones da música pop do século 20, a Vertigem selecionou estes sete videoclipes fundamentais para compreender esse artista, que encontrou no vídeo uma de suas maiores fontes de expressão. Dos dias de estrelato pós-adolescente na dupla Wham!, no começo dos anos 80, ao ativismo gay que marcou seu trabalho nos anos 90, a relação de George Michael com o clipe, sua imagem e as imagens para sua música foi mudando junto com os tempos, como os grandes ícones costumam fazer.

7- “Freeek!”

Doze anos depois de “Freedom 90′”, George Michael poderia ter repetido o combo grande hit + videoclipe icônico para uma geração com o censurado (acredite, se puder) “Freeek!”. Infelizmente, não rolou, e este permanece sendo uma de suas mais obscuras joias. Repare nos cenários de cidade do futuro hiperconectada e veja se “Toxic”, de Britney Spears, não deve muito a esse vídeo, lançado um ano antes. George Michael estava tentando voltar às paradas nessa época, mas, pelo visto, foi um tanto ousado demais. “Freeek!” parece documentar sinistramente o nosso presente de mãos acopladas a smartphones equipados com apps de pegação: “You got yourself some action/ Said you got your sexy Java/ You got your speed connection/ Free chat, fuck that, get a little harder”. E o barulhinho de conexão discada de internet primitiva segue pontuando a canção, soando hoje, um pouco fantasmagórico. Dirigido por Joseph Kahn, mago dos videoclipes superproduzidos sexy do início dos anos 2000, “Freeek!” mostra um George Michael super-herói meio sem gênero mas definidíssimo por sua armadura de músculos em busca da cópula triunfal com uma criatura cibernética numa espécie de, como eu escrevi em 2002 quando o clipe foi lançado, “cidade tomada pela comunicação via internet (sabia de nada, inocente) e pelos padrões de beleza do cinema norte-americano, em que a moeda de troca instituída é o sexo, com direito a cartão de crédito Masterhard”. É interessante pensar que esse ‘sex symbol’ (ô, termo velho) apocalíptico que goza com o “plástico do papai” em salas de bate-papo anódinas, tinha sido, 18 anos antes, o protagonista muy macho de um baladão romântico com solidão & vista pro mar e traição, zero virtualidade. Este baladão aqui, ó:

6- “Careless Whisper”

Clássico de motel com seu sax mais que açucarado num arranjo excessivamente anos 80, “Careless Whisper” bem que poderia ter sido um ‘standard’ de Frank Sinatra. Neste videoclipe de 1984, o único da dupla new wave-pop Wham! desta lista, George Michael é o protagonista ‘bon vivant’ que desilude a mocinha. A sensação é de estar assistindo a ‘Miami Vice’ ou ‘A Gata Comeu’. O clipe alterna cenas do artista no indefectível fundo preto — para os momentos de solidão pós-pé-na-bunda entre cordas, que funcionam muito bem como elemento dramático silencioso sugerindo um lance O Enforcado e, hoje, parecem uma metáfora para a saga de libertação do artista, que culmina no número um desta lista — e tomadas num cenário do tipo paraíso fiscal com direito a muito lençol de seda, persiana, iate, veleirocóptero e quadra de tênis. O clima é de novela das sete e contribui para isso que uma das atrizes pareça uma cruza de Vera Fischer com Xuxa Meneghel circa ‘Amor Estranho Amor’. Mas esqueça os penteados cafonas e as mangas bufantes, bem como as terríveis cenas de briga, amor e intriga neste enredo pra lá de previsível. O importante é focar em George Michael, mesmo, já que é este clipe que o consagra como popstar, fazendo com que a gente nem perceba que se trata do Wham! A avenida para seu estrelato solo, aliás, foi aberta por este sucesso absoluto, que trouxe pela primeira vez estampado num ‘single’, “Wham! featuring George Michael”. A grande música de dor-de-corno ‘soul de olho azul’ ganhou um clipe com todos os vícios e cacoetes estéticos da época, que se torna lindo hoje justamente por isso. Em ‘Manufacturing the 1980’s Pop Dream’, a citação de Roy Shuker define: “Essas novas espécies de profissionais (Duran Duran, Wham! de George Michael, Madonna e Michael Jackson) genuinamente talentosos estão preparadas e dispostas a se fabricarem (…), anteriormente, nunca o comércio e a criatividade sustentaram as bandas de modo tão apropriado”. Pois, “Careless Whisper” ganhou o videoclipe perfeito para alçar George Michael ao posto de maior símbolo sexual do pop e, ao mesmo tempo, começar a equiparar sua produção imagética à de bandas como Duran Duran e a da tríade de ouro do pop formada por Madonna, Michael Jackson e Prince. Do fundo do baú, ainda trago esta hilária curiosidade: Marcos Mion interpretando vossa majestade na opereta quase mexicana que é “Careless Whisper”.

