Palmira Margarida

: Notas Perfumadas :

As mulheres guerreiras: erva artemísia

Estamos acostumadas a honrar, a fazer nossos despachos, altares e defumações a guias e deuses. No entanto, as plantas encarnam os próprios deuses, ou melhor, as próprias deusas. A série ‘Mulheres e deusas’, da qual este artigo faz parte e é o segundo, nasceu através de um olhar atento de tantas irmãs que já tiveram a oportunidade de captar uma planta como entidade, e não apenas como mais um apetrecho de adoração*. Este texto é uma forma de honraria às grandiosas plantas nomeadas de Artemísia (família das Asteraceae… salvem as margaridas!), por toda a força que habita nessas entidades, em seu lugar de deusa Artemis, a grande caçadora e protetora das matas, das pequenas meninas, suas aprendizes, das parteiras, das doulas e parturientes. Por tudo que você é e por todos os nomes que lhe deram, pois em um apenas você não caberia, nós, mulheres, lhe dedicamos este escrito. Estamos saindo do ciclo do vetiver — as mulheres viscerais, a raiz que encarna nossas ancestrais e os cabelos da Gaia, para adentrarmos no reino da poderosa Artemísia, o corpo pulsante da mulher. Disseram que nossos corpos deveriam ser tapados e silenciados, enquanto todas sabemos, lá no íntimo, que eles desejam mesmo é pulsar e viver!

O cheiro é forte, o sabor é amargo, a cor, quando utilizada em bruxarias (tinturas, macerados, óleos), é verde, e há muitos codinomes para essa rainha expurgadora, pungente e, para muitos, amedrontadora. Artemísia é um nome comum dado a uma variedade de plantas que podem chegam a mais de 100 espécies: erva das bruxas, cânfora de jardim, artemísia-dos-ervanários, macela-do-reino, camomila-pequena, margaridinha, erva-lombrigueira, losna, losna-brava, erva-de-são-joão e absinto, aquela mesma, da bebida que coloca qualquer um em estado lisérgico. Ajuda a mulher a colocar seu bebê ao mundo, em meio a um parto complexo, ela dá a partida final e a nova vida vem à tona. Ela é alegre, ela é para fora, quer sangue jorrando, criança saindo, pulso aberto, gente enlouquecendo (no bom sentido). Ela é tóxica! Cuidado com ela! Cuidado com essa moça! Respeita ela, respeita as minas! Se a losna falasse, esse seria o recado dela: “Nos respeite, porque somos expurgadoras, e a vida vem desse nosso expurgo.” Ela mata verme bravo, ela combate malária, o seu canforado (na Artemisia vulgaris) expulsa seres malignos, expele sangue pisado de menstruação atrasada, de mulher que, triste e silenciada, não permite seu sangue vir ao mundo, por medo, por vergonha. De mulher que, workaholic e destemida, não permite que seu sangue desça, por medo de ser roubada, ludibriada e passada para trás. Ela já apanhou tanto! Muitas de nós apanhamos tanto, tivemos que aprender a ser selvagens, amedrontadoras, e nosso sangue, tão sagrado (mesmo que inconscientemente), não pode descer, “pois irão me roubar”. Ou, ainda, “esse sangue me dá muito trabalho, é nojento, não quero ele”, porque assim nos fizeram acreditar sobre as emanações de nossos corpos neste mundo machista e civilizador, domesticador de paixões, de realidades e de poder, do nosso lado farejador. Mulher, queira o seu sangue escorrendo pelas pernas! Queira seu poder vindo à tona, queira os seus cheiros, os olhares de espanto, veja como sagrado o seu lugar tóxico, seu olhar lisérgico e sua força para espantar vermes!

A losna, em voz entoada e tóxica, grita: “Não vão nos silenciar!” Ela tem muitas cabeças, muitos nomes, muitos amargos dentro de seu perfume. Nós também temos! Quantos amargos, dores e situações você já precisou revolver dentro de si? Quantos relacionamentos já te envenenaram, e você precisou fabricar o seu próprio veneno para se proteger? Quantos expurgos você teve que aprender a fazer? De quantas tristezas sua carne é feita? De quantos lutos suas vísceras são tracejadas, de todas as pessoas que você se viu obrigada a expurgar, não para sobreviver, mas para renascer? Isso é a artemísia! Vai jorrar sangue, vai ser tóxica quando preciso, vai expulsar a depressão, vai pulsar, vai sorrir.

Ela é usada pelos chineses, milenarmente, na técnica de moxabustão, foi uma das primeiras ervas a serem utilizadas como medicinais no mundo, foi pioneira como defumação, para expulsar espíritos malignos no interior das casas e de locais sagrados, como oratórios e cemitérios. Foi chamada de Fada Verde (la fée verte) por artistas da Belle Époque, como o colorido e enevoado Toulouse-Lautrec, e como Baudelaire e Van Gogh. A artemísia absinto já levou muitas pessoas à loucura, epilepsia e também à histeria, palavra pela qual tenho antipatia, por ter um teor machista, ao colocar mulheres que lutam por sobrevivência e por local de fala como loucas descontroladas e sem nenhuma racionalidade.

Se tem algo que artemísia tem é racionalidade, e, para utilizá-la, é preciso muita atenção e sensatez, pois, de acordo com a quantidade, ela é abortiva e tóxica, é fada verde, dá medo, é alucinógena (dependendo da espécie), parteira e emenagoga. Uma mulher que expurga sangue, que pare, que lida com a parturiente, doula, visceral, sem medo das fezes, das placentas, dos intestinos, das lombrigas, que mata vermes, que ajuda bebês a saírem de dentro de suas mães, que torna-se tóxica quando “abusada” e que participou de forma profunda de movimentos artísticos como simbolismo, surrealismo e cubismo, não pode, de forma alguma, ser vista como apenas um apetrecho, um cheiro, mas como uma profunda entidade que participa de nossas memórias, histórias e tipos de comportamento.

