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As oito mulheres de 2017

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Passei o último ano acompanhando várias mulheres e coletivos femininos incríveis dentro e fora do Brasil, na área das artes e entretenimento, e decidi que este é o momento de reunir esses nomes e apresentá-los à Vertigem. Após uma difícil escolha, no melhor estilo “A Escolha de Sofia” (filme dramalhão icônico de 1982, que deu o primeiro Oscar de melhor atriz à espetacular Meryl Streep), resolvi que estas são as oito mulheres que vão dar muito o que falar ao longo de 2017. Para cada uma delas, tracei um perfil que servirá de introdução às mentes brilhantes das mulheres que compõem este grupo totalmente heterogêneo, formando um mosaico de idades, raças, profissões e experiências. Algumas já são famosas, outras nem tanto. Em comum, todas reúnem talento, criatividade, perseverança, inteligência e muita garra. Mulheres que vêm fazendo a diferença no mundo. Venham conhecer estas mulheres que causarão vertigem em 2017!

1- Coletivo ELVIRAS

Primeira apresentação pública do coletivo ELVIRAS na Mostra de Cinema de Tiradentes (Foto: Divulgação)

Elviras é composto por uma rede de 68 mulheres de todo o Brasil. Trata-se de um coletivo de mulheres críticas e pensadoras de cinema, que se uniram em meados do ano passado, inicialmente em um grupo de Whatsapp, após a triste constatação da jornalista brasiliense, Cecília Barroso, 42 anos, assessora de imprensa do festival “Olhar de Cinema”, de Curitiba, de que o grau de representatividade do gênero feminino no festival é baixíssimo. Por meio do grupo criado no aplicativo de celular, começaram a ser articulados os primeiros planos para se impor num mercado fechado e predominantemente masculino. O nome “Elviras” é uma homenagem à crítica de cinema pioneira, Elvira Gama, primeira brasileira a escrever sobre “projeções luminosas” na coluna “Kinetoscópio Literário”, publicada no Jornal do Brasil, entre 1894 e 1895. Duas das principais mobilizadoras do “Elviras” são curadoras do disputado “Cineclube Delas”, que, após o recesso de final do ano, voltará às atividades mensais no Espaço Glauber, no Rio de Janeiro: a cientista social carioca e crítica de cinema do site sobre cinema feminista, “Delirium Nerd”, e do podcast “Feito Por Elas”, Samantha Brasil, e Camila Vieira, crítica de cinema dos sites “Verberenas” e “Sobrecinema”. Depois da formação do grupo no WhatsApp, chegou o momento de demarcar território nas redes sociais. E o segundo passo para a propagação virtual do coletivo foi no Facebook, por meio de uma página onde são divulgados textos, críticas, ensaios, matérias e vídeos das próprias Elviras acerca de filmes, além da cobertura de festivais de cinema e entrevistas sobre o trabalho de mulheres diretoras. Porém, a primeira apresentação pública e oficial do grupo se deu ‘offline’ e em grande estilo ao tomarem de assalto a 20º Mostra Tiradentes de Cinema, em janeiro último. Mostra Tiradentes essa que, em 20 anos de existência, premiou apenas três mulheres diretoras (todas brancas, diga-se de passagem) com o prêmio Aurora (sendo que uma delas codirigiu um dos filmes com um homem). A chegada das “Elviras” na bucólica cidade mineira balançou as estruturas de Tiradentes, que teve este ano como principal homenageada a sexagenária atriz e diretora brasileira, Helena Inês, uma vez que a mesa “Mulheres na Crítica: Cenário Brasileiro” não estava sequer na programação oficial de Tiradentes e foi articulada pelas próprias Elviras ‘in loco’. Camila Vieira foi a responsável pelas maiores resenhas de alguns dos filmes mais comentados de Tiradentes, como, por exemplo,  a duríssima resenha que escreveu sobre o filme “pseudo-feminista” do cineasta Leo Pirata, “Subybaya”. A audácia de Camila e das Elviras causou efeitos colaterais em cineastas e críticos homens, todos figurinhas tarimbadas do festival. Um deles, inclusive, chegou a escrever uma espécie de manifesto no Facebook em retaliação às críticas de Camila aos filmes apresentados no festival, que foi contundentemente respondido pela própria no site de cinema, “Moventes”, veículo pelo qual todas as suas resenhas dos filmes exibidos em Tiradentes foram publicadas. Polêmicas à parte, as Elviras seguiram, poderosíssimas, com um plano ambicioso: inserir as mulheres críticas e pensadoras de cinema no maior número possível de festivais e mostras para que possam ocupar espaços atuando como críticas, curadoras, juradas ou debatedoras e, eventualmente, também inseri-las nas redações de jornais, revistas e sites sobre cinema, além de estimulá-las a criar e produzir seus próprios veículo. O coletivo está aceitando inscrições para ajudar na formação de novas profissionais, com oficinas ministradas, em breve, por algumas das acadêmicas mais renomadas do mercado. Basta mandar inbox ou email para o coletivo: coletivoelviras@gmail.com.