5- “I Want Your Sex”

Tudo é milimetricamente perfeito neste videoclipe de 1987, que é um ‘statement’ sobre sexo monogâmico em tempos então assolados pela Aids. O ‘single’ altamente ‘funkeado’ pertence à estreia solo de George Michael, ‘Faith’, e curiosamente foi uma faixa bastante desprezada pelo próprio compositor, apesar de ser um de seus maiores hits, pertencendo ao primeiro time de hinos sexuais catárticos da música pop, num tempo de reflexão sobre os excessos comportamentais das duas décadas anteriores. Dirigido por Andy Morahan, que assinou dezenas de clipes nos anos 80 e 90 — no currículo, Pet Shop Boys, Human League, Cyndi Lauper, OMD, Tina Turner, entre muitos outros —, “I Want Your Sex” é coestrelado pela então namorada do astro, Kathy Jeung, ajudando a passar a mensagem de sexo + compromisso. No entanto, é bastante curioso que o vídeo saque o velho recurso narrativo do duplo, usando para isso uma modelo espanhola que é quase sósia da namorada de Michael. A brincadeira faz pensar se o sexo é mesmo melhor quando é “one on one” como diz a letra. Agora, fica difícil crer que este vídeo, que hoje parece quase cândido, tenha sido um dos mais controversos a serem exibidos pela MTV, segundo a própria emissora. Mas isso era o canceriano George Michael ajudando a furar bloqueios afetivos e sexuais em plena Guerra Fria. Do kit lençóis de seda (de novo) e corpo nu, passando pelo cabelo descolorido, curto e espetado da beleza exótica com um certo apelo masculino de Jeung, e pelo icônico brinco de cruz começando a dar pinta na orelha de Michael (remetendo ao símbolo do planeta feminino Vênus), ao batom que escreve “explore” e “monogamy” nas costas da protagonista, “I Want Your Sex” é uma ode ao minimalismo com significado no universo dos ‘music videos’. Seus símbolos e truques visuais comunicam muito bem o que diz a letra, amplificando a mensagem de que “sexo é diversão, sexo é bom, sexo é para todos, sexo deve ser praticado”. Num momento em que a maioria dos clipes apostava em romances complicados ou ritos de objetificação do corpo da mulher, o grito de liberdade sexual aliada a saúde e amor monogâmico de “I Want Your Sex” parecia mais com uma bênção. Talvez este tenha sido o primeiro cântico do macho alfa a surgir no imaginário contemporâneo.

4- “Father Figure”

Lançada como ‘single’ em 1988, um dos grandes sucessos do álbum ‘Faith’, “Father Figure”, com seu ‘gospel’ de branco, fez parte da trilha sonora da novela-hit ‘Vale Tudo’. Curiosidades brazucas à parte, esse videoclipe ganhou o MTV Music Awards de 88 na categoria Melhor Direção. De novo, a dobradinha George Michael/Andy Morahan, que dirigiu ‘Highlander III’ (1994), rendeu bons frutos. “Father Figure” traz George Michael na direção… de um táxi. Ainda era o período de paixão pelo estrelato na carreira do britânico. Com muitas caras & bocas e dorso nu, o artista encarna o papel principal com gosto, e começa a flertar com o mundo das supermodelos, tendo Tania Coleridge, que foi garota Versace e Armani nos idos de 1986, como coprotagonista. A história é meio isto: mulher bem-sucedida, dona da sua vida (o que fica claro quando ela dá close de ‘trench-coat’ três tamanhos maior no melhor estilo ‘yuppie’), tem um caso tórrido com motorista de táxi seu fã, que, obviamente, se sente um merda perto dela. Pra ilustrar o drama, muitas voltas noturnas em downtown L.A. em câmera lenta, o que convém ao clima ‘noir’ da música, com suas notas de teclado espaçadas e misteriosas. E cenas de passarela. E cenas de sexo com cinta-liga e ‘slapping’, o que fez com que o clipe só passasse à noite na MTV britânica. E cenas de bastidores de passarela, com direito a faniquito e lápis de olho. Segundo Tania, na única entrevista que ela já deu sobre essa experiência tão decisiva em sua carreira, registrada num blog genial que dá voz às “garotas dos videoclipes”, George Michael estava bastante sensível na época por estar saindo do armário (mas ele não estava namorando Kathy Jeung?). Questões pessoais à parte, o clipe é eficiente em retratar uma relação abusiva. A tensão de um homem continuamente à espreita perpassa todo o vídeo e combina perfeitamente com a letra sobre amor obsessivo. É incrível perceber a mudança profunda de ‘zeitgeist’ ao me reencontrar com esse clipe agora. Se, nos anos 90, me parecia um sonho que um homem pudesse desejar uma mulher com tanta fúria, hoje, só consigo ver um pesadelo nesta obra lindíssima de Morahan para uma canção de amor doentio. Aliás, experimente digitar “father figure creepy” no Google. Estou longe de estar sozinha nesse sentimento.

