comp

Sagrado e engajamento social

0 Flares 0 Flares ×

O relacionamento entre as pessoas nas redes sociais acaba suscitando a viralização de alguns temas. Há nesse comportamento da web uma necessidade quase instantânea de opinarmos e fecharmos alguma conclusão sobre o assunto. A cada semana há uma “treta” diferente nas redes sociais. Um tema tem sido recorrente nos últimos tempos: a espiritualidade versus engajamento político-social, como se um só pudesse existir em detrimento do outro. Escrevo isso com algum espanto, porque o tema aparece com uma tendência maniqueísta justamente entre pessoas que usam e abusam das terapias holísticas e integrativas, isto é, filosofias e práticas que entendem o ser humano de forma globalizada, que afirmam e apostam na integração de mente, corpo e ambiente. Creio que esse maniqueísmo tenha fundamento justamente em uma vertente da nossa cultura brasileira, aquele lado da cultura que acredita na meritocracia e reafirma os privilégios.

Sendo assim, me senti impelida a escrever sobre o tema. A espiritualidade não é um tema do qual eu fale muito, costumo falar sobre questões sociais, políticas, raciais, questões de gênero, sobre representatividade, e, apesar da religiosidade ser um tema importante no que tange a luta pela liberdade religiosa, não é habitual que eu escreva sobre a minha relação pessoal com a espiritualidade, e isso tem algumas razões.

A principal razão que me faz tirar de cena minha relação com a espiritualidade é que a vejo e a experimento como parte integrante desse todo social, racial, político, de gênero etc. Na verdade, não uma parte, mas justamente o todo que dá a “liga” para unificar essas partes. Por isso, não consigo conceber uma espiritualidade que não seja engajada, uma vez que toda e qualquer pessoa ou ação influencia a totalidade.

A escritora africana Sobonfu Some, do povo Dagara, escreveu um livro chamado ‘O espírito da intimidade: ensinamentos ancestrais africanos sobre maneiras de se relacionar’. Nele, Sobunfu conta que, para seu povo, todas as nossas ações são conduzidas pelo que ela chama de espírito. Esse espírito seria algo que conduz as ações para o bem não só individual, mas também da comunidade, o povo Dagara não compreende as relações de forma particularizada, tudo o que cada pessoa vive tem um propósito maior que afeta as vidas de todos os componentes daquele povo. É dessa forma que entendo a minha relação com a espiritualidade, assim aprendi na tradição afro-brasileira em que fui iniciada.

Não faço da minha vida religiosa um segredo, pelo contrário, exalto sempre que posso minha pertença ancestral e religiosa. Não é à toa que assino como psicóloga, mas também como iniciada para Yewa, e esse é um ato político. É justamente a compreensão que tenho do mundo a partir da minha religiosidade que me faz atuar da maneira como atuo na vida. Em ‘O duplo e a metamorfose’, livro de que gosto bastante e que já citei no artigo sobre intolerância religiosa aqui na Vertigem, Monique Augras afirma que a dimensão religiosa não está apartada do contexto cultural em que vivemos. Essa frase destaca bem o que quero evidenciar.

O que pretendo dizer com isso é que viver a espiritualidade, o sagrado, significa estar antenada com o que está acontecendo ao nosso redor. Semana passada, li muitas tretas sobre o que pessoas têm chamado de “Sagrado Feminino”. Bem, eu tenho uma visão a respeito do que seja cuidar do sagrado feminino, e cada vertente religiosa tem a sua. Para mim, ela não está apartada no sagrado masculino, mas não é essa a discussão. A questão é que muitas mulheres, sacerdotisas, formadoras de opinião, tratam do tema sempre enfocando a gratidão, a luz, o amor e invocando a famosa Lei da Atração para entender e sugerir soluções para todos os problemas. A Lei da Atração pressupõe que a responsabilidade por tudo o que acontece na vida da pessoa é dela mesma e que ela pode vencer a tudo se conseguir se desapegar das crenças limitantes, focar no bem etc.

Ora, atribuir a responsabilidade por nossa própria vida, olhar pra dentro com olhos de verdade é fundamental, mas como dizer isso pra criança que sofre pedofilia, ou pra mulher que sofre com a violência doméstica, ou para questões de racismo, LGBTfobia, entre tantas outras questões? Não há uma questão sócio-política e histórica que incide sobre essas violações e agressões? Vou deixar a questão no ar.