2- Angélica Dass  

A fotógrafa e artista visual carioca Angélica Dass (Foto: Divulgação)

Angélica Dass é uma fotografa e artista visual carioca radicada em Madri, capital da Espanha, há mais de 10 anos, para onde foi inicialmente para trabalhar como estagiária de um museu espanhol.  Formada em Belas Artes pela UFRJ, Angélica, durante os seus primeiros anos na Espanha, criou junto com outros amigos brasileiros espalhados pelo mundo, o cultuado blog ‘Cajon Desastre’ (que em português significa algo como “gaveta bagunçada”), onde cada colaborador escrevia sobre moda, cinema, arquitetura, artes, design e comportamento, sempre sob o viés do que de melhor acontecia em cada capital do mundo onde cada um deles se encontrava. Depois de um tempo, surgiu a ideia do “Humane”, seu mais ambicioso projeto,
que a tem levado para exposições e palestras nos quatro cantos do mundo, fazendo dela uma das artistas visuais brasileiras de maior renome e prestígio internacionais do momento. Mesmo assim, o nome e o trabalho de Angélica ainda não são muito conhecidos no Brasil. Em “Humane”, a ideia é criar um inventário de “pantones humanos”, catalogando, assim, todos os tons de pele possíveis e imagináveis. Para isso, Angélica já fotografou mais de três mil pessoas em mais de 13 países, até agora. A jornada foi iniciada em 2012 e não tem data para acabar. A ideia inicial surgiu logo quando ela conheceu seu ex-marido, um físico espanhol “com pele de lagosta queimada do sol” e se viu obrigada a responder perguntas esdrúxulas sobre qual seria a cor do filho deles. Daí em diante, a artista teve a genial ideia de fotografar sua família e ela mesma. A mãe de Angélica é uma negra descendente de índios e seu pai, também negro, foi adotado por uma família de brancos no Rio. Em seguida, a artista passou a registrar seus amigos e rapidamente, passou a fotografar desconhecidos. Os cliques sempre sem camisa e em 3×4 com fundo branco acontecem em um pequeno estúdio portátil que ela carrega mundo afora. Depois, a artista recorta um pedaço da ponta do nariz de cada fotografado, cuja cor é usada como fundo de cada foto. Sob cada imagem ela inclui ainda o número da cor de referência retirada da paleta industrial Pantone, tida como a bíblia das cores. Após criar seu Tumbrl e uma página para divulgar as fotos do projeto “Humane” no Facebook, os convites começaram a chegar rapidamente e logo, Angélica já estava expondo os resultados em grandes galerias, museus e praças públicas pelo mundo, como aconteceu em São Paulo, em 2013, numa praça do centro da cidade. Se as cores nunca foram um problema em sua família multiétnica, Angélica percebeu cedo que o mesmo não se aplicava da porta de casa para fora. “O Brasil é um dos piores lugares do planeta para se nascer negro. Há um racismo institucionalizado e escondido”, afirmou ela à revista Serafina, da Folha de São Paulo, para onde concedeu uma entrevista de quatro páginas logo após dar uma palestra que emocionou a audiência do TED, em Vancouver, onde foi aplaudida de pé. Desde dezembro, Angélica está passando férias no Rio de Janeiro, mas, nesse meio tempo, já teve que se deslocar a trabalho. Foi convidada para ser uma das líderes culturais do Fórum Econômico Mundial de Davos, que convocou artistas de grande relevância internacional para inspirar as lideranças mundiais com seus trabalhos e engajamento. Estranhamente, não houve uma menção de sua participação em Davos na mídia brasileira. Em março, antes de regressar a Madri das férias no Rio de Janeiro, Angélica irá a Buenos Aires para participar com o “Humane” do FOLA – Fototeca Latinoamericana.