3- “Killer/ Papa Was A Rollin’ Stone”

Quando eu era adolescente e este clipe estreou, recebendo o cobiçado selo “D+” da MTV Brasil, tudo que eu conseguia sentir diante dele era muito estranhamento. Pudera, era um clipe cheio de “gente esquisita”. O ano era 1993 e foi com esse clipe que vi pela primeira vez uns brincos pendurados nos rostos das pessoas. Sim, ‘piercings’, então, um código da marginália anglo-saxã. Achava que tudo nesse clipe cheirava a perigo. Mas tinha mais dados estranhos cercando “Killer/Papa Was A Rollin’ Stone”: a música tinha sido nitidamente tirada de um show, mas ganhava um clipe “de estúdio”, e era um ‘medley’ de duas versões. A primeira, de “Killer” (1989), uma das músicas inaugurais do gênero ‘acid house’ — que dominou as pistas britânicas no comecinho dos anos 90 —, gravada pelo produtor Adamski e cantada por Seal. A segunda, de “Papa Was A Rolling Stone” (1972), número de soul psicodélico dos Temptations. Esse ‘medley’ ao vivo vem de uma apresentação em 1991, no velho estádio de Wembley, e foi incluído, dois anos depois, no EP ‘Five Live’. Soma-se a todo esse repertório anticonvencional o fato de que George Michael não dá as caras neste vídeo. Eu tive razão em estranhar a coisa toda. Quase dez anos depois, saquei qual era desse experimento aparentemente anti-pop, numa guinada ainda mais cabeça na carreira de Michael, que tentava neutralizar sua figura, mergulhando mais radicalmente na direção tomada nos anteriores “Freedom 90′” e “Too Funky”. Em resumo: nada de aparecer, para não ofuscar a alma da música. Tinha tudo a ver com esse ‘feeling’ tão ‘soul’ esconder-se das câmeras e tinha mais a ver ainda chegar ao ápice dessa fase com um libelo anti-solidão, antifascismo e anti-racismo que é “Killer” mixada a um lamento ‘made in Motown’ sobre um pai morto e, antes disso, ausente. Com direção de Marcus Nispel, o elegante clipe p&b é editado em ritmo vertiginoso e cheio de tomadas que brincam com tamanhos e dimensões (curiosamente, os Rolling Stones levariam isso bem a sério um ano depois, no clipe de “Love Is Strong”). Produtos de supermercado/artefatos pop à moda de Warhol têm rótulos com trechos ou palavras­-chave da letra das canções numa sutil denúncia da comercialização da música. Um menino que poderia ser garoto-propaganda de comercial dos anos 1950 tenta vender o sabão em pó “to be free”, fazendo com que o clipe pareça um comercial dentro do comercial. Não por acaso, o p&b contrasta com os rótulos em cores e no final do clipe, na paisagem da cidade cinza, a única fresta de céu azul é um ‘outdoor’. O exemplo dá conta da ligação que parece haver entre a ausência do intérprete e a crítica aos mecanismos de venda do que ele mesmo faz. É como se sem a imagem do protagonista, seu papel no processo ficasse obscurecido e ele pudesse emergir como um porta­-voz da crítica neutro e distanciado, permitindo o reconhecimento da mensagem do vídeo, em detrimento da persona pop. Clipe primoroso para duas versões mais que felizes no vozeirão de George Michael.