Algumas mulheres já são muito artemísia, outras precisam aprender com ela. Em que lugar você está? Vou contar uma das histórias de nossa planta que foi associada a uma deusa — na verdade, a deusa foi associada a ela por simbolizar a mesma energia exalada por algumas mulheres. Artemis, deusa da lua, da intuição e do farejamento, caçadora das matas, pediu ao pai, Zeus, que fosse sempre virgem (no sentido de liberta) e tivesse muitos nomes (algo parecido com a planta?), para se diferenciar de seu irmão gêmeo, Apolo. Pediu também que fosse livre para caçar e que tivesse sessenta filhas para serem suas companheiras e para ensiná-las a caçar e andar pelas florestas, além de vinte ninfas como companheiras e a capacidade de ajudar as mulheres em suas dores (foi ela quem fez o parto da mãe). Artemis é um arquétipo que trabalha a proteção e o renascimento dos abusos a que o sexo feminino é exposto na sociedade. Há vários mitos das tentativas de estupro que ela sofreu por ser uma mulher livre na floresta. Suas ninfas também eram estupradas. Seu pai, Zeus, estuprou Calipso, ninfa predileta da deusa. Nos poemas de Homero e Plínio, há passagens de como Artemis transformava homens e meninos que tentaram estuprá-la em meninas. Foi o caso de Sipriotes.

Em Roma, se tornou Diana, e seus devotos eram pessoas de baixa renda, fora da corte, pois estavam mais próximos da natureza, da vida no campo e, por isso, viam maior ligação com essa deusa. Esse culto entre os campesinos e nos lugares mais ermos fez com que Artemis fosse a última deusa a ser solapada pelo cristianismo. Na forma de Diana, foi a última deusa a cair e seu culto chegou a receber o nome de religião Diânica (séculos X-XIV , segundo o historiador Carlo Ginzburg).  A Igreja católica interpretava essas adoradoras diânicas como analogias de Herodíade, neta de Herodes, que mandou cortar a cabeça de João Batista. Herodíade é uma personagem bíblica (judaica) e pode ter sido “sincretizada” com a Hera grega e a Diana romana — chamada de Heradiana e muito parecida, não só no nome como no comportamento, com a judia Herodíade. Daí pode ter vindo (e atravessado o oceano) a associação da erva artemis com o nome de São João, erva-de-são-joão. Seria algo como “erva que cortou a cabeça de São João Batista”. E vamos nos perguntar: por que Herodíade, a mulher, é má, e São João é bom? Por que há essa dualidade? E por que mulheres sempre são más na história? Por ora, como historiadora, penso que erva-de-são-joão deveria se chamar erva-de-heradiana, erva-de-diana, erva-de-artemísia. E mais, chamo a atenção para percebermos como uma das deusas mais guerreiras e fortes, Artemis, foi a última a sucumbir ao cristianismo. A mitologia imita a vida ou a vida imita a mitologia? As deusas imitam as energias das plantas ou as plantas imitam os mitos das deusas?

As mulheres ligadas a esse arquétipo buscam a liberdade e a liberação das dores de violência. Elas têm o espírito livre. É uma deusa criativa quando livre e, apesar de não querer a maternidade, ela cuida das parturientes e gera outras formas de vida no mundo. É a mulher destemida, que busca autossuperação, forte, corajosa. No aspecto negativo, pode trabalhar demasiadamente e ser muito autorrígida e autocrítica. Pode ter dificuldades em se relacionar amorosamente e é cruel consigo mesma nesse aspecto, sabotando seus amores. Tem medo de se entregar. Artemis precisa encontrar o equilíbrio em saber que uma guerreira pode amar! Artemis tem sororidade pulsando nas veias e é capaz de matar por outra mulher. Sua lição consiste em aprender que o fato de ser justiceira não impede que ela desenvolva amor e possa receber. Em um mundo em que é necessário andar armado, principalmente as mulheres, como se desarma uma guerreira? Em um país em que uma mulher é morta a cada 11 minutos, como é necessário ser Artemis!

Libertem seus corpos, protejam-nos, sejam livres, mas estejam armadas. Estejam armadas, mas não permitam que o amor morra dentro de vocês. Artemis é brava, mas tem flores! Expurguem os vermes, mas deem flores aos amores!

Atenção: mulheres grávidas e amamentando não devem usar artemísias.

*Este texto é uma homenagem a uma pessoa maravilhosa que tanto me ensinou, não apenas sobre plantas e deusas, mas sobre o amor e sororidade entre mulheres, Marcela Zohar, fundadora da Rede Colmeia de Mulheres.

Palmira Margarida é historiadora e atualmente é doutoranda na UFRJ. Pesquisa sobre neurociências, os cheiros e  as emoções. Estuda também neurobiologia das plantas e é a pisciana mais ariana de que se tem conhecimento. Descende de italianos e adora uma massa, mas fala sem gesticular. Ama viajar e captar os aromas das trilhas, das culturas e das ideias. Está em busca do profundo perfume do Ser. Escreve neste espaço às quintas-feiras. Para informações sobre seu trabalho com aromas, visite o site www.perfumebotanico.com.br ou entre em contato pelo e-mail: palmira.margarida@revistavertigem.com

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