3- Maren Ade

A cineasta alemã Maren Ade (Foto: Divulgação)

Aos 40 anos de idade a diretora, roteirista e produtora alemã, Maren Ade, vive o seu melhor momento profissional. Seu terceiro longa, “Toni Edermann”, uma estranha comédia sobre conflitos geracionais num mundo injusto e globalizado entre um pai viajandão e sua filha executiva e ‘workaholic’, é um dos favoritos ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Isso depois de ganhar o prêmio da crítica no último Festival de Cannes. Lembrando que Maren Ade é a única mulher diretora a concorrer nessa categoria do Oscar este ano. Além disso, Hollywood já anunciou uma versão norte-americana do filme cujos direitos já foram negociados com a realizadora. O desejo de realizar o ‘remake’ americano de “Toni Edermann” partiu de ninguém mais ninguém menos que a lenda viva Jack Nicholson, que virou fã incondicional da comédia alemã. E, claro, o papel principal da película ‘made in United States’ caberá ao próprio Nicholson. Contudo, até aqui, a trajetória de Maren Ade foi movida a muito trabalho e persistência. Após anos lutando num mundo tão masculino e fechado como o do cinema, a realizadora conseguiu impor-se em seu próprio país como uma das mais talentosas diretoras mulheres, não só da Alemanha como da Europa. Nada mau para a mãe de dois filhos que divide o seu tempo entre a vida doméstica e o trabalho criativo em sua própria produtora, a Komplizen Film, baseada em Berlim. Por causa da maternidade, Ade decidiu realizar um longa a cada sete anos. Nesse meio tempo, ela atua como coprodutora e produtora associada de várias produções europeias, entre elas “As Mil e Uma Noites”, elogiadíssima triologia ‘nonsense’ do cultuado diretor português, Miguel Gomes. Casada com o também diretor Ulrich Köhler, Maren Ade nasceu em Karlsruhe, sudeste da Alemanha, mas vive e trabalha na capital, Berlim. Após iniciar um curso de produção e mídia, ela acabou se formando em direção pela Escola de TV e Cinema de Munique, e seu trabalho final foi o longa, “Der Wald vor lauter Bäumen” (“A Floresta das árvores altas”), um filme estilo “guerrilha” realizado com baixíssimo orçamento em formato de vídeo no ano de 2003. Sete anos depois, veio o segundo longa, o drama romântico “Alle Anderen” (“Todos os Outros”) que lhe rendeu, entre outros prêmios, o Urso de Prata de melhor filme do Festival de Berlim no ano de 2009. Mas só agora, com o sucesso de público e crítica de “Toni Edermann” – cujo personagem principal, Winfried, foi inspirado nas piadas feitas pelo seu próprio pai – que Maren terá a chance de adentrar o panteão dos grandes realizadores do panorama contemporâneo do cinema mundial.