2- “Too Funky”

“Too Funky”, de 1992, foi o último ‘single’ de George Michael a ser lançado pela Sony Music, portanto, marcando o fim de uma era em sua carreira. Dentro da saga videoclíptica do artista, é o irmão menos badalado, mas igualmente brilhante de “Freedom 90′” e, simbolicamente, consolida o ‘shift’ de imagem que o irmão mais popular tão bem representou. Mas que ‘shift’ é esse? É a saída de fininho do popstar para trás das câmeras, depois do sucesso estrondoso de ‘Faith’, que usou e abusou de sua estampa, e a consequente decepção com a indústria da música. No momento de ascensão das supermodelos e quando a moda começava a disputar o primeiro lugar com a música pop como valor simbólico da cultura de massa, “Too Funky” despontou como o lado B do ‘glamour’ de “Freedom 90′”. As intrigas, as pegações, a ansiedade e adrenalina dos bastidores esbaforidos do ‘catwalk’ são retratadas num vídeo todo ‘over’, frenético, com muita ação, cor e diferenças de andamento, deixando a sobriedade performática azul-marinho de “Freedom 90′” para trás. O que era distanciamento em “Freedom” torna-se um delicioso ‘inside view’ em “Too Funky”. Esteticamente, o clipe lembra muito o de “Get Off”, de Prince, lançado no ano anterior, também investindo naquele clima de “bacanália”. “Would you like me to seduce you?” é a pergunta “sampleada” de ‘A primeira noite de um homem’, clássico do cinema, de 1967, com Dustin Hoffman e Anne Bancroft, que é repetida na música e funciona no clipe como uma questão retórica para o espectador: você quer que as supermodelos te seduzam? “Too Funky” diz a que veio logo no primeiro ‘take’ (é assim que se faz em clipes icônicos, a exemplo da chaleira de “Freedom 90′”) com a modelo caracterizada como diva hollywoodiana dos anos 50 sobre um fundo azul-céu tirando um véu e, depois, arrancando um pedaço de sua roupa (meio farda, meio terno desconstruído, bem mulher empresária anos 90), deixando uma transparência na altura dos seios. “Você gostaria que eu te seduzisse?” Como num álbum de figurinhas, as modelos começam a desfilar, com Linda Evangelista abrindo os trabalhos, usando uma peruca loura curta toda angulosa, quase que reminiscente de um desenho animado. Ela faz a diva anos 1930, toda sorridente e afetada. E, aos 40″, George Michael aparece pela primeira vez, como se fosse o diretor do videoclipe. Poucos segundos depois, vemos a câmera substituindo o rosto dele, dando a impressão de que o artista é o olho do Big Brother. É neste clipe que Emma Sjöberg aparece com o lendário corselete de frente de moto de Thierry Mugler, que Beyoncé usou em 2010 como Sasha Fierce. Outra peça lendária de Mugler, a armadura robótica prateada überfuturista, que ganhou uma versão anos 2000 com a mesma Beyoncé, no clipe de “Sweet Dreams”, e que Lady Gaga diretamente homenageou no clipe de “Paparazzi”, só que de muletas. Mas Mugler foi muito mais que o provedor dessas roupas-arte maravilhosas, que simbolizam novas rotas expressivas para a mulher, ele foi o quase-diretor do videoclipe em questão. Por isso, a brincadeira no final do vídeo, com o “directed by ?”. Michael e ele se estranharam na hora do corte final e prevaleceu a visão artística de George Michael, que, dizem as más línguas, ficou muito mais comercial. Na minha opinião, ficou mais coesa e plástica. Você pode formar a sua, assistindo à versão finalizada por Mugler, que só “vazou” para os meros mortais em 2013. “Too Funky” também come pelas beiradas marginais com as presenças da drag Lypsinka e da atriz-amuleto de Pedro Almodóvar, Rossy de Palma. O ‘casting’ estonteante de modelos é completado por Eva Herzigova, Nadja Auermann, Estelle Hallyday, Shana Zadrick, Tyra Banks, Beverly Pee e Emma Balfour. Ufa. O clipe ainda conta com a participação ultraestelar da atriz Julie Newmar, a Mulher-Gato original, que performa usando o traje da heroína. É muito ícone para um clipe só, é muito “funky”. Se você estiver se sentindo um lixo, assista a esse clipe e recupere a alegria de viver (ignorando os paparazzi, claro).

