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vertigem

: Notas Perfumadas :

Os cheiros das emoções

Percebo o mundo por cheiros, classifico pessoas pelos acordes aromáticos que saem dos seus corpos. Ou seriam de suas almas? As situações para mim são sentidas como boas ou ruins de acordo com o cheiro que elas soltam. As cores e as emoções têm aromas e deixam um rastro olfativo por onde passam.

Eu sempre cheirei o mundo, meto o nariz em tudo, preciso sentir, essa é a minha melhor forma de conhecer alguém ou entender uma situação. Hoje, sei que dão o nome de sinestesia para isso, mas, de fato, o nome pouco me importa, pois não sei como é viver no mundo de outra forma. A maioria dos cheiros que sinto é inominável, mas, para formatação e a fim de que as pessoas entendam o que estou sentindo, crio analogias com aromas conhecidos, como cheiro de terra,  de apimentado, de ácido.

Venho pesquisando o sentido olfativo para entender-me. Nessa busca, só fortifico minha certeza de que o sistema olfativo é algo impressionante e ainda nos revelará muitas chaves sobre quem somos ou, pelo menos, sobre como e por que sentimos emoções. O olfato, ao mesmo tempo que se apresenta como um dos sentidos com fisiologia mais primária do nosso organismo, é também o que provoca e evoca lugares sublimares e etéreos: nossas emoções e memórias, que sentimos com tanta força, mas que nos escapam feito fumaça leve de incenso (aliás, a palavra perfume significa “através da fumaça”).

No entanto, perdemos o treino do nariz com o solapamento de sua função. O olfato foi segregado no iluminismo, justamente por seu comportamento tão “primitivo” e animalesco de cheirar as partes, farejar o ânus do outro animal, as fezes, a terra, os alimentos, de cheirar o parceiro e o próprio corpo. Quem sabe, se tivéssemos dado atenção ao olfato, seríamos todos capazes não apenas de sentir os cheiros triviais à sobrevivência, mas também os cheiros das emoções? Afinal, o sistema olfativo, que ao mesmo tempo nos impute um comportamento tão visceral, também é responsável por detonar o fator sublimar do que somos: o sentir!

Isso fez-me lembrar há pouco tempo que nossas fezes e uma flor de jasmim, dois “lugares” que parecem tão distantes, desprendem seu aroma da mesma molécula olfativa, o indol. A diferença está na concentração. Por analogia, as fezes são nossas vísceras; o jasmim, nossa alma. Os dois exalam o mesmo perfume. Jasmim: jaz em mim! As memórias que jazem em mim são partes de minhas vísceras e são exaladas através de emoções. Logo, emoções são perfumes de tudo que jaz em nós.

Afinal, poderiam existir emoções sem o nosso lado profundo, animal e visceral? De onde vêm as paixões, a raiva, a alegria, o pavor, senão de nossas vísceras? Sem vísceras não há jasmim, jaz em mim! Não há nota alta ou aguda que se sustente sem uma nota grave. Não há perfume que se sustente sem uma boa nota visceral, telúrica. Assim, considero que há uma paleta aromática das emoções. Há cheiros inenarráveis para o medo, espanto, luta ou amor.

O que é possível para eu demonstrar esses aromas são associações entre concepções olfativas comuns: tem gente que pertence à família dos frutados, outras pessoas dos telúricos ou dos florais. Algumas emoções são bem demarcadas em seus perfumes e, abaixo, fiz uma pequena lista de como funciona o meu mundo:

Emoções ou sentimentos:

Ódio, raiva: cheiro de fio queimado

Depressão, tristeza, pessoa perdida: cheiro hepático – cor amarela encardida

Gente sem vontade, desanimada, pensamentos tristes: cheiro de metal

Alegre, cheia de ideias, espevitada: cheirinho de frutas cítricas como laranja e tangerina

Confiantes ou confiáveis para mim: pão quentinho, cheirinho de pãozinho de queijo

Amorosas, que se amam, ideias boas: cheiro de baunilha

Pessoas amedrontadas e espantadas: cheiro de estilhaço

Donas de si, orgulhosas: pinho

 

Pessoas ou obras:

Alma-Tadema: cheiro do som de flauta

Antonin Artaud: cheiro de terra

Baba Yaga: cheiro de terra

“Clair de Lune”, do Debussy: cheiro de cristal com gosto de cintilante

Som da flauta: cheiro de água

Tons de azul: eucalipto ou baunilha (depende do azul)

Como pode-se perceber, a linguagem da sinestesia ainda é complexa, talvez para a ciência, pois para mim é simples e faz sentido imediato. Creio que todos nós somos capazes de depreender de um outro ser humano ou obra muito mais do que tato, olfato, paladar e audição separadamente. Apenas observo em mim mesma que, para sentir o mundo dessa forma “doida” é mais com as vísceras do que com a razão e, já tocando nesse assunto de novo, quero contar para vocês que consigo sentir cheiro de fezes nos jasmins, e isso não me incomoda. Acho lindo, me diz algo profundo sobre estar vivo. Porém, o mais encantador é sentir o cheiro de suor e sexo nas rosas, principalmente nas vermelhas. Não será por isso que a humanidade as tem como símbolo dos enamorados? No fundo, sinto que todos sentem os cheiros das emoções.

Palmira Margarida é historiadora e pesquisa a história dos cheiros, é a pisciana mais ariana de que se tem conhecimento. Descende de italianos e adora uma massa, mas fala sem gesticular. Ama viajar e captar os aromas das trilhas, das culturas e das ideias. Está em busca do profundo perfume do Ser. Escreve neste espaço às quintas-feiras. Para saber mais sobre atendimentos e produtos com aromas naturais: palmira.margarida@revistavertigem.com