4- Sabrina Fidalgo

A cineasta carioca Sabrina Fidalgo (Foto: Divulgação)

Multiartista, a carioca Sabrina Fidalgo é diretora de cinema, roteirista, produtora, atriz e, de vez em quando, assume a persona “Lady Sabrina Queen” em suas performances como DJ nas festas mais descoladas do Rio. “Mas meio que aposentei a LSQ (as suas inicias de DJ) por ora”, avisa. Seu posicionamento “anti-racialização” dos diretores negros no cinema brasileiro é bem conhecido e costuma provocar acalorados debates. Para ela, “aceitar e vestir os papéis oferecidos pelo racismo institucional sem o mínimo de questionamento e ainda prestar-se a servir de ‘token’ apenas para
receber uma rebarba do sistema, ocupando, assim, um nicho racial, sem que isso implique em alguma corrente ou movimento estético, é abaixar demais a cabeça, sem o mínimo de consciência. E isso é algo que não combina em nada comigo. Temos que vencer o machismo, o racismo e as barreiras impostas no cinema brasileiro, sim. Mas o objetivo é a paridade em todos os sentidos e não, o recebimento de reles migalhas”. A diretora da cultuada ficção-científica, “Personal Vivator”, curta afro-futurista estrelado por Fabrício Boliveira, é considerada uma das grandes promessas femininas do cinema e já teve seus filmes exibidos em mais de 50 festivais nacionais e internacionais, em lugares que vão de Tóquio, passando por Maputo, chegando até Los Angeles, entre muitos outros. Em novembro último, Sabrina lançou seu sexto e mais recente trabalho no Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro, o Curta Cinema, a obra-prima “Rainha”, uma fábula superpotente de 30 minutos sobre o carnaval filmado em preto e branco, que conta a saga de uma jovem negra e periférica (interpretada pela atriz e musa da diretora, Ana Flavia Cavalcanti) que luta para realizar o sonho de se tornar a rainha da bateria da escola de samba de sua comunidade. A cineasta realizou “Rainha” após ter sido a diretora convidada e escolhida pelo comitê do edital de curtas “Fábrica de Cinema”, financiado pelo Polo Audiovisual da Zona da Mata de Minas Gerais. Com isso, o projeto também foi contemplado com o patrocínio da empresa Energisa. E antes mesmo do encerramento da última edição do festival carioca, o filme já havia sido aclamado pela crítica especializada como um dos maiores ensaios estético-antropológicos sobre o Carnaval no cinema e recebido mais quatro prêmios de outro festival, o Ver e Fazer Filmes. Ao final do Curta Cinema, “Rainha” foi laureado com o prêmio de melhor filme pelo Júri Popular. Filha única de Ubirajara Fidalgo, dramaturgo negro pioneiro e criador do T.E.P.R.O.N (Teatro Profissional do Negro) e da produtora, cenógrafa e cofundadora do T.E.P.R.O.N, Alzira Fidalgo, Sabrina cresceu em um ambiente cercado por arte, política e militância. Começou a atuar na companhia dos pais ainda aos dois anos de idade como mascote do T.E.P.R.O.N e, além disso, cresceu fazendo participações esporádicas em comerciais, filmes e programas de TV. Aos 21 anos, trocou o curso de Artes-Cênicas na Uni-Rio por um curso alemão em Munique, Alemanha. Estudou cinema e documentário na Escola de TV e Cinema de Munique e, em seguida, após participar de um disputado concurso com vários alunos europeus, foi a única latino-americana a ganhar uma bolsa integral para cursar especialização em roteiro na Universidade de Córdoba, na Espanha. Àquela altura, a jovem realizadora já estagiava em diferentes funções nas produções da escola e em outras produções independentes europeias e, em pouco tempo, realizava os seus primeiros curtas. Ao ser premiada pelo Lateinamerika-Institut da Universidade Livre de Berlim, pelo curta “Black Berlim”, Sabrina retornou de vez ao Brasil e abriu sua própria produtora independente junto com sua mãe, a “Fidalgo Produções”, com a qual realizou, até agora,  seis curtas, um documentário musical de média-metragem para a TV e vários videoclipes. No final de 2016, Sabrina ganhou a primeira retrospectiva de sua carreira promovida pelo Centro de Artes da UFF, onde todos os seus curtas foram exibidos no Cine Arte da universidade em Niterói, Rio de Janeiro. Uma nova retrospectiva de sua obra ocorrerá, desta vez na Central de Produção Multimídia (CPM) da Escola de Comunicação da UFRJ, prevista para acontecer no mês de abril. Enquanto isso, a cineasta ocupa-se com a carreira nos festivais e mostras do recém-lançado “Rainha” e trabalha em uma série de outros projetos para o cinema, teatro e TV, entre eles, o maior de todos os seus projetos, o seu primeiro longa de ficção. Todos os projetos terão a participação de seu “Iansamble” (mistura de Iansã com “emsamble”, que quer dizer grupo, em francês) o mesmo grupo de atores e técnicos com os quais vem trabalhando desde “Personal Vivator”.