1- “Freedom 90′”

A música diz “sometimes the clothes do not make a man”, enquanto a imagem entrega supermodelos equiparadas aos músicos pela primeira vez, dublando a canção e assumindo, assim, o seu lugar, em vez de serem apenas “as garotas do vídeo”(lembrar de “Father Figure”, certo?). Eis a revolução imagética de “Freedom 90′”, um clipe quase alienígena quando foi lançado. Malandramente, não são, justamente, as roupas o foco. A luz é jogada — ou tirada, já que se trata de um clipe muito escuro com sutis contrastes ao gosto do barroco — sobre as pessoas por trás das modelos fabricadas. Não por acaso, “Freedom 90′” inova ao jogar a câmera dentro das roupas (malhas de tricô) de seu elenco. A trama é mostrada do lado de dentro. Uma prova do quanto o jogo estava sendo invertido nessa época foi a quase recusa de Linda Evangelista em participar do clipe. Na época, a modelo disse que George Michael queria convencê-la de que era um grande negócio atuar em um videoclipe dele, quando, na verdade, era melhor para ele que ela aparecesse num de seus clipes. No entanto, hoje, ela diz que a primeira coisa que ainda vem à mente das pessoas quando o nome dela é citado é o clipe de “Freedom”. Mas nem só de supermodelos é feito esse clipe, que reuniu um timaço formado por Naomi Campbell, Tatjana Palitz, Christy Turlington (que fez o clipe de “Notorious”, do Duran Duran, com apenas 17 anos, cinco anos antes) e Cindy Crawford, todas da então maior agência do mundo, a Elite Models. Tem modelos masculinos também, mas as mulheres roubam a cena. O clipe tem a grife de ninguém menos que David Fincher, diretor responsável por ‘blockbusters’ como ‘Clube da luta’, ‘Alien 3’, ‘Seven — Sete pecados capitais’ e ‘A rede social’. É bem sugestiva a locação que ele escolheu para “Freedom 90′”, que se passa num prédio antigo de Londres, com um certo ar decadente, com seus ‘boiseries’ estilo Paris século 18 em paredes descascadas. Do primeiro ‘frame’, com a rudimentar chaleira apitando, passando pela tomada do controle remoto por La Evangelista, ao raio da então grande novidade do mundo audiovisual, o disco a laser, “Freedom 90′” já garante seus primeiros 13 segundos matadores, sem que a percussão envenenada da música sequer tenha começado a tocar. Referindo-se à libertação de sua encarnação como boy magia no Wham! (que também tem sua “Freedom”, por isso, o 90′ acompanha o título dessa faixa, remetendo ao seu ano de lançamento) e todas as obrigações de ícone da indústria da música, George Michael acabou transformando um grito de independência ou morte pessoal em hino para os LGBTs. É certeiro que o nome do álbum de onde “Freedom” é tirada seja ‘Listen Without Prejudice’, reivindicando uma audição honesta, sem preconceito, por parte do ouvinte, sem achar que um ex-integrante de ‘boy band’ não pode ser inteligente, sofisticado ou denso. Aliás, num álbum denso de músicas lentas, em sua maioria, “Freedom 90′” aparece como seu maior ‘dance statement’. Mas, voltando ao clipe, talvez sua cena mais comentada e lembrada, ironicamente, não traga nenhuma silhueta feminina de modelo. Falo da jaqueta “garotos de motocicleta” de ‘Faith’, com a palavra “vingança” nas costas e sua remissão em couro preto a uma rebeldia do rock que já tinha, há muito, virado mercadoria, queimando num guarda-roupa escancarado. Aquele era o rito de incineração da imagem do popstar ingênuo fábrica-de-romance (heterossexual, claro). A inscrição perfeita para essa imagem é provida pela letra do hino: “tudo que temos que fazer agora é pegar essas mentiras e fazê-las verdadeiras, de alguma maneira”. Na letra, George anuncia que está mudando o jogo, mas não seria esse mais um truque para vender os novos CDs com conteúdo dos vinis do passado? Afinal, citar a MTV na letra (alô, Dire Straits) parecia ainda jogar conforme as antigas regras, ainda que fosse no sentido de provocar os chefões. Mas “Too Funky” e “Killer/Papa Was A Rollin’ Stone” provariam que as intenções do rapaz eram sérias. Também ajudou o fato histórico de que os anos 90 se mostraram uma avenida para uma nova criatividade com o surgimento e/ou florescimento dos maiores diretores de ‘music video’ de todos os tempos. E os dois últimos versos de “Freedom 90′” acabam sintetizando gloriosamente a guinada corajosa e pioneira de George Michael na indústria e na sua carreira: “lose the face now/ I’ve got to live”. Missão mais que cumprida: um dos maiores artistas da era da música em vídeo conseguiu se eternizar num exemplar em que não dá as caras uma única vez. Façanha possível somente para os grandes. Como George Michael escreveu, cheio de humor britânico, na época: “Obrigado, eu nunca fiquei tão bem (num vídeo).”

Leïlah Accioly é mestra em videoclipe e está chorando a morte de mais um ídolo dessa ainda tão incompreendida forma de arte.

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