Creio que seja importante refletir sobre a cisão que leva uma pessoa a meditar, ser religiosa, ter práticas espirituais e, ao mesmo tempo, ser incapaz de acolher a dor alheia, culpabilizar e julgar outra pessoa ou outra prática religiosa. Esse posicionamento acaba por colocar alguns numa posição de superioridade ou elevação espiritual, ou seja, é uma maneira de hierarquizar pessoas e práticas.

Uma prática espiritual que nos cega ao ponto de não percebermos privilégios como o de ter casa, comida, não ter que se matar de trabalhar para ter casa e comida, ter uma boa educação, ter dinheiro para pagar os milhares de workshops, rodas, iniciações e cursos de sagrado feminino, privilégios em relação a cor de pele, orientação sexual ou identidade de gênero, enfim, se a prática espiritual nos cega a ponto de não enxergamos nossa posição no mundo, de que ela nos serve?

A antropologia usa o termo posicionalidade para demarcar o espaço do pesquisador e aquilo que ele ou ela pesquisa, pra demarcar que nenhum olhar é imparcial, mas é possível determinar o lugar de fala. Saber quem somos e que lugar ocupamos nos ajuda a nos posicionar diante de cada coisa, inclusive saber o momento de falar, de calar e de acolher.

Como é possível falar de espiritualidade e fechar os olhos para a influência do capitalismo e toda a desigualdade advinda dele no modelo econômico que se instalou por aqui? Como uma pessoa espiritualizada pode achar que o sangue menstrual é sagrado, mas abominar as práticas sacrificiais de matrizes africanas justificando que aquele sangue seria de “baixa vibração”? Essa última pergunta tem resposta, e o nome disso é racismo, gente.

E não se trata aqui de criar uma rivalidade entre “nós” e “essa galera”, mas de apontar que existe um motivo para que as pessoas ajam dessa forma. Há uma recusa em abandonar esses privilégios, em abrir mão de seu lugar de conforto e, assim, poder continuar sentadas no banquinho do ego que elas tanto temem.

No final, essa dicotomia não nos interessa. O que importa é realmente o amor, mas o amor que acolhe as diferenças, que apoia quem precisa, que enxerga a realidade como um todo.

Porque, se nós construímos a nossa realidade, então quem somos nós para atrairmos tanta desigualdade em nosso meio? Tanta morte, feminicídio, racismo, LGBTfobia? Quem somos nós, e qual a nossa responsabilidade diante disso?

Acho que são perguntas importantes. Pelo menos são as que eu tenho feito a mim mesma, e minhas respostas vêm em forma das ações que tenho empreendido em minha vida. A verdade comigo, com meus pares, meus projetos com as mulheres de longe e de perto. Cuidando das mulheres da minha família e dos homens também, ouvindo para além dos meus referenciais, mas abrindo a escuta de fato para a outra pessoa, para a verdade que a constitui, sem excluir o social que nos circunda.

Sagrado desconectado do contexto em que vivemos não é nada mais do que discurso de ódio e manutenção de privilégios travestidos de espiritualidade, apenas reproduz o status quo e nada tem de acolhedor ou transformador da realidade.

Deveríamos refletir sobre o chão onde são semeados esses conceitos a respeito da espiritualidade. Em um país como o nosso, colonizado, que sobreviveu a partir dos espólios da escravidão e ainda sobrevive, com a incidência do patriarcado, do racismo, da heteronormatividade, acreditar que esses valores não afetariam a nossa constituição identitária e nossas práticas religiosas é ilusão. É justamente assumindo esses tristes alicerces que nos formam como povo que poderemos desconstruir os padrões que nos limitam como sociedade. Por fim, creio que, mais do que focar na luz, precisamos assumir as trevas em nós, olhar pra elas e fazer outras escolhas mais verdadeiras, mais fiéis à realidade que vivemos.

Nany Kipenzi Vieira, psicóloga, iniciada para Yewa, especialista em Clínica Psicanalítica, pesquisadora das relações raciais, de gênero, laicidade e liberdade religiosa

Foto: Paulrudd

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Pin It Share 0 0 Flares ×