5 – Djamila Ribeiro

A filósofa e ativista do feminismo negro Djamila Ribeiro (Foto: Divulgação)

Feminista brasileira, pesquisadora e mestre em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo, Djamila Ribeiro foi secretária-adjunta de Direitos Humanos e da Cidadania da cidade de São Paulo durante a gestão do prefeito Fernando Haddad. Virou a maior referência do feminismo e do movimento negro no Brasil graças aos seus posicionamentos firmes e didáticos como colunista da revista Carta Capital, aos seus textões no Facebook e a maciça participação em debates por todo o Brasil. Arrasadora, Djamila, que também é dona de um invejável carisma, consegue nocautear seus interlocutores sempre com respostas sensatas sobre questões que envolvem a situação da mulher negra brasileira. Suas recentes aparições em programas televisivos aumentaram sua popularidade por todo o país, o que a levou a estrear como apresentadora de seu próprio ‘talk-show’, o “Programa de Entrevista”, que debutará este ano no Canal de TV a cabo, Futura. Djamila nasceu em Santos, cidade do litoral de São Paulo, e ainda na infância entrou em contato com a militância política por influência de seu pai, um estivador que era fazia parte do movimento negro, comunista e autodidata, que mesmo com pouco estudo formal, era um erudito e mantinha uma grande biblioteca em casa. Ela é a mais nova de dois irmãos e uma irmã, e guarda memórias de uma infância feliz, com os cabelos sendo trançados por mãe e avó, aulas de xadrez na União Cultural Brasil-União Soviética (foi medalhista de bronze, aos oito anos, em um campeonato de xadrez santista), tardes no Partido Comunista de Santos, que o pai fundou ao lado de outros militantes. No entanto, já na primeira série do Ensino Fundamental (o equivalente atual ao segundo ano), o racismo se tornou cada vez mais presente em sua vida, por meio de xingamentos de colegas de classe, exclusão, falta de preparo de profissionais de educação para lidar com a situação e outras questões, o que foi minando sua confiança em si mesma. Aos 18 anos, envolveu-se com a Casa da Cultura da Mulher Negra, uma organização não-governamental santista, e passou a mergulhar cada vez mais em temas relacionados a gênero e raça. Djamila, que se mudou recentemente de Santos para um apartamento em São Paulo, ainda consegue conciliar tantos compromissos profissionais com a maternidade. É mãe de uma menina de 11 anos.

6- Negoçada

As estilistas e criadoras do Negoçada (Foto: Divulgação)

Negoçada significa bagunçada e misturada. É com esse nome que a estilista carioca Layana Thomaz e a artista plástica e estilista mineira Maira Nascimento, com colaboração da grafiteira mineira Rafaela Monteiro, a RafaMon (todas radicadas no Rio) estão causando no pré-Carnaval carioca com uma linha de fantasias e adereços carnavalescos com viés feminista que se tornaram o maior ‘hit’ da cidade. O Negoçada conta ainda com uma equipe composta exclusivamente por mulheres, das bordadeiras à cenografista. A estreia do coletivo nas ruas aconteceu na abertura do pré-Carnaval carioca em janeiro, durante o cortejo do famoso bloco Boi Tolo. Em meio a um mar de foliões e folionas vestidos com toda a sorte de fantasias, o trio conseguiu se destacar e chamar a atenção com seus acessórios em formato de útero e fantasias feministas bordadas à mão. Ao ser perguntada sobre o motivo de usar um adereço com um desenho de útero na cabeça durante o Carnaval, Maíra Nascimento, estilista da marca Maria Filó, não pensou duas vezes: “O orgulho de ser mulher! Por que não estampar na cara das pessoas uma coisa que faz parte das nossas vidas e é tão simbólica? Temos um útero e devemos usá-lo como bem entendermos. Podemos ter filhos ou não, por exemplo. O órgão está ali na fantasia como uma bandeira a ser levantada. Uma bandeira de orgulho, feminismo e direitos reprodutivos”. O que uniu as três foi o feminismo, tema central que está sendo discutido no Brasil com direito a todos os holofotes nos últimos dois anos e gerando uma série de debates sobre o empoderamento da mulher na sociedade. Layana, figura tarimbada do extinto Fashion Rio e dona da marca ALOJA, projeto de moda itinerante que percorre o país, no qual trabalhou (e muito!) durante os quatro anos que passou em Brasília, agora, está de volta ao Rio de Janeiro. Em Brasília, junto à sua família, Layana também cuidou do seu coração, lutando contra uma doença grave que conseguiu superar, o que faz com que o Negoçada também tenha gosto de redenção, já que se trata do primeiro projeto após um longo e doloroso tratamento. Os embates sobre feminismo e o papel da mulher a fizeram se aproximar de Maíra e juntas, tiveram a ideia de colocar o bloco do Negoçada na rua. O conceito de abrasileiramento do ‘girl power’ durante o Carnaval não poderia dar mais do que certo. A coleção da Negoçada é toda bordada à mão e leva ‘patchs’ exclusivos, desenvolvidos pelas criadoras. Além do útero, os ornamentos trazem textos bordados com expressões contemporâneas como “respeita as mina”, “não, obrigada”, além de desenhos de punhos cerrados, só para citar alguns. O conceito é o da roupa ‘post-it’ e a ideia é impactar os foliões sobre questões delicadas como assédio masculino. Um dos itens mais desejados são os adereços em forma de orelhas de coelho, numa referência a um dos maiores símbolos da objetificação feminina difundido pela revista Playboy. A versão da Negoçada leva os ‘patchs’ empoderadores da marca e foi grafitada pela artista Rafaela Monteiro. Como não poderia deixar de ser, todas as peças têm purpurina, paetê e estrelas. Símbolo máximo do Brasil, o Carnaval sempre foi um palco privilegiado para manifestações políticas. Então, nada melhor do que transformar a luta feminista e a folia em samba. Em Brasília, Layana realizou um trabalho de encorajamento para que vítimas da violência doméstica levassem a denúncia até o fim. Ela diz: “Vejo o Carnaval como um palco de homenagens e levantamento de questões importantes. Tratar o feminismo dessa forma é uma maneira de abordá-lo fora do lugar comum. Falamos do assunto de uma maneira mais solta, que talvez seja até mais fácil para as pessoas entenderem”. Nos últimos fins de semana, as estilistas tiveram a comprovação de que a mensagem nas fantasias estavam cumprindo o seu papel social. Nos pontos de venda onde elas organizaram bazares com as peças do Negoçada não sobrou pedra sobre pedra. Pedidos de venda já estão sendo feitos fora do Rio. No último fim de semana, Layana esteve em Belo Horizonte comandando as vendas para os foliões mineiros. As próximas datas de pontos de venda serão nos próximos dias 17, 18 e 19/02 na Casa Soma e dia 22/02 será a vez de Brasilia, na Cervejaria Criolina. E a notícia ainda melhor que essa, é que o Negoçada não sairá de cena após a folia! O mote feminista vai muito além desse pontapé inicial e o trio seguirá com o trabalho voltado para causas sociopolíticas sob o viés da mulher.  “Mas o Carnaval está sendo um início lindo, importantíssimo e muito forte”, conta Layana à Vertigem. Temos certeza que sim!

7- Alice Caymmi

A cantora e compositora carioca Alice Caymmi na capa do novo ‘single’, “Louca” (Foto: Divulgação)

A rainha dos raios está de volta e com novo ‘single’. E tudo leva a crer que virá um novo álbum este ano. A jovem cantora e compositora Alice Caymmi, filha de Danilo, sobrinha de Nana e Dori, e neta do mítico gênio Dorival Caymmi, lançou, semana passada, uma versão de “Louca”, agora disponível no Spotify. A música, versão em português do hit mexicano “Loca”, foi traduzida pelo pernambucano Renato Moreno para a Banda Kitara, expoente do brega local. A canção original se popularizou na voz da cantora e atriz mexicana Thalía, ícone brega dos anos 90 e protagonista absoluta da famosíssima trilogia de novelas mexicanas “Maria do Bairro”, “Marimar” e “Maria Mercedes”, todas exibidas com enorme sucesso e reprisadas ‘ad eternum’ pelo SBT. Composta em parceria da própria Thalía com Estéfano e José Luis Pagán, foi lançada no álbum “El sexto sentido”, em 2005, nono álbum de estúdio da estrela. Em Pernambuco, “Louca” tornou-se um dos maiores ‘hits’ da Banda Kitara. “Dizem que sou louca, fora de controle / Que você controla todos meus sentidos / Que me afastei de todos / Que nem ligo pros amigos”, dizem os versos em português. Na nova versão de Alice, a musica ganhou batidas de funk e tecnobrega, com produção do carioca João Brasil, responsável por “Moleque Transante”, sucesso funk de 2013 do coletivo de house-miami bass Rio Shock, que ele ajudou a criar. “Eu me interessei por ‘Louca’ porque ela tem uma melodia consistente e, ao contrário do que eu estou acostumada a cantar, fala de um amor que é intenso e feliz”, conta Alice, que escolheu a cor rosa para as fotos de divulgação do novo ‘single’ para transmitir “uma ideia estereotipada de feminilidade, mas de um jeito transgressor”, explica ela. Com seu vozeirão poderoso, grave e potente, que se assemelha ao da tia Nana Caymmi, a cantora surgiu na cena musical, em 2012, de maneira nada tímida. Após estudar a obra do avô e participar, desde a infância, de shows da família, Alice, por fim, lançou o primeiro e aguardado álbum de estúdio pela Sony Music, que levava apenas seu nome e foi produzido por Flávio Mendes, com direção artística da própria Alice, trazendo composições próprias – algumas das letras foram compostas ainda na adolescência -, além de versões inusitadas como a de “Unravel” da islandesa Björk. A própria chegou a escrever em seu site “não dá para fazer melhor do que isso”, levando Alice às lágrimas. Mas foi em 2014 com o lançamento de seu segundo álbum de estúdio, “Rainha dos Raios”, lançado pelo selo independente Joia Moderna que Alice estourou pra valer na cena musical e se tornou a musa dos modernos e descolados. O disco foi elogiadíssimo pela crítica e foi considerado o terceiro melhor álbum daquele ano pela revista Rolling Stone. Além disso, Alice trouxe nesse álbum, em sua maior parte, releituras de músicas consagradas por outros artistas, entre elas o funk “Princesa” de MC Marcinho. Com cabelos loiros platinados, visual arrojado e vanguardista, fruto de sua parceria com o produtor e criador do São Paulo Fashion Week, Paulo Borges, Alice despontou como uma das artistas mais ousadas e inventivas da cena de música brasileira contemporânea. Uma verdadeira pós-moderna, que mistura sons, modas e não-modas, cores, sotaques, timbres, influências. Os shows de “Rainha dos Raios”, que estavam mais para uma instalação artística do que para uma apresentação convencional, tornaram-se experiências disputadas a tapa, em parte, por essa verve performática da cantora, que, mesmo com visual hiper-contemporâneo, debruçava-se em baladas de Maysa e em versões de clássicos como “O Que é que a Baiana Tem?” e “Oração de Mãe Menininha”, célebres composições do avô, para delírio dos fãs. De maiô, Alice desafiava os padrões de beleza com suas curvas, bem longe do estereótipo de magreza glorificado e imposto pela mídia e publicidade. Sobre esse tema, ela falou certa vez: “É meu lado ativista. Cresci sofrendo por conta da minha aparência, em ver diariamente as mulheres se depreciando, se sentindo mal. A exposição é algo ainda sofrido para mim, mas me sinto bem. Se eu tiver que fotografar meus pneuzinhos no Instagram, eu vou. A gente precisa estar mais feliz, porque nossa autoestima está lá embaixo”. O ativismo político, o feminismo e elementos do candomblé e da cultura afro-brasileira estão sempre presentes no seu trabalho, seja nas canções, seja nas performances, videoclipes, fotos ou em sua presença forte e opinativa nas redes sociais. Alice Caymmi é uma voz que merecerá ser ainda mais ouvida em 2017.

8 – Ava DuVernay

A cineasta americana Ava DuVernay (Foto: Divulgação)

A americana Ava DuVernay é diretora, roteirista, produtora, publicitária e comanda a distribuidora de filmes, Array, na Califórnia. Ava é considerada, hoje, uma das mais famosas e poderosas diretoras mulheres do cinema independente norte-americano e seu nome lidera sempre o topo das listas das maiores e mais promissoras realizadoras do cinema mundial. Em 2012, Ava foi a primeira mulher negra a ganhar o prêmio de melhor direção no festival Sundance com o seu segundo longa, “The Middle of Nowhere”, a primeira mulher negra a concorrer ao Globo de Ouro de melhor diretora e ao Oscar de melhor filme e melhor direção com o seu aclamado longa “Selma – A Marcha da Liberdade”, sobre a marcha liderada por Martin Luther King contra a segregação racial e pela defesa dos direitos da comunidade negra nos EUA. No próximo dia 28, voltará ao Kodak Theater outra vez, desta vez concorrendo com seu novo filme, “A 13ª Emenda”, produzido pelo Netflix, na categoria melhor documentário. O documentário já é tido como o favorito nos bolões do Oscar e, caso a profecia se concretize, Ava será, de fato, a primeira mulher negra diretora a ganhar uma estatueta na história do Oscar. Em “A 13ª Emenda”, Ava propõe um amplo debate sobre a situação racial nos EUA em plena era Trump, traçando um paralelo entre a situação penal americana e o fim da escravatura nos Estados Unidos. Nessa época, havia uma grande necessidade de mão-de-obra barata, então, a solução foi acusar parte dessas pessoas recém-libertadas por crimes banais como vadiagem, levando-as a trabalhar sob custódia. Ava estabelece uma relação direta entre a abolição da escravatura, a segregação racial e a guerra contra o crime e contra as drogas. O resultado é um fenômeno de encarceramento em massa num país onde as prisões são um grande negócio. Ava é uma das mais importantes vozes no debate sobre diversidade em Hollywood, e está pondo a mão na massa para mudar os rumos da indústria cinematográfica. Um exemplo disso é o trabalho que ela desenvolve com a sua distribuidora, cujo foco é distribuir trabalhos de cineastas mulheres e de minorias, dando visibilidade a obras que talvez jamais viriam a público. Ao L.A. Times, Ava disse: “Eles estão se perguntando: ‘Por que fazer algo que ninguém vai assistir?’. Há um desrespeito inerente à distribuição. Há uma segregação cinematográfica em como os filmes são ou não são vistos. O que estamos dizendo é que não vamos mais depender disso a partir de agora. A Array vai atuar não apenas nas salas de cinema, mas também em plataformas como o Netflix. O consumidor está decidindo o que quer ver, quando e como quer ver, e cineastas estão cada vez mais cientes disso, e aceitando o fato de que o sucesso não depende de ter o filme no cinema tradicional”. Ava DuVernay é uma das arquitetas dos novos tempos e está fazendo história nesse romper de barreiras que dará à muita gente um espaço precioso na cultura audiovisual.

Lúcia Lázaro é jornalista, cinéfila e acredita no poder feminino, acima de tudo. 

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